quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Eu quero ter 45 para...


Dizer tudo sem precisar abrir a boca.

Lembrar da Sônia Braga em Vila Sésamo, na TV em preto e branco.

Manter o corpinho de 20 e matar todo mundo de inveja.

Ver brotar na minha filha o melhor de mim..

Lembrar de Santos quase sem prédios.

Ter olhos intensos, matadores.

Pensar que até agora eu só vivi a metade – ou menos – da minha jornada.

Lembrar da Copa de 70.

Ganhar prêmios e concluir que, no fim, eles não eram tão importantes assim.

Lembrar de Londres.

Ter morado em Nova York.

Passar um aniversário em Paris.

Vestir o que me der vontade (e ficar bem nas minhas escolhas).

Conhecer o gosto de Crush.

Exibir pelo corpo marcas que contam a minha história.

Precisar provar muito pouca coisa pra muito pouca gente.

Olhar pra trás e sentir orgulho de tudo o que passou.

Saber o que busco num homem.

Aceitar com serenidade a impermanência de tudo (inclusive dos 45).

Ter amigos de 30 anos (ou menos).

Ter amigos há 30 anos (ou mais).

Ficar mais parecida com você.


Parabéns, querida.

Você é uma inspiração todos os dias.


Ilustra de autoria da própria homenageada.


quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Homeless

Lar é mais que casa.
É estado de espírito.
Eu estou sem teto
desde que deixei de morar em você.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Teçte de prutugueis


Aí, você resolve investir cinco minutos de ócio e descompressão no trabalho em um teste de caráter inteiramente educativo, como: "que tipo de ritmo/ lugar no mundo/ deusa grega/ distúrbio psiquiátrico" é você.


Quinta pergunta:
"Quais instrumentos mais te atrai em uma banda?"

Resultado:
Ritmo: jazz
Concordância: 0

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

A Declaração

_ Mamãe, eu estou bonito?

_ Tá lindo, filho. Como sempre. Por quê?

_ É que hoje é um dia muito importante. Hoje, eu vou dizer pra Lívia que estou apaixonado.

_ Ué! De novo? Mas você já não disse?

_ Dãããns, mamãe! Todo mundo sabe que as garotas gostam de ouvir essas coisas vááárias vezes.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O Presente

_ Mamãe, nós temos que comprar um presente para a Lívia.

_ Eu sei, filho. E nós vamos. Pode ficar tranquilo.

_ Quando?

_ Certamente, antes da festa. Você já pensou em alguma coisa?

_ Pensei, sim. Pensei em três coisas. Mas uma, eu já sei que você não vai deixar. Sabe qual é a que você não vai deixar?

_ Qual?

_ A sereia! Pensei numa sereia pra ela porque ela é linda como uma sereia, mas você vai reclamar porque a sereia é muito grande e não cabe na sua banheira. Ou vai reclamar porque não vai dar pra você tomar banho até a festa, né?

_ Bem, eu reclamaria de coisas diferentes, mas você tem razão. Uma sereia está fora de cogitação.

_ Eu sabia! Foi por isso que eu pensei também numa coisa bem pequenininha.

_ O que, meu filho?

_ Uma fadinha igual à Sininho do Peter Pan. Acho que ela ia adorar e cabe até num pote de geleia!

_ É verdade, mas acho que não estamos na época das fadinhas. Eu não tenho visto nenhuma pra vender ultimamente, você tem?

_ Não, mamãe. Não tenho. Que pena...

_ Pena mesmo. Qual era a sua terceira opção?

_ Um arco-íris.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

O convite

_ E então, meu filho? Como foi o primeiro dia de aula?

_ Ah, mamãe, foi maravilhoso. Paradisíaco!

_ Paradisíaco?!

_ É. Eu vi a Lívia. Ela continua linda. Mas isso não foi o melhor. O melhor é que ela me convidou para a festa dela. E ainda escreveu no convite que “sem a minha presença a festa não estará completa”.

_ Nossa! Que legal! Ela escreveu isso com a letra dela?

_ Não, mamãe. Estava com aquela letra do convite mesmo. Aquela que não é feita por humanos.

_ Ah...

_ E sabe o que foi melhor ainda?

_ O quê?

_ Que o Pedro Motta disse que não quer mais namorar com ela. Então, ela vai namorar comigo.

_ É mesmo? Mas que maravilha, filho! E você já falou isso pra ela?

_ Não. Vou falar amanhã. Mas eu não quero filhos, por enquanto.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Comidas que não (me) convencem – parte I I

Eu sou uma pessoa versátil.

Versátil e flexível.

Quase sempre.

Mas como é que uma coisa que não sabe o que é pode ser obra de Deus? Vejam a soja, por exemplo: é um grão? Sem dúvida. Mas um grão que se transforma em leite, queijo, salgadinho, farinha, carne e até hambúrguer! Como é que uma planta pode virar um hambúrguer? E leite??? Não pode ser coisa de Deus. Definitivamente.

É por isso que eu, apesar de conhecer boa parte dos benefícios trazidos pelo seu consumo moderado, confesso que tenho medo. Pronto. Falei.

Comidas que não (me) convencem – parte I

Sei que é preferência mundial e que algumas pessoas praticamente subsistem à base delas, mas eu nunca consegui gostar de verdade de salsicha. Talvez parte disso se deva a uma ou duas dores de barriga memoráveis na adolescência, causadas por consumo exagerado. Ou pelo professor de sociologia do meu ex-marido, que dizia que “quem gosta de salsicha e de política não deve perguntar do que são feitas.” e ainda que “a diferença entre uma boa salsicha e uma má salsicha é a qualidade do jornal usado na sua fabricação.”

