segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Psicologia automobilística

Depois ainda tem gente que tem coragem de dizer que carro não tem sentimentos. Eu mesma comecei a conversar com o meu de uns tempos pra cá. Ué, qual é o problema? Não há quem converse com plantas? É que ele anda sensível, principalmente com a aproximação do fim do ano. Quem é leitor antigo, sabe que uns dois anos atrás, eu vivi uma verdadeira epopéia automobilística, a ponto de passar dias com meu carro desaparecido no mês de dezembro e de vivenciar o caos de estar, em pleno dia 23, antevéspera do Natal, subitamente sem ré. Mas quem precisa de ré, não é mesmo? Todo mundo diz que é pra frente que se anda...

Enfim, o carro – sim, é o mesmo carro. O mesmo bólido prateado que quase me levou à falência e à loucura há algum tempo – tem demonstrado já há algum tempo, persistentes sinais de carência. Para tentar contornar o problema, já gastei com ele em oficina mais do que certamente gastarei com todos os meus presentes de Natal juntos. É até bom, porque nessa época do ano (com mudança, décimo terceiro da babá, presentes, festas, ceias, amigos secretos aos montes), sempre sobra uma grana que a gente não sabe em que gastar. É um alívio poder dar um destino nobre a um dinheiro que está lá, paradão, sobrando na conta... Só que não adiantou.

Nos últimos trinta dias, passei cerca de dez sem carro. Felizmente, tenho uma alma caridosa na família que não tem usado seu próprio veículo e me cedeu, para uso temporário, sem qualquer custo.

Quando finalmente consegui recuperar meu bólido, após dias de empenho, negociações e ameaças entre o Sr. Ana Téjo e o mecânico, andei alguns dias com ele, até ficar três vezes na rua. No mesmo dia.

Ontem, depois de uma crise mais do que justificável de choro convulsivo, liguei para meu corretor de seguros, que me aconselhou a pedir o carro-reserva da seguradora.

_ Alô, seguradora.
_ Alô, don’Ana.
_ Olha, eu queria saber o procedimento para solicitar o carro-reserva.
_ Pois não. O que aconteceu?

Contei resumidamente e disse que teria que deixar o carro no mecânico – de novo – a partir da primeira hora da segunda-feira. A seguradora boazinha me dá direito a carro-reserva depois de 24 horas que o meu carro estiver na oficina. Ou seja, inevitável ficar um dia a pé, mas é melhor do que nada.

_ Onde a sra. está nesse momento?
_ Estou na casa do sr. Ana Téjo, que fica estrategicamente localizada exatamente na frente da oficina.
_ E a sra. quer estar solicitando o guincho?
_ Eu não vejo necessidade. Primeiro, porque hoje é domingo e a oficina está fechada. Segundo, porque o carro está em segurança, na garagem. Terceiro, porque eu mesma posso levar o carro à oficina amanhã, pela manhã.
_ Mas se a sra. não estiver pedindo o guincho, nós não temos como estar concedendo o carro-reserva.
_ Fofa, entenda uma coisa: não faz o menor sentido vocês mandarem um guincho pra cá, para atravessar a rua com o meu carro.
_ Mas o carro está andando?
_ Está, mas está em risco. Meu mecânico me orientou expressamente a não andar com ele, mas isso não significa que eu não possa sair da garagem e cruzar a rua e parar na oficina, entendeu?
_ Nesse caso, a sra. não tem direito ao carro-reserva.
_ Comassim, pelamor?
_ Porque o carro-reserva só é concedido se o carro chegar guinchado à oficina.
_ Sei. Deixa eu entender uma coisa: se eu mesma levar o carro à oficina amanhã cedo e economizar o guincho para VOCÊS, não tenho direito ao carro-reserva. Se eu mandar chamar o guincho e o guincho atravessar a rua com o carro, eu tenho direito, é isso?

A gentil atendente me pediu o endereço onde eu estava e o da oficina. Dei. Depois de alguns minutos de consulta ao Guia de Ruas, ao GPS e de muito raciocínio matemático, ela disse:

_ Mas, sra.! A sra. está a apenas sete números de distância da oficina. É praticamente na frente.
_ Eu sei, criatura! Foi a primeira coisa que eu disse. Estou vendo a oficina daqui, da janela. Se não estivesse fechada PORQUE HOJE É DOMINGO, eu poderia até dar tchauzinho pro mecânico, que já virou meu brother.
_ Mas a essa distância não faz sentido chamar o guincho!
_ É o que eu estou dizendo, lembra?
_ Então, nós não vamos estar podendo guinchar seu carro e a sra. não terá direito ao carro-reserva.
_ Sei. Deixa eu só entender outra coisa: se na segunda pela manhã, eu me afastar 3 ou 4 quadras com o carro, ligar para o guincho e vocês guincharem o carro até a oficina, aí eu tenho direito ao carro-reserva?
_ Sim, senhora.
_ Então tá. Muito obrigada. Brilhante o sistema de vocês.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

A evolução dos pesadelos

É engraçado como à medida que a gente cresce, muda também a natureza dos pesadelos. Não há adulto que sonhe com fantasmas, monstros ou mortos-vivos. Nãããão. Adultos sonham com problemas no trabalho, situações embaraçosas de exposição, conflitos emocionais não resolvidos, perdas graves, enfim, desnecessário detalhar aqui porque todo adulto sabe de que consistem seus pesadelos.

