
Minha filha,
O primeiro coração partido não é fácil de lidar.
Lembro muito bem de quando levei o primeiro fora (foram vários) do meu primeiro namorado (também foram vários).
Lembro da sensação de vazio, da angústia, de olhar para os próximos cinquenta ou sessenta anos e de não enxergar absolutamente nada que valesse a pena.
Lembro de chorar muito. E alto. Eu chorava alto, filha. Queria que o mundo inteiro ouvisse o tamanho da minha dor.
Lembro de me sentir péssima, arrependida e de imaginar que se tivesse sido um pouco mais legal / paciente / tolerante / fácil (?!), talvez continuasse tudo bem.
Lembro de achar que nunca havia amado tanto na vida e que nunca amaria de novo.
Lembro da minha mãe me olhando com olhos brandos e dizendo que era só o começo e que eu ainda passaria por aquilo dezenas de vezes.
Lembro de responder que não aguentaria e que, se viver era aquilo, eu preferia morrer.
Lembro também da sua avó dizendo que o motivo de toda a minha tristeza era um babaca sem noção (na verdade, ela não disse “babaca sem noção”. Sua avó nunca falou assim. Estou adaptando para os dias de hoje) e que eu era infinitamente melhor do que ele.
Lembro de achar que nunca passaria.
Felizmente, lembro que passou. E passou várias vezes.
Exatamente como está acontecendo com você hoje, minha filha.
Você, meu amor, é maravilhosa. É um oásis nesse mundo cronicamente adolescente, tão ressecado de gentileza e inteligência. Você é sensível, delicada, culta, articulada, escreve lindamente e tem os cabelos e as pernas mais sensacionais que eu já vi na vida. Você tem olhinhos de jabuticaba e nariz de tobogã. E tem covinhas!
Você, minha filha, é um espetáculo em três atos para ser assistido e apreciado com calma. E não tem bundão, merdão, bostão, crianção, melecão no mundo que mereça uma lágrima sua que seja. Você nasceu para ser admirada e valorizada por alguém com muita sensibilidade. E até você encontrar essa pessoa – e você vai encontrar, eu garanto – vai deparar com um monte de lixo pelo caminho. Faz parte. Conhecendo, experimentando (e sofrendo até), a gente aprende a refinar a sensibilidade e a depurar o coração. E a cada bundão que te chutar, você vai estar mais preparada para reconhecer o amor da sua vida. Você vai ver.
Tenha fé, meu amor. Fé e força na peruca, que esse mundo é um hospício, mas é maravilhoso para mulheres valentes e lindas como a que você está se tornando.
Te amo,
Mamãe.
P.S.: e vai passar. Eu prometo. Eu sei que parece que não, mas vai.