Já tentei das marcas mais populares, às mais aclamadas. Provei de peru, de frango, de pernil, de lombo, da branca e da vermelha, com e sem especiarias, com e sem pimenta, com e sem massa em volta, à milanesa, num boteco, pra provar que não tenho medo de nada e até – pelo menos, foi o que me juraram – sem jornal. Não funcionou.

Nem com purê, nem com batata palha, em com molho de tomate acebolado, nem com mostarda e catchup num pão bem molinho. Com maionese, nem pensar. Nem no sanduíche, nem na salada.

O engraçado é que tem gente que não se conforma e tenta a todo custo me convencer a abraçar a causa da salsicha. E eu, pra não parecer chata, disfarço e filosofo: bendita seja a diversidade humana que permite que pessoas estranhas como eu vivam anonimamente, sem despertar suspeitas.

Também tem gente mais louca que eu – graças a Deus! – que, apesar da tinta – porque as salsichas são todas pintadas, não vá dizer que você não sabia!!! – e do jornal, consegue comê-las diretamente do pacote, sem nem aferventar. Nem um aguinha quente pra lavar parte do não-sei-o-que que vai ali dentro. Essas pessoas são fáceis de identificar: elas têm a área em volta dos lábios meio alaranjada nos momentos improváveis, como na saída do cinema, por exemplo. Depois morrem e dizem que a vida não é justa. Eu, hein?

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Economias

_ Mamãe, vamos abrir o meu cofrinho?

_ Ué, pra quê, filho?

_ Pra contar todas as moedas, ora! Pra ver quanto dinheiro eu tenho. Eu devo ter MUITO dinheiro porque o cofre está muito pesado.

_ Ok. Vamos.

...

_ Pronto, filho. Você tem exatamente R$ 26,78.

_ Isso é muito?

_ Depende. O que você quer comprar?

_ O que eu posso comprar com isso?

_ Hmmm... deixa eu ver... pode comprar duas meias entradas de cinema e ainda sobre um troco para um doce.

_ Não quero.

_ Por que?

_ Porque é você quem paga as entradas de cinema.

_ É verdade. O que mais você quer?

_ Dá pra comprar roupa, mamãe?

_ Roupa, filho? Dá. Acho que dá. Na C&A, talvez...

_ Uma capa longa para meninos?

_ Acho que para uma capa longa, não dá. Talvez dê pra uma camiseta ou duas.

_ Droga! Camiseta eu não quero porque você também compra.

_ Dá pra um cartucho de Mario Kart pro Nintendo DS?

_ Nem de longe, filho. Um cartucho custa R$ 200,00!

_ E pra um GPS?

_ Affff! Piorou. Um GPS custa uns R$ 600,00, pelo menos.

_ Um sonar, talvez...

_ Impossível, filho. Eu nem sei quanto custa um sonar, mas deve ser muito mais caro que um GPS.

_ Droga! Não dá pra comprar nada do que eu quero.

_ Olha, vamos combinar uma coisa: se você resolver que quer MESMO o cartucho de Nintendo, você junta mais um pouco e eu te ajudo a comprar, que tal?

_ Se eu escolher uma coisa que eu quero MESMO, você me ajuda?

_ Ajudo.

_ Mesmo?

_ Mesmo, filho.

_ Então, eu já sei.

_ Ótimo, o que é?

_ Um vulcão.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Tia Genérica, parte 2

Trim, trim, triiiiiiiiiiim!

_ Alô?

_ Ana? É a tia Genérica.

_ Oi, tia. Como vai a senhora?

_ Ah, minha filha, nada bem.

_ É mesmo? O que houve?

_ Eu estou triste, meio deprimida...

_ Puxa, tia, que pena... por quê?

_ Porque eu estou muito gorda. Muito gorda mesmo, sabe? Relaxei com o meu corpo.

_ Nossa, tia, da última vez que a gente se viu, eu achei a senhora ótima.

_ Ah, mas eu piorei muito, minha filha. Muito. Nenhuma roupa mais me serve; um horror. E o pior é que eu tenho um casamento na semana que vem e estou nua.

_ Sei...

_ Aí, eu lembrei de ligar pra você. Será que você não me emprestaria um vestido seu?

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Tia Genérica, parte 1

Todo mundo conhece alguém assim.

Geralmente, é uma tia que não necessariamente é irmã dos seus pais. Às vezes, é uma amiga da sua mãe que, por razões que a própria razão desconhece, insiste em frequentar a família há décadas. A sua. Não a dela própria.
A tia Genérica é uma pessoa avançada na idade, nos dissabores da vida e no grau de miopia, que parece compensar esses avanços todos com comentários inclassificáveis.

_ Ana!
_ Oi, tia Genérica.
_ Nossa! Há quanto tempo! Você engordou?
_ Não, tia. Continuo com o mesmo peso.
_ Mas você tá mais fortinha. Com quantos anos você está?
_ Trinta e nove, tia.
_ Só??? Tem certeza? Eu pensei que você já tivesse passado dos quarenta há algum tempo.
_ Não, tia. Eu só faço quarenta em agosto. Falta muuuuuuuito tempo.
_ Mas, espera aí... quando você brincava com o Heitorzinho, meu filho, vocês eram quase da mesma idade, não?
_ Não, tia. Eu sempre fui oito anos mais nova que o Heitorzinho. Sempre.
...
_ Mas você esta bem, Ana. Tá até conservada.
_ Er... obrigada?
_ Você usa creme para os olhos, minha filha?
_ Uso, tia. De manhã e à noite, religiosamente, desde meus vinte e cinco anos.
_ Pois não parece...

terça-feira, 19 de maio de 2009

O Primeiro Amor


_ Mamãe, eu estou apaixonado.

_ Comassim, meu filho? Você só tem sete anos!