Na infância é diferente. Lembro de acordar suada, com o coração aos saltos, chamando pela minha mãe, porque tinha sonhado com uma onda gigante, de mais de quarenta metros, que formava uma parede de água acima da altura da varanda do apartamento em que ficávamos no Guarujá. Ou do meu pavor de sonhar com um funcionário do supermercado que freqüentávamos, de pele muito, muito escura e olhos muito, muito brancos, que me olhava insistente e ostensivamente. Horrível também era sonhar com a professora da terceira série, uma bruxa cruel e sem coração, que deve ter feito Pedagogia na Febem e que diariamente nos ameaçava prender na escola para que perdêssemos a carona, o ônibus ou a mãe e tivéssemos que dormir lá, até o dia seguinte. Não. Isso não era o sonho. Essa era a parte real. Nos pesadelos, ela voava numa vassoura e nos prendia em calabouços úmidos, escuros e malcheirosos. Mas meus piores pesadelos eram com os olhos do Jack Nicholson. Ele mesmo; o ator. Uma vez, passei acidentalmente pela porta do quarto da TV tarde da noite e vi uma cena de O Iluminado. Passei anos assombrada por aquele olhar.

Hoje participo – do lado de fora, felizmente – dos pesadelos dos meus filhos e tenho que fazer um esforço danado para manter a seriedade, abraçá-los com força, beijar as cabecinhas cheirosas e suadas e garantir que vai ficar tudo bem. Ao meu filho, já garanti que dedetizei a casa contra monstros – quando é preciso reforçar a dedetização, uso um borrifador de roupas com água filtrada, que é tiro e queda – mas sempre reforço que se ele parar de assistir Power Rangers, a dedetização fará muito mais efeito. A minha filha, já naquela fãs portas da adolescência, já começam a surgir os primeiros pesadelos de adulto, onde ela elabora problemas vividos na escola, conflitos com os pais, dúvidas, fragilidades e incertezas. De vez em quando, a infância fala mais alto e ela sonha com uma cena dos mortos-vivos dos Piratas do Caribe ou de outro filme particularmente impressionante.

Ainda outro dia, depois de quatro horas intensas na festa de um amiguinho de classe, meu filho voltou para casa cambaleando de sono, tomou um banho, um copo de leite e foi dormir. Lá pelas tantas, acordou berrando. Pulei da cama para atendê-lo.

_ Uma bruxa, mamãe! Uma bruxa horrível!
_ Onde, filho? Não tem bruxa aqui em casa, lembra?
_ Não foi aqui, mamãe. Tinha uma bruxa medonha na piscina de bolinhas!

Ri baixinho e o abracei com força. Como é bom quando nossos piores pesadelos são os olhos do Jack Nicholson ou a bruxa na piscina de bolinhas.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

As coisas que a gente faz para (tentar) relaxar

Dia desses estive em minha terapeuta de shiatsu para mais uma tentativa de me livrar de uma torturante dor nas costas que tenta me pôr a nocaute há tempos. Segundo minhas queridas amigas que só querem o meu bem, é coisa de velho!

Pois bem. Eli é uma japinha pequena, socada e forte como um lutador de sumô. Com ela, aprendi que tenho pontos na omoplata que refletem na testa, pontos na batata da perna que refletem na coluna, pontos na planta do pé que refletem no abdômen e, o mais incrível: um bendito ponto na nuca que toda vez que ela aperta, eu tenho certeza absoluta de que meus olhos vão pular das órbitas. Ela diz que a culpa é da minha falta de sono. Eu digo que é maldade mesmo. Antes de iniciar a sessão, já sabendo da tortura que viria a seguir, disse:

_ Agora é aquela hora em que você tenta fazer meu olho pular, né?

Ela apenas ri, suave. Eu continuo:
_ É, Eli. Porque um dia desses, você vai conseguir e aí não vai poder dizer que eu não avisei. Quero só ver a sua cara me dizendo: ups, foi maus! Ó, seu olho pulou, mas passa lá no São Luiz que eles põem de volta rapidinho! Só que aí, pra não chegar atrasada no trabalho, eu vou levar o olho na bolsa pra recolocar outra hora, o olho vai perder o prazo de validade e eu serei obrigada a viver como um ciclope, por SUA culpa.

Ela ri novamente.
_ Você TEM que dormir, Ana.
_ Que hora? Que hora eu vou dormir, hein? Aaaiiii! Tá bom. Eu durmo. Mas você promete que não tenta arrancar meu olho hoje?
_ Riririri!
_ Aaaaaaiiiiiii! Pulou?
_ O quê? O olho, ué.
_ Não. Continua no lugar.
_ Engraçado, porque a dor foi tanta, que escureceu tudo.

Passado esse momento lancinante, ela tenta deslocar minhas omoplatas. Com convicção. Eu berro de dor e ela diz que é culpa do estresse. Estresse, nada! É culpa sua, que está aplicando a força de mil mamutes nas minhas costas.

Aí vem a hora de tentar desencaixar o braço do tronco. Ela puxa e gira bem na articulação com uma força hercúlea. Dói alucinadamente.

_ Eli...
_ Sim, Ana.
_ Tá grudado! O braço tá grudado no tronco!
(Risinho.)
_ Eu sei.
_ Então, por que você está tentando desgrudar, pôxa vida?
_ A culpa é do excesso de digitação.
(Ah! É mesmo. Tá bom.)

