Eu sou perdida. Nasci assim. Não tenho o menor senso de localização espacial.
Durante toda a minha infância e boa parte da adolescência, meu pai, que deve ter engolido uma bússola quando ainda usava fraldas, adorava comentar sempre que podia como a minha mãe e eu éramos perdidas e como ele e a minha irmã eram incrivelmente bem orientados. De fato eram, mas precisava jogar na cara?
Perdida ou não, sempre consegui ir & voltar a todos os lugares que precisei. A maior prova disso é que estou escrevendo neste momento, do lugar onde sempre costumo estar a essa hora do dia..
Para piorar minha situação, sou orgulhosa como um homem, ou seja, "detesto" pedir informações na rua, em postos de gasolina, a transeuntes ou a quem quer que seja. Perco o rumo, perco a hora, mas não perco a pose.
Em minha defesa, tenho sempre no carro um Guia atualizadíssimo, com mão de direção e os últimos delírios urbanísticos do prefeito em gestão, apesar de sempre achar que o bendito está de cabeça para baixo em relação ao caminho que eu preciso. Parêntese: por que os moços sempre fazem os mapas de cabeça pra baixo? Deve ser pegadinha, né? Só pode ser. Pois eu sei ler de cabeça pra baixo. Rá! Fecha parêntese.
Sou do tipo que já deu ré em Marginais, em estradas, já peguei a 23 de Maio para o lado errado (várias vezes), enfim, um vexame completo. Isso tudo me rendeu algumas histórias de "perdição".
Uma vez, indo com uma amiga do trabalho a uma reunião em uma fábrica nos cafundós da Raposo Tavares, quase morri de vergonha. Ela não dirigia (siiim! Ainda há mulheres na sociedade ocidental contemporânea, em pleno século XXI, que não dirigem!) e coube a mim a honra de nos conduzir até lá. Alguém sabe onde ficam os cafundós da Raposo Tavares Longe. Muito longe, mas até aí, tudo bem. Eu, precavida, ciente das minhas limitações, peguei meu super Guia atualizadíssimo e pacientemente contei quantos viadutos deveriam ser cruzados até o momento M. O problema é que na prática, a teoria é outra. Uma vez lá, a dúvida: passarela conta como viaduto? Não conta? Para piorar ainda mais, por um capricho do traçado da estrada, só se vê a maldita fábrica DEPOIS de passar pelo acesso. Aí, são 7 quilômetros pra ir, retorno, 14 quilômetros pra voltar, outro retorno, o tempo comendo, o cliente ligando e novamente o bendito acesso oculto... Em desespero, encostei no primeiro trecho não-carroçável da via, saquei o celular e liguei para o dono da agência (isso mesmo! Ele quem tinha me colocado naquela situação, ele que me tirasse) pedindo socorro. Antes da ligação se completar, minha amiga virou-se, me olhou com olhos arregalados e disse:
_ Ó, Ana, na boa, eu gosto de você e tudo, a gente se dá bem... mas eu sou hetero.
_ Pô, amiga! Eu também. Você até conhece meus filho, meu ex-marido... eu conheço os seus!!!
_ Então por que você parou aqui, nessa entrada de motel?...
Outra vez, fiz o maior escândalo num shopping. Cheguei ao local onde havia parado o carro e deparei com aquela terrível sensação de vazio. Primeiro, um calafrio daqueles que arrepiam os cabelos da nuca. Depois, uma onda de calor. "Calma, Ana, você tem seguro", disse o lado racional. "Eu sei, mas roubaram meu carro em pleno estacionamento do shopping, meleca!", disse todo o resto. Horrorizada, chamei um segurança, declarei o ocorrido, disse que ia chamar a polícia e que depois iria à delegacia e fazer B.O. O segurança, com aquele famoso risinho de escárnio no rosto, foi logo perguntando:
_ A madame tem certeza que não parou em outro piso?
Eu, indignada: _ Claro que tenho! Eu sempre anoto meticulosamente o local onde deixei o carro!
Ele, irônico, pegou o maldito walkie-talkie e disse algo como:
_ Ô, Gouveia, procura um carro aí, igual ao da madame, nas coordenadas XPTO dos pisos Y e Z.
O bólido foi encontrado algum tempo depois, pelo "Gouveia", numa vaga na mesma posição, dois andares abaixo.
Um dia, fui ao Shopping Villa Lobos (nunca mais voltei lá) e não conseguia voltar porque não achava retorno naquela bendita Marginal. Entrei dentro de uma favela e segui por ela até o ponto onde não passavam mais carros. Voltei de ré, favela abaixo e quase fui parar no Rio, ou em Campinas, ou sei lá aonde!
Em outro, liguei para meu ex-marido (que, na época, ainda era marido) porque havia me perdido voltando de uma reunião no Cambuci.
_ Onde você está?
_ Sei lá, né? Se soubesse, não estava ligando!
_ Mas me diga o que você vê.
(Comecei a ler as placas)
_ Ana! Você vai parar em Cubatão!
Ééééé, torcida brasileira. Cubatão. Aquela cidade da refinaria, pertinho do Guarujá. Como consegui, eu não sei e certamente não saberia reproduzir o feito. Ele (que também engoliu uma bússola na infância) conseguiu me guiar, remotamente, até um ponto moderadamente conhecido, quando a bateria do celular acabou. De lá, sabe-se como, voltei. Hooooras depois.
Quando preciso ir a algum lugar, sempre peço para me ensinarem o caminho “mais burro”. Aquele que você ensinaria ao seu filho ou sobrinho de três anos de idade, caso ele precisasse se locomover até lá.
_ Está bem (e o interlocutor inspira, pacientemente.). Ana, sabe a Marginal?
_ Depende. Qual?
_ A Pinheiros.
_ Depende. De que lado?
_ Sentido Interlagos.
_ Mas Interlagos pra quem vai? Ou de quem vem?
Eu sou assim. Às vezes, o interlocutor desiste e se oferece para me buscar. É evidente que aceito. Não quero nem nunca quis saber de caminhos espertos, cheios de quebradinhas porque fatalmente me perco. Recentemente, meu namorado disse que queria me dar um GPS de presente. Agradeci, emocionada, mas concluímos que não seria uma boa idéia. O vexame de me perder COM GPS vai ser muito maior. Há não muito tempo, lembro de ter andado em um carro bacana com um GPS importado. O problema era que a mulherzinha só sabia dizer “tourner à la droite, tourner à la droite”. Depois de virar à direita até quase vomitar, desligamos o maldito GPS e desistimos. Não ia funcionar mesmo.
Como diz um grande amigo, "de zero a dez, minha orientação espacial é zero. Engraçado... de zero a cem, também."
Mas estou aqui, não estou? Então pronto!