_ Eu sei, mas estou apaixonado.

_ E quem é ela?

_ A Lívia.

_ E quem é a Lívia?

_ Uma menina da minha classe.

_ E como ela é?

_ Linda.

_ Mas como ela é? De que cor são os olhos, os cabelos?

_ Ela tem cabelos escuros, lisos e brilhantes e uma carinha linda.

_ Sei... e ela é mais alta ou mais baixa que você?

_ Mamãe, isso importa?

_ Bem, na verdade, não. Tô só curiosa, filho.

_ Mais baixa.

_ Sei... e você já falou que gostava dela?

_ Falei que estava apaixonado.

_ JuraporDeus??????????

_ Juro, mamãe.

_ E o que ela disse?

_ Que também estava apaixonada por mim.


... Aí a gente cresce e estraga tudo.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Mãe que é mãe...

Esse ano, meu filho cresceu e foi para a escola grande, junto com a irmã dele.

Ele estranhou a classe sem brinquedos, o recreio muito curto, a professora que fala sem parar e a quantidade de lição de casa. Eu estranhei o fim das festinhas de Dia das Mães. Acabaram os cartões toscos, os cinzeiros de argila, os vasos pintados com tinta acrílica, os pregadores decorados...

Não que a escola grandona não faça nada. A comemoração desse ano foi em um cinema (!) na Avenida Paulista (!!), às nove da manhã (!!!) de sábado (!!!!).

Programa: mães e filhos seriam recebidos pelo coral da escola e tomariam café-da-manhã. Depois as mães veriam um filme de mães (“Eu Odeio o Dia dos Namorados”!) e os filhos veriam um filme de filhos. Confesso que não entendi nada. Qual é o sentido de comemorar o Dia das Mães separada do filho? Conversei com meu filho e resolvemos pular.

Acordamos no sábado e tomamos nosso próprio café-da-manhã, sem cinema nem coral, mas com morangos, leite com chocolate e pão de queijo, na nossa própria cozinha.

De repente, ouvimos música vinda da escola vizinha à minha casa e fomos os três para a janela. Eram os pequenininhos da pré-escola, agrupados em círculo, cantando em português e em inglês para um bando de mães emocionadas.

É claro que eu chorei. Mesmo da janela; mesmo sabendo que a festa não era pra mim; mesmo sem conhecer uma única criança; mesmo nunca tendo entrado naquela escola. Chorei porque mãe é um bicho que chora em festas genéricas de Dia das Mães. Para sempre.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Skate Adventures, parte 2

Na loja de skate, fui atendida por um menino que não devia ter mais de 12 anos. Dá uma pena ver criança tão pequena trabalhando... Ele devia estar na escola. Será que tinha dado tempo de se alfabetizar?

_ E aí? Belê?

_ Belê. Eu queria comprar um skate pro meu filho, por favor.

_ Sei. Ele é âm?

_ Hein?

_ Ele é âm?

_ O que é “âm”, moço?

_ Amador, tia. O seu filho é amador?

_ Claro que é. Ele só tem sete anos. Começou agora.

_ E que tipo de skate a sra. quer?

_ Quero um do tipo “certo” pra um menino de sete anos, que começou a andar agora e que não custe mais de duzentos reais.

_ Duzentos o shape?

_ Não, moço. Duzentos o total da conta, em duas vezes, no cartão, pro moleque sair andando, com tudo o que isso envolve.

_ Entendi... A sra. tem que escolher um shape. Que shape que a sra. quer?

_ Hmmm... oval, comprido?

_ Depende do estilo do seu filho.

_ Moço, ele não tem estilo. Está começando a aprender “agora”.

_ Mas ele faz freestyle, street, mini ramp, half pipe, pool, big air, downhill…como é que ele anda?

_ Em pé, oras! Às vezes ele dobra um pouco os joelhos e estica os braços assim, ó, meio de lado.

 

Enquanto ele tentava, em vão, conter a risada, eu me sentia a mais incompetente mãe de skatista do mundo.

 

_ Olha, existem três tipos de shape: skateboard, fishboard, longboard, com vários noses, tails e côncaves diferentes

_ Qual é a mais comum?

_ Skateboard.

_ Ok. Eu vou levar uma dessas, com nose e tail padrão.

_ E a mesa, o truck, roda, amortecedor, rolamento?

_ Moço, na boa: eu não sei se deu pra perceber, mas eu não ando de skate, não sei nada de skate e nem domino o vocabulário. Assim, temos duas opções: ou você me descola o skate “certo” pro menino, ou eu vou embora sem skate e você fica aqui, sem comissão. O que vai ser?

_ É que fica difícil ajudar a sra. sem ter informação.

_ Mas eu já dei todas as informações que eu tinha, criatura! O primeiro skate dele, que tinha uns desenhos irados, de monstros embaixo, o professor disse que não prestava. O segundo, que ele ganhou, o professor disse que não andava o suficiente. Essa é minha terceira e última tentativa. Assim, pelamordedeus, monta aí um skate médio, com rodas, cheipe, truck, whoop, skettles, sbranches e brables médios, pra um menino médio aprender a andar. Se possível, com rodas verdes porque a gente adora verde. Se não der certo, boto ele no karatê porque, de kimono, eu entendo.


...


_ Pronto, tia. Eu pus um slick no shape pra ficar mais slide. Ficou dentro do preço.

_ Ótimo.

_ A session dele vai ficar rad!