Não contente, ela torce meu corpo para um lado como se fosse um ésse e me manda respirar fundo. Eu sempre estremeço nessa hora porque, na seqüência, ela apóia uma mão no ombro e outra na bacia e dá um tranco. O objetivo do "tranco" é fazer todas as vértebras da coluna estalarem. Primeiro de um lado e depois do outro. Às vezes dá certo.

Quando ela faz essa mesma coisa na cabeça , é inesquecível porque eu vejo o filminho da minha vida passar toda vez.

_ E aí? Eu tô viva?
(Risinho suave.)
_ Claro que está, Ana.
_ Porque dessa vez, eu vi o filminho da minha vida com uma nitidez tremenda. Juro! Pensei que tivesse empacotado. Aliás, você já perdeu algum cliente aqui na mesa?
_ Ririririri!

O resto é moleza. Ela fica em pé em cima dos meus pés, na dobra dos joelhos e depois me manda sentar e me puxa MUITO para cima. Devo crescer uns 5 cm cada vez que vou lá. O que significa que, se mantiver a constância, dentro de seis meses vou estar com uns... três metros e vinte?

Saio de lá totalmente esquecida da dor na região lombar. Até porque, todo o resto dói tanto, que fica uma coisa assim, meio difusa, meio pulverizada.

O conceito deve ser esse. Com certeza.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Vinte e nove de outubro

Aí um dia, você cruzou meu caminho. E eu nem posso dizer que não estava esperando, porque você é tudo o que eu sempre quis (e nunca tive coragem de pedir). E de conversa em conversa, de música em música, de jantar em jantar, a gente foi descobrindo que, no fundo, éramos uma pessoa só. O mesmo estilo, os mesmos gostos, os mesmos princípios, o mesmo ritmo, as mesmas manias, a mesma cicatriz no queixo (e até as mesmas alergias!).

Nossa história, fomos construindo aos poucos. É verdade que a gente devia ter se conhecido uns 15 anos antes, mas talvez não tivesse sido uma boa idéia. Porque 17 anos atrás, meu amor, eu não estava preparada para você (e nem você pra mim). E seguimos, dia a dia, passo a passo, sonho a sonho, até que, de repente, deixou de fazer sentido ficar separado. E a gente se juntou ainda mais.

Fácil? De jeito nenhum. Se fosse fácil, não teria graça. Mas o fato é que o tempo foi passando e hoje, dois anos depois, eu não consigo nem imaginar minha vida sem você. Devagar, você foi ocupando todos os espaços e criando outros, que eu nem sabia que existiam. E você está em tudo, babe: na minha casa, no meu trabalho, no meu carro, no meu quarto, nas minhas roupas, nos meus sonhos e nos meus planos.

E por que a gente chegou até aqui? Por que merece, oras. Merece cada minuto de felicidade, cada olhar cúmplice, cada noite juntos, cada toque, cada sorriso e cada lembrança. Até quando? Até sempre. Porque o que eu quero é passar o resto da minha vida com você. Até os músculos caírem, até os filhos crescerem, até os cabelos clarearem, até os anos pesarem, até a pele vincar, até a memória falhar e depois que tudo isso acontecer, por mais vinte ou trinta anos. E tudo isso só porque um dia, você cruzou meu caminho (ou fui eu quem cruzou o seu?) de vez.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Onde está o Montanha?

Quando a gente muda de casa, há essencialmente duas formas de fazê-lo:

1-
Levar as coisas aos poucos e arrumá-las no novo local para, no fim, levar apenas os móveis;
2-
Levar tudo de uma vez, com uma transportadora.

Como tudo na vida, as duas formas têm vantagens e desvantagens. O bom de arrumar tudo aos poucos é que quando os móveis finalmente chegam, as coisas já estão quase que totalmente organizadas, o que facilita bastante a entrada no novo endereço. A desvantagem é que dá uma trabalheira dos infernos e leva tempo. A vantagem de contratar uma transportadora é que o sofrimento é breve. Em um dia os caras empacotam tudo e no dia seguinte, carregam. É a opção ideal para quem tem pouco tempo para mudar. A desvantagem é que dá uma trabalheira dos infernos.

Minha opção, por falta de opção, foi a segunda. E quando os moços da transportadora terminaram o serviço, por volta das cinco e meia da tarde, fizeram a contabilidade das caixas ainda não abertas para eu fazer o cheque caução. Restavam CEM caixas.

Hoje, três dias depois, já consegui, com o auxílio da equipe mais obstinada e disposta do mundo, abrir boa parte delas. Já achei até a minha filha e acho que até segunda-feira acho o Montanha. Ainda bem que quando o empacotaram, eu coloquei um pacote de biscoitos na caixa dele. Estou tranqüila porque pedi pra enrolarem ele bem direitinho no plástico-bolha, colocarem um adesivo de “este lado para cima” e fazerem uns furinhos na tampa da caixa.

No fundo, no fundo, ele está melhor que a gente, que tá aqui, do lado de fora, no meio do caos. Pelo menos pode ficar lá, quietinho. Conversando com uma amiga, ela me perguntou se eu tinha colocado o DVD dos Backyardigans junto com ele. Não, né? Pra ele assistir como?