_ Obrigada. Pra você também.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Síntese


_ Que legal a sua lição de casa, filho!
_ Qual?
_ Essa aqui, ó. É a história do elefante cinzento e grandalhão. Conta como ele subiu montanhas, desceu colinas e fez mil coisas. E você tem que recontar a história com outro personagem.
_ É. Eu sei.
_ Que personagem você vai escolher, filho?
_ A rã. A rã leve e bege.
_ Rã bege? Que interessante! E por quê você escolheu a rã?
_ Porque é mais curto.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Skate adventures - parte 1

Não é fácil para uma mãe acompanhar o ritmo dos filhos. Meu filho agora faz skate. São sete anos de pura energia e adrenalina em cima de uma prancha com rodinhas. Para lapidar o estilo, resolvi colocá-lo nas aulas do clube. Como já investi muito no moleque e preciso conservá-lo, comprei antes equipamento completo de proteção. Capacete, ele vai usar provisoriamente o de ciclista, até minha conta bancária se recuperar porque antes de acertar no skate, tive duas aquisições solenemente recusadas pelo professor.

 

_ Mãmi, esse skate não dá!

(Mãmi?)

_ Você que é o professor de skate do meu filho?

_ Eu mesmo, mãmi. Meu nome é Johnny.

(Acho que eu já vi esse filme.)

_ Legal, Johnny. Olha só: eu não sou sua mãe, tá? Não sei como a notícia vai cair pra você, mas é melhor que você saiba de uma vez, antes que comece a se apegar a mim.

_ Ah, falou. Olha, é que esse skate do Montanha não tem a menor condição.

_ E por que não? É tão bonito, verde, tem uns monstros aqui na parte de baixo, ó...

_ Ah, mã... tia, porque esse não roda direito. Vai prejudicar a performance do moleque.

_ Sei...

_ Aí, todos os amigos dele vão progredir e ele vai ficar estacionado...

_ Entendi. E qual é o skate “certo”?

_ Tem que ser um bom, tia.

_ Bom “quanto”, Johnny? Porque lembre-se de que o Montanha aqui tem só SETE anos e que é mais fácil um boi voar do que eu comprar um skate de um milhão de dólares pra ele.

_ Acho que com umas duzentas pratas você já compra um que ele consiga andar.

_ Duzentas pratas??? Pelamordedeus!

_ Isso, pra começar, né? Depois, a gente vai melhorando.

_ Sei. Johnny... faz o seguinte: anota aqui, por favor, o que eu preciso, que eu vou tentar arrumar isso para antes da próxima aula.

_ Falou, tia. Aê, Montanha, a mãmi é pro, hein?

 

...

 

_ Filho, o que é esse “pro” que o seu professor de chamou?

_ Sei lá, mamãe, deve ser professora.

_ Mas eu não sou sua professora. Sou sua mãe.

_ Eu sei. Quer que eu vá lá e pergunte?

_ Melhor não, meu filho. Vamos embora.


Peguei os endereços de lugares para comprar o skate “certo” e saí, munida do maior espírito aventureiro, a bordo do meu mais puro estilo skatista.

Continua...

quinta-feira, 16 de abril de 2009

40

Tenho acompanhado nos últimos tempos várias amigas chegarem aos quarenta anos. As comemorações variam, mas muitas tem oferecido grandes festas para uma centena de pessoas ou mais, com as músicas que a gente dançava, comes, bebes, flores, garçons e iluminação caprichada. Invariavelmente, as aniversariantes estão esfuziantes a bordo do trio melhor penteado-melhor roupa-melhor maquiagem. As mais abonadas reservam uns três meses antes da ocasião para pequenos retoques, lipos e uma ampolinha de toxina botulínica para amenizar as rugas que começam a dar as caras. Afinal, envelhecer virou pecado mortal e se os cinquenta são os novos trinta, os quarenta são o quê? Os novos vinte? Eu acho que não.

Porque por mais que abundem mulheres de cinquenta que juram estarem muito melhor hoje do que aos vinte, é impossível manter um pique igual sem mil vezes mais esforço. E nem sempre aos quarenta, a gente tem tempo para tanto esforço.

É claro que todo mundo diz que morre de orgulho de cada passo do caminho, de cada dia vivido, de cada conquista e de cada ruga – e é verdade, à exceção, talvez, das rugas – e que não quer, por nada, voltar aos vinte anos.

Só que aos vinte anos, a gente saía, voltava às quatro da manhã, levantava seis e meia e ia para a faculdade como se nada houvesse. Aos vinte, a gente comia lasanha e pizza quatro queijos quando tinha vontade, tomava sorvete com calda, se entupia de chocolate na Páscoa – e no resto do ano – e não engordava. Aos vinte, a gente não usava demaquilante, nem loção tônica, nem um hidratante para o dia e outro para a noite – este último, com ácido para corroer o peso dos anos –, nem filtro solar e tinha pele de pêssego. Em calda. Aos vinte, a gente não fazia ginástica, ou fazia duas vezes por semana e tinha coxas firmes, bunda dura e uma barriga mais chata que a Mallu Magalhães que, por sinal, nem vinte tem.

Por mais que a gente sorria e celebre não é fácil fazer quarenta anos e quem disser que é, está mentindo. Aliás, ouso dizer que é muito mais difícil hoje. A seu favor, nossas mães não tinham a obrigação de preservar o frescor dos vinte nem a expectativa – geralmente frustrante – de manter o mesmo pique, o mesmo corpo e a mesma disposição.

Eu completo quarenta anos em agosto e estou me preparando com muito cuidado. Não vou fazer lipo, não vou aplicar Botox e provavelmente não vou dar festa porque nunca tenho grana. Para ajudar na aparência, um vestido novo, unhas feitas e um novo corte de cabelo. Talvez me rebele e aprenda a andar de moto para driblar o trânsito de São Paulo. De resto, manter a rotina de sono, a alimentação equilibrada e os exercícios cinco vezes por semana para tentar, em vão, abandonar em alguma esteira os três quilos que vieram morar em mim um ano atrás.

E, não. Esse post não tem conclusão, lição de moral, mensagem otimista ou final engraçadinho. Vou ali tentar lidar com a perturbação e entender esse negócio de fazer quarenta anos e, quando descobrir, eu volto.

terça-feira, 31 de março de 2009

Da relatividade da existência

_ Mamãe, coelho da Páscoa existe ou não existe, afinal de contas?

_ Depende, filho.

_ Como assim, “depende”? Ou existe, ou não existe.

_ Você quer que ele exista?

_ Quero, mas eu acho que não existe.

_ E por que você acha que não existe?

_ Porque um menino na minha escola disse que não existia.

_ Talvez, para ele, não exista. Mas pode existir pra você.

_ Mesmo?

_ Mesmo.

_ Até quando?

_ Até quando você quiser.

_ Mas se o Coelho da Páscoa não existe, a Fada do Dente e o Papai Noel também vão deixar de existir, né?

_ Provavelmente.

_ Chato, né?

_ É, filho. Muito chato.

_ Se eles deixarem de existir, eu vou deixar de ganhar ovos de Páscoa e presentes no Natal e quando cair um dente?

_ Não.

_ Mas aí é você quem vai me dar, né?

_ Exatamente. Eu e outros adultos.

_ Acho que prefiro que eles existam mais um tempinho.

_ Eu também, filho. Definitivamente, eu também.

segunda-feira, 30 de março de 2009

A lógica da dor de barriga

_ Mamãe, eu vou ganhar ovos grandes ou pequenos na Páscoa?

_ Eu não sei, filho. De que tipo você prefere?

_ Eu prefiro dos dois tipos. Pequenos pra procurar e grandes pra deixar em cima da mesa, da cama e da cozinha e comer até dar dor de barriga.

_ Mas não é ruim ter dor de barriga?

_ Deve ser. Eu nunca tive.

_ É verdade. Acho que você nunca teve mesmo. Que sorte, hein?

_ Então, eu devia poder comer ovos até ter dor de barriga.

_ Mas se você sabe que é ruim, por que você quer ter dor de barriga?

...

_ Já sei!

_ O que você já sabe, menino?

_ Já sei porque eu quero ter dor de barriga.

_ E por que é?

_ Pra você poder dizer: “eu não disse? Olha aí! Agora você está com dor de barriga!”

_ E por que você acha que eu vou dizer isso?

_ Porque as mães sempre dizem.

_ Eu nunca disse, filho.

_ Dãããns! Porque eu nunca tive dor de barriga, né?

sexta-feira, 20 de março de 2009

Eu queria tanto

Ter todo o tempo do mundo para brincar com você.

Ter todo o dinheiro do mundo para realizar os seus sonhos.

Ter toda a paciência do mundo para entender suas manhas.

Ter toda a sabedoria do mundo para te ensinar só o que é bom.

Ter toda a certeza do mundo para fazer você se sentir seguro.

Ter todo o humor do mundo para rir sempre das suas histórias.

Ter todos os ouvidos do mundo para escutar o que você tem a dizer sem cansar.

Ter toda a energia do mundo para acompanhar o seu ritmo.

Ter toda a segurança do mundo para nunca falhar com você.

Ter toda a força do mundo para moer quem te fizesse mal.

Ter toda a disposição do mundo para embarcar sempre nos seus jogos.

Ter todos os olhos do mundo para ver os seus sorrisos.

Ter toda a disponibilidade do mundo para estar sempre por perto.

Ter todas as mãos do mundo para segurar as suas quando você precisasse.

Ter todas as palavras do mundo para poder te explicar o que nem eu entendo.

 Ter todos os braços do mundo para não te soltar nunca.

Só que eu sou só sua mãe e não tenho nada disso.

O que eu tenho é todo amor do mundo, filho. E ele é seu.

Parabéns, meu anjo.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Yes, you can

Ouça SEMPRE as sábias palavras da tia Gloria Gaynor.

O primeiro coração partido.

Minha filha,


O primeiro coração partido não é fácil de lidar.

Lembro muito bem de quando levei o primeiro fora (foram vários) do meu primeiro namorado (também foram vários).

Lembro da sensação de vazio, da angústia, de olhar para os próximos cinquenta ou sessenta anos e de não enxergar absolutamente nada que valesse a pena.

Lembro de chorar muito. E alto. Eu chorava alto, filha. Queria que o mundo inteiro ouvisse o tamanho da minha dor.

Lembro de me sentir péssima, arrependida e de imaginar que se tivesse sido um pouco mais legal / paciente / tolerante / fácil (?!), talvez continuasse tudo bem.

Lembro de achar que nunca havia amado tanto na vida e que nunca amaria de novo.

Lembro da minha mãe me olhando com olhos brandos e dizendo que era só o começo e que eu ainda passaria por aquilo dezenas de vezes.

Lembro de responder que não aguentaria e que, se viver era aquilo, eu preferia morrer.

Lembro também da sua avó dizendo que o motivo de toda a minha tristeza era um babaca sem noção (na verdade, ela não disse “babaca sem noção”. Sua avó nunca falou assim. Estou adaptando para os dias de hoje) e que eu era infinitamente melhor do que ele.

Lembro de achar que nunca passaria.

Felizmente, lembro que passou. E passou várias vezes.

 

Exatamente como está acontecendo com você hoje, minha filha.

 

Você, meu amor, é maravilhosa. É um oásis nesse mundo cronicamente adolescente, tão ressecado de gentileza e inteligência. Você é sensível, delicada, culta, articulada, escreve lindamente e tem os cabelos e as pernas mais sensacionais que eu já vi na vida. Você tem olhinhos de jabuticaba e nariz de tobogã. E tem covinhas!