_ E uns carrinhos, Ana? Ele deve estar morrendo de tédio a essa altura...
_ Que nada! Ele adora biscoito. Eu pus aqueles recheados, sabe? Ele vai perder um tempão descolando todos e raspando o recheio com os dentes.
_ Mas tá frio, Ana...
_ Não tem problema. Eu pedi pra enrolar ele bem direitinho no plástico-bolha. Ele vai ficar aquecido.
_ Mas você não pôs nem uns carrinhos na caixa?
_ Sabe qual é o problema, querida? É que com a abertura das caixas, eu descobri que os moços da mudança arrumam tudo por ordem alfabética de objeto, sabe?
_ Comassim?
_ Abajur, almofadas, alpiste, amaciante, arroz...
_ Meu Deus, Ana! Que caos! É por isso que ele e a irmã não estavam na mesma caixa.
_ Exatamente. Entende as minhas olheiras agora?
_ Mas... e o Montanha?
_ Ah, deve estar junto com a maionese, a mesa da cozinha e o Methiolate.
_ E em que letra você está?
_ Estou entre o F e o H, mas prometo que quando encontrá-lo, eu te conto, tá?

Mudanças

Não tem jeito. Mais cedo ou mais tarde, uma hora ou outra, todo mundo muda. Uns mudam devagar, por etapas; outros mudam de repente e tem gente que nunca chega a se fixar de verdade. Minha vida foi assim por algum tempo. Tanto, que aos 28 anos, tinha acumulado dezesseis mudanças no currículo. Felizmente, de algumas eu nem lembro, mas lembro perfeitamente que em determinada fase da vida, não cheguei a passar nem seis meses num lugar. O fato é que, de repente, tudo se estabilizou e eu passei dez anos inteirinhos em um mesmo lugar. Até essa semana. Essa semana, mais precisamente segunda-feira, foram uns moços fortes lá em casa e empacotaram absolutamente tudo o que acumulei até hoje em questão de horas. Se por um lado fiquei impressionada com a eficiência, por outro me fez pensar na impermanência da coisa.

De repente, tudo o que eu juntei, comprei, colecionei, dobrei, trabalhei, escrevi, vesti, recortei e organizei foi parar em um punhado de caixas pardas, todas iguais, firmemente fechadas com fita adesiva grossa. Para diferenciá-las, só umas letras apressadas com informações vagas como “quarto menina” ou “cozinha”.

Olhei as paredes nuas e o chão vazio e tentei, com toda força, lembrar do que a minha irmã havia dito: “parede não tem memória, Ana. Coisa boa, a gente guarda aqui, ó. No coração.” Ela tem toda razão, mas e pra pôr em prática? Fiquei ali, lembrando da minha filha pequena, do primeiro dia na escola, da primeira festa junina, da primeira amiguinha; dos aniversários, da minha festa de trinta anos; lembrei de quando fiquei grávida do meu filho, de quando chegamos da maternidade; do tempo que minha mãe passou conosco, da minha separação, de mudar todos os móveis de lugar e de refazer a vida ali, com as crianças. É verdade que paredes não guardam lembranças, mas aquelas testemunharam um bom pedaço da minha vida. Impossível ficar indiferente, pelo menos para mim. Só que, mais cedo ou mais tarde, todo mundo muda e eu também mudei. Ou estou mudando. Nos dois sentidos.

Impulso feminino

Estou aqui, arrumando o ninho e já volto.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Outra chance


_ E então, filho? Mais uma chance de dizer o que quer no Dia das Crianças.
_ Hmmm... já sei!
_ Ah, que ótimo. E o que é?
_ Um pára-quedas.
_ Não pode ser, filho.
_ E por que não?
_ Porque não há pára-quedas à venda.
_ Dããããns. E as pessoas que usam, compram onde?
_ Filho, entenda, pára-quedas não é uma coisa que a gente possa comprar por aí.
_ Por que não?
_ Porque é perigoso.
_ Mas eu prometo que pulo baixinho.
_ Pior ainda. E tem mais: você só vai poder pular de pára-quedas quando tiver juízo ou quando eu morrer, o que acontecer primeiro. Não tem mais nada que você queira? Alguma coisa mais apropriada para a sua idade?
_ Hmmm.... tem!
_ E o que é?
_ Um lança-chamas.
_ Filho, eu não vou te dar um lança-chamas.
_ E por que não?
_ Primeiro, porque é uma arma horrível e violenta. Depois, porque também não tem lança-chamas pra vender por aí.
_ Mas eu ia usar pra te defender, mamãe.
_ Tá bom, filho. Sua intenção é muito nobre, mas eu acho que dá pra você me defender com recursos menos radicais. Alguma outra coisa?
_ ....
_ Pôxa, filho. Não é possível que não tenha mais nada.
_ Tem uma coisa.
_ E o que é?
_ Um extintor de incêncio. Mas pra fogo elétrico, tá?

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Infestação

Falar do clima é uma coisa muito chata. Tem chavão maior do que entrar no elevador, dar um “bom dia” amarelo e, sabe-se Deus porquê, emendar um “calor, né?” Francamente! Vamos combinar que se você vive na mesma cidade que a criatura que está ao seu lado, não há outra resposta possível além de “é”. Preciso confessar que no meu bom humor matinal infinito, muitas vezes tenho vontade de responder com “calor? Não tô achando. Aliás, tô até achando fresquinho. Deve ser porque cortaram sua eletricidade por falta de pagamento e você ficou sem ventilador, não?”, mas nunca cheguei a tanto. Ainda.

Só que São Paulo está impossível: esquenta, esfria, esquenta, esfria, esfria, esfria, ferve, esfria pra caramba, tudo no mesmo dia. Não há quem agüente (talvez haja, mas não é meu caso). Hoje, por exemplo, as mesmas pessoas que estavam de casaquinho pela manhã, bufavam seminuas na hora do almoço.