 

Você, minha filha, é um espetáculo em três atos para ser assistido e apreciado com calma. E não tem bundão, merdão, bostão, crianção, melecão no mundo que mereça uma lágrima sua que seja. Você nasceu para ser admirada e valorizada por alguém com muita sensibilidade. E até você encontrar essa pessoa – e você vai encontrar, eu garanto – vai deparar com um monte de lixo pelo caminho. Faz parte. Conhecendo, experimentando (e sofrendo até), a gente aprende a refinar a sensibilidade e a depurar o coração. E a cada bundão que te chutar, você vai estar mais preparada para reconhecer o amor da sua vida. Você vai ver.

 

Tenha fé, meu amor. Fé e força na peruca, que esse mundo é um hospício, mas é maravilhoso para mulheres valentes e lindas como a que você está se tornando.

 

Te amo,

 

Mamãe.

 

P.S.: e vai passar. Eu prometo. Eu sei que parece que não, mas vai. 

quinta-feira, 5 de março de 2009

O chato

Em todos os lugares tem um chato. Chatos de diversos estilos e modelos, sempre prontos pra desequilibrar a frágil harmonia dos lugares.


Meu chato de hoje, estava na piscina, às sete da manhã.


Escolhi a natação como esporte justamente porque é uma coisa na qual só dependo de mim e, de touca, óculos e rosto enfiado na água, não dá pra socializar com os outros. Ótimo. A intenção nunca foi essa mesmo.


Mas o chato da piscina não pensa assim. E enquanto o professor explica algumas técnicas simples, finalizando as frases com, “não é?” e “entenderam?” meramente retóricos, o chato faz questão de responder lááááá da sétima raia, pra todo mundo ouvir: “ÉÉÉÉÉÉÉÉ”; “ENTENDI, PROFESSOR”. Quando se dá conta de que todo mundo se vira para conhecer o autor de tanta interatividade, o chato se realiza. Está conseguindo chamar a atenção desejada. Então, mais confiante do que nunca, começa fazer comentários bem humorados – do ponto de vista dele – na seqüência das explicações. Tudo bem alto, pra todo mundo ouvir. Resignados, os demais presentes se concentram em ignorá-lo, mas nem sempre funciona porque poucas coisas na vida são piores que um chato que se sente ignorado. Eu, aliás, só consigo pensar em uma: um chato com bafo.


Bafo é muita deselegância. É muita falta de consideração com o próximo – no caso, próximo mesmo; na mesma raia. Fico aqui pensando: um tubo de pasta de dente custa uns dois reais; uma escova turbinada, pouco mais de cinco. Usado diariamente, depois das refeições, o conjunto dura uns bons três meses. Custa o chato-falador-bafo-de-onça escovar os dentes ou fechar de vez o bueiro?


Só afogando...

terça-feira, 3 de março de 2009

Mudanças

Na piscina:

 

_ Oi!

_ Oi.

_ Seu nome é Gabriel?

_ É, sim.

_ E você fez ESPM?

_ Fiz, mas faz muuuito tempo.

_ É. Eu sei. Eu estudei com você.

_ É mesmo? Nossa! Nem te reconheci. Deve ser porque você está de óculos escuros.

_ Não, Gabriel. Na verdade é porque se passaram quase vinte anos.

segunda-feira, 2 de março de 2009

O que você tem na barriga?

_ Mamãe, você vai ter mais um bebê?

_ Comasssssssim, menino? Você enlouqueceu? Filhos são muito caros, eu já tenho um de cada tipo e não pretendo ter mais nenhum. Por quê?

_ Porque tem uma barriginha aqui.

_ Barriguinha? BARRIGUINHA? Isso é coisa que se diga? Sua mãe malha diariamente, se esforça, come mais folhas que um ruminante e você vem que dizer que “tem uma barriguinha aqui”?! Que falta de sensibilidade, meu filho.

_ ... mas é uma barriguinha bonitinha. Uma barriguinha de bebê.

_ NÃO TEM barriguinha aqui. E nem bebê, entendeu?

_ Tem sim.

_ Não tem, não tem, não tem.

_ Tem.

...

_ Mamãe, você está chorando?

_ Tô. Snif.

_ Só porque eu falei que tem um bebê na sua barriga?

_ Não! Porque você disse que tem uma barriga na minha barriga! NUNCA mais diga isso a mulher nenhuma, entendeu? NUNCA MAIS!

_ Por quê?

_ Porque a gente fica triste. E porque é deselegante, e cruel.

_ Bebê é cruel?

_ Nãããão! Barriga é cruel. Mas pensando bem, bebês também são cruéis. Às vezes.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

O segundo filho


A vantagem do segundo filho é que a gente relaxa muito porque já viu que, de uma forma ou de outra, eles sobrevivem. A verdade é que filhos são muito mais resistentes do que se imagina. Com o primeiro, a gente acha que a primeira queda do berço é morte certa. Quando o segundo cai do berço, a gente dá um band-aid e manda parar logo de chorar. 


O segundo filho não tem álbum do bebê (ou, se tem, é incompleto);
O segundo filho tem menos fotos;
O segundo filho não tem gravação da primeira troca de fraldas, da primeira banana, do primeiro dente, do primeiro tombo, da primeira vacina... até porque, mesmo que seja pra ele; para os pais, aquilo não é mais "o primeiro";
O segundo filho aproveita os livros e, muitas vezes, as festas, do irmão;
O segundo filho ganha um monte de roupas de segunda mão, independentemente do sexo;
O segundo filho raramente tem uniforme de escola novo;
O segundo filho tem uma porção de brinquedos "reciclados", como aquele ursinho pulguento de um olho só que o primeiro filho mui generosamente cedeu;
As mamadeiras do segundo filho são esterilizadas por muito menos tempo (quando o são);
Ninguém sai correndo para ferver a chupeta do segundo filho quando ela cai no chão;
O segundo filho não é levado às pressas para o pronto-socorro quando come uma minhoca;
O segundo filho já nasce sabendo que não é o centro das atenções;
A pediatra do segundo filho não é acordada de madrugada quando ele vomita;
Nem quando ele tem febre;
Nem quando ele cai do berço.

Em compensação, o segundo filho:
É sempre o bebê da casa;
É mimado por todo mundo;
É sempre defendido por ser "o pequeno";
É criado com mais liberdade;
Ganha a chave de casa muito mais cedo;
Vai na esteira das conquistas do irmão;
Sofre muito menos pressão para comer rúcula;
E brócolis;

E mamão;

E peixe;

Divide as atenções;
Sempre pode pôr a culpa no primeiro filho;
Ganha presente de Dia das Crianças por mais tempo porque ninguém quer aceitar o fato de que ele cresceu;
Roi a unha e tira meleca do nariz em paz...

Não sei se o fato de ser a primeira tem alguma relação com isso, mas pesando os prós e os contras, acho que deve ser muito bom ser o segundo filho.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

A primeira reunião.


Na reunião inicial, a professora detalha o método e aproveita para mostrar a primeira redação da turma.

Tema: o que você espera da escola este ano?

 

(textos no original)

 

Giovanna: Eu espero aprender a letra curciva, brincar muito e fazer novos amigos.

 

Ian: Eu espero que a profesora seja legal que as aulas sejam legais e que eu aprenda muito.

 

Júlia: Eu espero ter muitas aulas de portugês e poucas aulas de matematica. Espero que a tia Andrea seja legal porque minha outra profesora era chata.

 

Victoria: Eu espero que a minha letra fique bem bunita. Aí, eu vou virar uma escritora bem famosa e rica.

 

Gabriel: Eu espero aprender muito e faser amigus legais. Eu espero gostar da mina nova escola.

 

Montanha: Eu espero que acabe logo pra eu poder ir pra caza brincar.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Oh, Lord...

Dai-me a energia do meu filho de seis anos
E a maturidade da minha filha de treze.
Amém.

Quer prosperar? Use camisinha.


Só há uma coisa mais cara
que manter um filho
em idade escolar

no mês de fevereiro:
manter dois filhos
em idade escolar
no mês de fevereiro.

Contas, peguem uma senha
e aguardem na fila.
Obrigada.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Percepção e realidade

_ E aí, meu filho? Gostou da escola?

_ Médio.

_ Médio?

_ É. Médio.

_ Que parte você gostou mais?

_ Do recreio.

_ Sei. E depois?

_ Da hora do lanche.

_ O lanche estava bom?

_ Não sei. Não lanchei.

_ Por quê??? A mamãe não mandou lanche?

_ Mandou, mas não mandou lancheira.

_ E daí, filho?

_ Daí, que eu não ia descer carregando meu lanche na mão, né?

_ Poxa, filho. Por que não? Sua irmã sempre detestou lancheira. Nem me ocorreu comprar uma pra você.

_ Mas eu não sou ela. E todo mundo tinha lancheira, menos eu.

_ Ok. Eu compro uma lancheira pra você, tá?

_ Promete?

_ Prometo.

_ Irada?

_ Irada. E a professora, é legal?

_ Médio.

_ E a classe? Você gostou da classe?

_ Achei a classe muito chata.

_ Chata??? Por quê?

_ Porque só tem mesas, cadeiras, uns armários e a lousa.

_ E o que mais precisava ter, filho?

_ Brinquedos né, mamãe?

_ Só que agora você é um menino grande e não vai mais poder ficar brincando na classe. Classe é pra estudar. Hora de brincar é no recreio.

_ Posso voltar pra escolinha do clube?

_ Não pode.

_ Por quê?

_ Porque você é um menino grande e a escolinha do clube é para meninos pequenos.

_ Então, eu não quero mais ser grande.

_ Nem eu, filho, mas não tem jeito.

_ Mas você é mãe! Mãe não pode ser pequena.

_ E filho grande não pode estudar na escolinha do clube.

_ Se você pudesse ser pequena, eu poderia voltar pra escolinha do clube?

_ Hmmm... acho que não. Porque se eu fosse pequena, eu não ia ter você e se você não existisse, não ia poder estudar na escolinha do clube, né?

_ É. Chato, né, mamãe? A gente devia poder ser do tamanho que quisesse.

_ Ô, se devia, filho.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Inícios memoráveis

Meu filho,


Quarta-feira passada foi o primeiro dia de aula seu e da sua irmã e cada um de nós não dormiu por um motivo.


Sua irmã não dormiu de curiosidade. Estava morrendo pra saber se o amigo tinha repetido mesmo; se o bonitinho do colegial olharia pra ela; se haveria alguém novo na classe; se iam gostar da mochila nova; se seria melhor ir de cabelo preso ou solto, com ou sem lápis no olho. Sua irmã já está grande, filho. Já é uma mulherzinha e tem preocupações muito diferentes das suas. Falou até que se conseguisse ver você no recreio, ia te dar um aperto bem forte – dá status ter irmão mais novo, sabe? – mas eu falei pra ela que era melhor não apertar você. Afinal, você também está construindo sua imagem.


Você não dormiu de ansiedade, de curiosidade e de vontade de conhecer a escola nova, a classe nova, a professora nova e os amigos novos. Quis dormir já com o uniforme novo, mas eu não deixei. Talvez devesse ter deixado, mas mães são mesmo assim. Quando você tiver seus filhos, deixe que eles durmam de uniforme no primeiro dia de aula, tá? Não tem mal algum nisso.