Na última noite de calor dos infernos – que foi ontem, se não me engano – houve uma infestação daqueles malditos insetos voadores sem noção, que entram pela janela quando anoitece e ficam rodopiando em torno das lâmpadas. Não contentes, eles descem começam a tentar penetrar nos orifícios mais improváveis de gente séria e trabalhadora, que está tentando ganhar a vida honestamente.

Não eram nem sete horas quando o ataque começou. Um, dois, duzentos. Uma infestação. Indefesas, as pessoas começaram tentando se esquivar discretamente. Em pouco tempo, mandaram a classe pro inferno e partiram para a luta franca, na tentativa de proteger suas partes mais íntimas. Em vão. Eu mesma acho que engoli um ou dois sem querer, por mais que tenha tentado manter a boca fechada. Mas eles não perdem por esperar. Ah, não perdem, não.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Pequenos estratagemas femininos

Em tempos em que as pessoas passam mais tempo diante dos próprios computadores do que de outros seres humanos, fica cada vez mais comum fazer virtualmente coisas que antes fazíamos presencialmente. Exemplos evidentes são compras de natal, supermercado, presentes de aniversário e casamento, passagens aéreas e... relacionamentos. Que atire o primeiro mouse sem fio quem nunca nem tentou, nem por curiosidade, dar uma olhadinha em um site de relacionamento, nem que fosse só pra ver como era e tirar um sarro de quem estava lá, na maior seriedade, tentando ser feliz.

Tudo isso só pra dizer que, hoje em dia, não é raro pessoas conhecerem outras pessoas sem as “conhecerem” de fato. Eu explico. Antes, todo mundo vinha com referência (o que não era garantia de nada, mas acalmava o espírito.). “Ah, o fulano é amigo do Paulão, sabe? Aquele, que é primo do meu tio.” “A Fulana? Ah, uma moça ótima. Conheço há muitos anos. Joga biriba com minha avó toda quarta à noite.”

Hoje, a moça conhece o moço numa sala de bate-papo ou num site de relacionamento, trocam um punhado de e-mails, passam para o MSN, evoluem para o telefone e finalmente, depois de tempos que variam entre duas horas e dois meses, dependendo do caso, marcam um encontro real. Geralmente um café, que é pra não durar muito se um ODIAR o outro.

Pois é. Só que em tempos de “encontros às escuras”, tornam-se necessárias algumas precauções, apenas para garantir a segurança das partes envolvidas.

Trim, trim....
_ Alô?
_ Ana?
_ Eu.
_ Oi, é sua amiga.
_ Ooooooooooooiiiiiii, querida. Tudo bem?
_ Tudo. Sabe o que é? É que eu vou encontrar um moço no sábado à noite e... dava pra você me ligar lá prumas dez?
_ Claro, sem problema. Já vou deixar o celular programado.
_ Ok. Depois te mando os dados por e-mail.

Tudo entendido. Quando uma moça sai com alguém que ela nunca viu antes, ela SEMPRE passa o que sabe do sujeito para uma amiga. E a amiga (ou amigas, porque pode ser necessário mobilizar mais de uma), liga no horário combinado e nem um minuto a mais, para saber se está tudo OK.

Trim, trim....
_ Querida?
_ Oi, Ana.
_ E aí? Tá tudo bem?
_ Ah, tá.
_ Precisa de resgate?
_ Não. Tô aqui com o Praxedes... lembra, que eu comentei dele?... no Grão Café. Posso te ligar depois?
_ Pode. Tchau.

Sinal de que está tudo bem. Adicionalmente, o Praxedes já fica avisado que alguém sabe quem ele é, com quem está e aonde.

Se houver qualquer traço de hesitação, por menor que seja, várias coisas podem acontecer:

1- A amiga ligar de novo, depois de 10 ou 15 minutos, pra saber se está tudo bem MESMO.

2- A amiga pedir pra outra amiga ligar em 10 ou 15 minutos para ouvir uma segunda opinião. Aí, a amiga que ligou depois liga para a amiga que ligou primeiro, as duas discutem a situação da terceira amiga e, dependendo da conclusão, rezam três Aves-Marias e um Pai-Nosso pelo sucesso do encontro.

3- A amiga que ligou primeiro enfiar uma sirene no carro, passar na casa da amiga que ligou depois e saírem em desabalada carreira rumo ao local do encontro, para simular um encontro casual e, assim, salvar a amiga número três do encontro desastrado.

4- A amiga que ligou primeiro ligar diretamente para o celular do Praxedes (ela recebeu os dados por e-mail lembram?) e simular um seqüestro telefônico para que a amiga que está em maus lençóis tenha a chance de fugir.

5- Há, ainda, a solução clássica: a própria vítima do encontro desastrado, aproveitando o telefonema no horário combinado, arregala os olhos, leva a mão ao peito e diz, com voz embargada: “o quê?! Oh, não! É mesmo? Tô indo já praí!” E sai, em desabalada carreira, sem nem se dar ao trabalho de dizer ao Praxedes o que aconteceu.

6- Finalmente, há o método nu, cru e peladão, reservado apenas para emergências porque mulher não é disso. É um pouco rude, sem dúvida, mas é definitivo. Consiste em olhar o Praxedes bem nos olhos e dizer: “quer saber? Me enganei. Você é chato pacas. Adeus!”