Eu não dormi, pensando no mundo imenso que começa a se abrir para vocês. Você, grandão, escola nova e aulas de verdade. Sua irmã, no último ano do ginásio, já começando a pensar no que vai querer ser para o resto da vida. Por enquanto ela quer ser escritora e quem sou eu para desencorajar? Só precisamos fazê-la entender  muito direitinho que é raríssimo um escritor viver de literatura no Brasil. Talvez se ela fizer jornalismo... mas ainda temos tempo pra isso.


Saímos numa hora boa e fomos de mãos dadas, com você puxando sua mochila nova de rodinhas, cheia de material novo dentro. Me ofereci para ajudá-lo, mas você não quis de jeito nenhum. Fez questão de puxar aquela mochila pesaaada ladeira acima e calçada abaixo. Como era seu primeiro dia, você desviou das poças e até pediu para atravessarmos para não passar com a mochila nova num monte de areia úmida. Sei que isso vai durar pouco, filho, e que talvez essa mochila nova não dure nem até o meio do ano. Ainda bem que compramos um modelo barato!


Chegamos à escola e você estava lindo, cheiroso e penteado como um menino que a mãe escovou antes de sair (e escovei mesmo!). Fomos para a fila da sua classe e você nem precisou segurar na minha perna. Até porque, você já está grande demais pra isso. Segurou, isso sim, na minha mão e eu apertei a sua de volta com bastante força, pra você entender que eu estava ali, de verdade, com você. De repente, alguém que não era sua professora veio dar as boas vindas e tratou logo de apresentar você a um novo amigo, que também estava com os pais. Você, sociável que só, começou a puxar papo com o menino novo e nem reparou que ele estava de camiseta do Pateta. Que espécie de mãe manda um filho para a escola, no primeiro dia de aula, com uma camiseta do Pateta? Será que ela não sabe que um ato desses pode arrasar a fama do seu amigo até o fim do primário? Ainda bem que você estava de uniforme completo. Com a cueca d’Os Incríveis, é verdade, mas isso fica só entre nós.


Dali a pouco, o sinal tocou e você subiu a escada na maior confiança. Fiquei ali, esperando você sumir degraus acima. Lembrei do seu primeiro dia no mini maternal, ainda de fraldas; do primeiro dia da sua irmã na escola grande e, agora, do seu novo início. Senti um orgulho imenso de ter estado com vocês em cada um desses dias, segurando as mãozinhas com força. Aí, me deu um aperto tão grande no peito, que foi difícil não chorar. Tá bom, eu deixei escorrer uma lagriminha, mas como estava de óculos escuros, ninguém viu.


Vai com Deus, meu filho. Faça seu caminho e, se tiver alguma dúvida, siga os lindos passos da sua irmã, que é um modelo e tanto pra você e para mim. Amo vocês dois. Loucamente.


Mamãe

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

O Pequeno Macho das Cavernas

_ Eu queria ser um homem das cavernas...

_ Por quê meu filho?

_ Porque era muito mais legal no tempo das cavernas.

_ Ah, é? E como é que você sabe?

_ Eu vi num livro.

_ Você sabe que no tempo das cavernas não tinha cama, nem travesseiro, nem cobertor?

_ Dãããns! Claro que sei. Eles dormiam em camas de pedra, né?

_ Mais ou menos. Dormiam no chão duro, frio e úmido e se cobriam com umas peles fedidas. Não devia ser nem um pouco confortável.

_ Mas era mais legal.

_ Você acha mesmo? Já pensou que não tinha televisão, nem mesa, nem prato?

_ Eles comiam com a mão?

_ É, filho. Com as mãos.

_ Iraaado!

_ Irado, mas depois eles ficaram grudentos e gordurentos e não podiam tomar um banho gostoso de água quentinha, como você toma. Ficavam sujos mesmo. Até porque, não tinha chuveiro, nem shampoo, nem sabonete.

_ Mas eles podiam caçar com faca.

_ E você pode usar faca, meu filho. Todos os dias, à mesa. Agora, eu não vou permitir que você fique sacudindo uma faca pela casa durante o dia. Pode esquecer.

_ E você também não me deixa fazer fogueira.

_ É verdade. Não deixo. Principalmente no seu quarto.

_ E nem me deixa caçar...

_ Você não tem idade para caçar.

_ Quando eu tiver, você deixa?

_ Podemos negociar isso.

_ Com faca?

_ Vamos ver... Só uma perguntinha: se você for caçar com faca, pretende caçar o quê, exatamente?

_ Ah, mamãe, o que eu conseguir pegar, né? Um coelho, um pombo, um mamute!

_ Pombo nem pensar, porque eu odeio pombo. Coelho, eu duvido que você tenha coragem porque é você mesmo quem diz que coelhinhos são fofinhos. Agora, digamos que você encontre um mamute para caçar. Quem, em nome de Deus, vai limpar esse monstro?

_ Você, ué!

_ Eu???

_ É. Se eu for um homem das cavernas, você vai ter que ser uma mãe das cavernas.

_ Mas eu não quero ser mãe das cavernas!

_ E se eu te obrigar?

_ Você não pode me obrigar, filho. Primeiro, porque eu sou sua mãe. Depois, porque eu sou mais velha, maior e mais forte e, finalmente, porque quem manda aqui sou eu.

_ Saco!

_ Saco?

_ É. No tempo das cavernas era muito melhor porque quando as mães das cavernas não queriam fazer alguma coisa, os homens das cavernas arrastavam elas pelos cabelos e pronto. Tem até um desenho aqui, ó!

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Origens

_Mamãe, em que ano você nasceu?
_ Mil novecentos e sessenta e nove, filho.
_ Antes ou depois de Cristo?