Se os homens entendem todo o racional desse pequeno estratagema feminino? É claro que não. Aliás, não só não entendem, como acham que é “coisa de adolescente”, como chegou a afirmar um representante do rol dos recentemente dispensados. Mas que funciona, funciona. E a mulherada usa, sim. Usa e se orgulha. E podem estrebuchar à vontade que a gente nem liga.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Enquanto isso, no leste europeu...

Crianças absorvem tudo.

Por causa de um vídeo game, meu filho aprendeu que há lugares como Peru, Bolívia, conhece a bandeira do Nepal e outro dia, me disse que queria morar no Cazaquistão.

_ Mas, filho! Logo no Cazaquistão?! É tão longe...
_ E daí?
_ Daí que eu vou morrer de saudade.
_ Dãããns! Você vai comigo, né, mamãe?
_ Mas e a sua irmã, e a babá, e a vovó, e o meu trabalho...?
_ Ah, eles podem ir também.
_ Mas mudar de país não é fácil, meu filho. Tem que se programar, juntar dinheiro, aprender o idioma.
_ Mas eu sei falar a língua do Cazaquistão!
_ Ah, sabe, é? Então fala aí pra eu ver.
_ Qjnrd ogun flvnfiv kcbv lifu gilfbvfçfgjn jkvc, viu?
_ Não entendi nada.
_ É assim mesmo, mamãe. Eu também não entendo quando eles falam.


_ Mamãe?
_ O que foi, meu filho?
_ Meu amigo não foi à escola hoje.
_ É mesmo? E por quê?
_ Porque o pai dele bateu o carro e está no hospital.
_ Que horror, filho! E foi grave?
_ Parece que sim. A professora estava dizendo que foi traumatismo ucraniano.

Força de expressão

Eu tenho simpatia por rugas. Não que seja entusiasta do estilo maracujá de gaveta, nem que ache que as pessoas devam abrir mão de se cuidar. Muito pelo contrário. Mas creio que as rugas digam muito sobre a vida. Basta olhar um rosto um pouco além dos quarenta para saber sem falar, sem conversar, sem nem conhecer, como é a pessoa.

As famosas rugas de expressão marcam justamente o quê? As expressões, ora essa! Assim, uma pessoa sisuda, preocupada, terá sulcos profundos ente os olhos, na linha da sobrancelha e outros tantos vincando a testa. Já alguém que tenha o hábito de rir muito, terá marcadas as linhas laterais entre o nariz e a boca (o famoso “bigode chinês”) e também, inevitavelmente, marcas finas nos cantos dos olhos.

A vida maltrata, eu sei. Testa ao extremo até o mais otimista dos otimistas, mas confesso que tenho uma empatia imediata por pessoas que mostram no mapa do rosto que já sorriram muito.

Outro dia, estava me olhando no espelho e descobri algumas coisas sobre mim...

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Me ame quando eu menos mereço,
que é quando eu mais preciso.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Pé de valsa

As pessoas aprendem a dançar pelos mais variados motivos, dos mais aos menos nobres. Os meus foram muitíssimo pouco nobres, mas isso não vem ao caso. O fato é que lá pelos dezesseis anos fui matriculada numa escola de dança de salão.

A dança sempre fez parte da minha vida. Comecei com o ballet clássico, como toda mocinha elegante, até que um belo dia, lá pelos nove anos, a professora resolveu me pôr na real:

_ Olha, eu não sei se é a sua intenção, mas você é grande e pesada demais para ser uma bailarina.
(_ E você é grossa demais para ser uma professora!)

Saí. De lá, depois de passagens curtas pelo ballet moderno e pelo jazz, desisti. Até a dança de salão aparecer na minha vida. As aulas eram à noite, na mesma escola que eu freqüentava, pela manhã. A professora era dona Nice Poças Leitão, que ensinou a bailar centenas de paulistanos bem nascidos, a partir da década de 1950. Dona Nice, uma senhora já algo avançada na casa do setenta, era dona de um Fusca verde-azeitona, único dono, de um vigor invejável e de uma determinação férrea. Entrei lá com a promessa de que ela era capaz de ensinar a dançar até uma geladeira, modelo grande.

As aulas eram uma ou duas vezes por semana, dependendo do nível do aluno. Assim que chegávamos, a Madame ia tratando de acomodar todos, moças de um lado do salão, rapazes do outro. No bolso dos rapazes, necessariamente, um lenço de tecido, cobrado incansavelmente em todas as aulas.

_ Onde é que você pretende enxugar o suor, homem? Na saia da moça? _ perguntava a Madame, entre divertida e severa.
_ Mas Madame... não serve lenço de papel? _ perguntava a vítima, suando ainda mais.
_ Qual o quê, homem! Isso rasga, desmancha... é um horror! Já pensou, você, com o rosto cheio de fiapos de papel no meio do salão?! Tsk, tsk, tsk! E se a dama precisar de um lenço? Você vai dar esse? De papel?!

Cruzar as pernas, nem pensar.
_ Moças educadas não cruzam as pernas _ dizia a Madame. _ No máximo, cruzem os tornozelos para trás e deixem as mãos repousando sobre o colo.

Sapatos, para ambos os sexos, apenas com sola de couro. Aparecer de tênis em uma aula da Madame era o mesmo que pedir para passar a noite de castigo, sentado.

As unhas também eram revisadas quase todas as aulas. Não precisavam estar feitas, mas tinham que estar limpas e cortadas. Unhas roídas ganhavam um severo ar de reprovação.

E, com tantas regras, sobrava tempo para dançar? E como! Saíamos de lá, invariavelmente, um ou dois quilos mais leves, tamanha era a intensidade do exercício.

As turmas eram divididas em três, cada qual com o seu dia na semana. Os principiantes – ou “abacaxis”, como a Madame costumava chamar carinhosamente – iam na segunda-feira. Os intermediários, iam na terça e os “profissionais”, na quarta. A parte boa era que, conforme os alunos iam evoluindo, eram convidados a mudar de dia e a continuar freqüentando os dias dos iniciantes (e intermediários) para ajudar os alunos mais novos. Assim, lá pelas tantas, podíamos dançar três vezes por semana. E um pouco mais além, turmas formadas – com grupos, casais e panelinhas – dançávamos os três dias de aula e mais nas quintas-feiras, numa extinta casa de dança e aos sábados, geralmente numa gafieira.

Nas aulas, tudo muito certinho. A um sinal da Madame, cada “cavalheiro” devia partir do seu lado do salão e tirar uma “dama” para dançar. Tudo comme il fault, com direito a cortesia, mão estendida e tudo. Um show. Para uma menina de dezesseis anos, era o que de mais próximo havia de uma lady, prestes a dançar um minueto em um castelo renascentista.

No salão com mão de direção, os ritmos se sucediam deliciosamente. Fox, samba, valsa (a lenta e a vienense), rumba, rock’n’roll, polca, tango, bolero, gafieira, hully-gully, cha-cha-cha... um a um os passos de cada ritmo iam sendo desvendados diante dos nossos olhos e pés, progressivamente mais hábeis e firmemente guiados pela Madame.

Nas primeiras aulas, era comum a vontade de desistir, confrontados cruamente com a certeza de que havíamos nascido com dois pés esquerdos. Mas depois alguns meses, éramos tão bons que fechávamos pistas, dançávamos de graça nos lugares que freqüentávamos, ajudávamos a treinar debutantes de clubes e éramos muitas vezes abordados por estranhos, perguntando como, onde e porquê.

Bons tempos... Tempos leves. Pisando em nuvens e pensando em nada. Dançando, apenas.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Enganchada

Aí, você tem 12 anos e sua escola resolve fazer uma “saída pedagógica” de três dias pelo interior de São Paulo. Originalmente, você ia para Brasília, mas com o caos aéreo e com essa quantidade de aviões caindo mais do que jabuticaba do pé, todos viram por bem fazer uma viagem mais pé no chão, de ônibus mesmo. A idéia é visitar lugares relacionados às matérias que você está tendo e, com isso, enriquecer o tal “conteúdo programático”.

Seus pais conversam, combinam, parcelam e patrocinam a sua viagem. Afinal, você é tão boa aluna que merece. Na esteira da viagem, você ganha iPod, roupa nova, caderno novo e um tratamento de beleza completo, para arrasar com a turma.

Você vai, volta e, na chegada, tem “uma coisa” pra contar.

_ O que foi, filha?
_ Er... nada. Quando você chegar, eu te falo.
_ Mas foi algum problema, você se machucou, quebrou algum osso?
_ Er... não. É melhor a gente conversar pessoalmente.
_ Foi pior que isso?! Quebrou o iPod?
_ Não, mamãe...

A mãe chega em casa e fica sabendo: você, que é das melhores alunas da classe, que sempre tira notas ótimas, que é famosa por sua responsabilidade, foi suspensa. SUSPENSA por um dia de aula, por indisciplina.

Sua mãe, perplexa, tenta entender o que aconteceu. Você explica que a professora que acompanhou o grupo é louca, que a coordenadora é histérica, e que você simplesmente foi ao quarto de duas amigas com a sua colega de quarto, na hora de dormir. Aos poucos, a verdade vem à tona: você e sua amiga ficaram desaparecidas por uma hora e meia, em um hotel onde havia outros hóspedes, depois da hora de dormir. Por segurança, deixaram a TV ligada no quarto para parecer que estavam lá. Por segurança, quando a professora descobriu a ausência de vocês e bateu no quarto das amigas, elas disseram que “vocês não estavam lá de jeito nenhum”. Por segurança, quando a professora entrou no quarto das amigas, uma hora depois, para fazer uma busca, vocês se esconderam no banheiro. Por segurança, quando vocês finalmente foram encontradas, já de volta ao quarto, juraram que tinham se ausentado por “um minutinho só, para buscar água”.

Pois bem. Por segurança, a professora distribuiu duas advertências e duas suspensões muito bem merecidas, uma das quais para você.

Em casa, apesar de achar que “ficar sem ir à aula não é castigo”, você tem que ouvir um monte da sua mãe. E do seu pai. E perder o direito de falar ao telefone até terça-feira. E ao celular. E que acordar cedo na segunda, exatamente como se tivesse aula. E que passar a manhã toda fazendo lição. E estudando tabuada. Sem televisão. E quando você acha que já passou vergonha demais, que já pagou mico demais e que já se arrependeu demais, você descobre que o pior ainda está por vir: sua mãe tem um blog.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Presente

_ Meu filho, você já sabe o que quer no dia das crianças?
_ Já, sim, mamãe.
_ E o que é?
_ Eu quero um adulto.
_ Um adulto?
_ É. Pra brincar comigo.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Projeto para hoje

Primeiro isso,

Com isso.

Na seqüência isso,

E depois isso.

Ah, e se quiser, pode trazer isso.


Sim. É só. Obrigada.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Silêncio

Era um casal assim, como tantos outros. Tinham seus momentos. Às vezes, eram até felizes. Mas a vida massacra, a rotina massacra e eles próprios, um ao outro se massacram.

Não sabiam bem o porquê, mas mergulhavam cada vez mais naquele caldo perverso em que não bastava sofrer; era preciso causar dor.

À mesa, tinham o cuidado de não se sentar frente a frente para não terem que se olhar. Interrupções eram bem vindas. Qualquer coisa que justificasse uma fuga breve.

Para distrair, brincavam com copos, talheres e até com a comida, empurrando os volumes de lá para cá.

Entre si, apenas o essencial:

_ Quer mais sal?
_ Quero.
_ Vou buscar.

_ Faltou o molho.
_ Eu não quero molho.
_ Mas eu quero.

Entre os silêncios cada vez mais densos, trocavam farpas que ficavam enganchadas, arranhando a garganta como espinhas de peixe.

Na intimidade dos próprios pensamentos, às vezes lembravam dos bons tempos em que os assuntos não tinham fim, as histórias se encadeavam e as descobertas se sucediam, carregadas de encantamento. Mas só às vezes. Na maior parte do tempo, se contentavam em pensar no dia passado, no dia seguinte e na próxima garfada – na comida ou no outro – pura e simplesmente.

Sentados ali, eram dois corpos curvados, pesados, de rostos vincados e olhos opacos.

No fundo, continuavam sendo o que haviam sido desde o começo: um casal assim, como tantos outros.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Percalços

Lembra quando você esquecia da vida e dizia na escola que jurava por Deus, pelo seu pai e pelo seu irmão, que o seu cachorro tinha comido a sua lição de casa (às vezes, você não tinha irmão e nem cachorro)?

Se ninguém acreditava já naquela época, imagine nos dias de hoje, você, na flor dos seus cinco anos de idade, chegando para a professora do Jardim II na seguinte situação:

_ Menino, cadê sua lição?
_ Hmmmm... eu não trouxe.
_ Por quê, posso saber?
_ Porque eu tive um problema.
_ Sei. Que tipo de problema?
_ O meu peixe comeu.

Detalhe: a gente também não tem peixe.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Permanências - da série, "altíssima relevância"

Há uma coisa que anda me preocupando, mas antes uma perguntinha: alguém aí se lembra de uma fase de moda mais medonha que os anos oitenta? Tá bom, os anos setenta também não foram fáceis, mas pelo menos eram coloridos e as pessoas não precisavam usar peças com formato de ameba mutante.

Os anos oitenta foram a época das calças clochard e semibag, que deixavam qualquer sílfide com silhueta de bujão de gás, dos suspensórios, das ombreiras – tinha até sutiã com ombreira (!!!) – das saias balonê, das cinturas altíssimas, das blusas tipo saco, dos brincos do tamanho de um CD e de outras aberrações do gênero. Era pavoroso, mas a gente usava e ainda achava que estava abafando.

Como tudo na moda vai e volta, mesmo o que merecia ser esquecido para sempre, estamos vivendo agora um revival maldito dos anos oitenta. Engordou dois quilos, vinte, cinqüenta? Não tem problema! Basta jogar uma blusa tipo saco no corpanzil e pronto. Ninguém vai notar, já que todas as peças são feitas no tamanho único, padrão lona de circo.

Há uma moda típica dos anos oitenta que ainda não voltou: os cabelos com permanente. Eu, como locomotiva fashion que gostava de achar que era, usei por aaaaaanos a fio, na tentativa vã de ficar igualzinha a Gal Costa, só que loira. É claro que não deu certo, mas eu fazia a coisa de seis em seis meses, religiosamente, “penteava” a carapinha com algo parecido com um garfo gigante e não secava com secador nem que fosse passar as férias na Islândia. Era um horror. Depois do terceiro permanente, o cabelo ficou com aquela aparência de miojo mal cozido, esturricado de tão seco e com o volume equivalente ao de uma vassoura de piaçava muito usada. Pavoroso, mas tudo o que é ruim pode piorar. Siiiiiiiiiimmm, torcida brasileira, porque pra ficar bonita mesmo, eu fazia permanente na cabeça toda MENOS na franja. Porque a franja tinha que ter aquele ar de Farrah Fawcett no ventilador. É evidente que com todo aquele volume atrás, era impossível a pobre franja ficar no lugar. Precisamente por isso, eu lavava a coitada – da franja – todos os dias, pela manhã, na pia, com shampoo e condicionador & secava com secador (a franja podia, porque não tinha permanente). E lá ia eu, me sentindo a mais cabeluda das cabeludas, a mãe do Rei Leão, a mais volumosa das ovelhas da parada.

Um dia, avisei em casa que ia fazer um novo tipo de permanente: “com leite”. Meu pai morreu de rir, dizendo que nunca tinha sabido que leite enrolasse cabelo. Ué?! Qual é o problema?! Hoje em dia não tem “escova de chocolate”? “Depilação com mel”? Fui lá, o maldito cabeleireiro enrolou meu cabelo em três mil rolinhos e fez aquela fórmula demoníaca com três pingos de leite e mais as doses normais de creolina e soda cáustica necessárias para garantir o efeito “permanente” da obra. Para piorar, não podia lavar a cabeça por três dias. O efeito foi tão espantoso, que acho que foi o meu último permanente. Ainda bem que me sobraram uns poucos fios – os heróis da resistência – que me acompanham fielmente até hoje. Ainda bem que a moda não voltou.