_ Mamãe, o que você trouxe pra mim da viagem?
_ Bem, filha, como foi só uma semana, eu trouxe só um presente. Essa camiseta aqui, ó.
_ Essa aí? Ah... tá.
_ Você não gostou?
_ É... gostei... não tem mais nada?
_ Na verdade, tem. Tem um Bem Casado que eu trouxe do casamento do seu primo.
_ Mamãe, um Bem Casado!!! Eu AMO Bem Casados. Obrigada, mamãe, muito obrigada.
_ De nada, filha.
_ Aliás, quer saber? Quando eu crescer, quero ser uma Viúva Negra.
_ Credo, filha! Você sabe o que é uma Viúva Negra?
_ Dãããns! Claro que sei. É uma aranha que mata o macho logo após o casamento.
_ E por que você quer ser uma Viúva Negra, pelamor?
_ Para poder casar muitas vezes e comer muuuitos Bem Casados.
Segunda-feira, 30 de Junho de 2008
O cúmulo do desejo
Quinta-feira, 12 de Junho de 2008
Quinta-feira, 5 de Junho de 2008
Os seus, os meus e os nossos ex
Meu ex-marido tem duas ex-mulheres e um punhado de ex-namoradas. Meu namorado também tem duas ex mulheres e várias ex-namoradas. Eu tenho um ex-marido, um namorado e alguns ex-namorados, muitos dos quais com ex-mulheres e todos, sem exceção, com ex-namoradas.
Com tanta gente envolvida, mesmo em uma cidade como São Paulo, onde uma pessoa é capaz de passar a vida inteira sem nunca rever um amigo de faculdade, parece inevitável encontrar a atual de um ex ou a ex de um atual.
Há quem goste, mas eu acho muito constrangedor.
Terça-feira, 3 de Junho de 2008
Os Cuecas
Cuecas são os membros pertencentes à classe dos meninos que se interessam pelas nossas filhas e que, geralmente, estão infinitamente aquém do que imaginamos como minimamente adequado para elas. A escola costuma ser o primeiro reduto de “Cuecas” com o qual uma mãe tem que se confrontar.
“Você já ouviu falar em pente?”
“Isso no seu cabelo... sai?”
“Jura por Deus que você se olha no espelho antes de sair de casa e fala: tô bonito?”
“O que é esse rombo na sua orelha, pelamordedeus? E por que você enfiou a carretilha da máquina de costura da sua avó nele?”
“Sua mãe bem que podia comprar cadarços pra esses tênis, né?”
_ E aê, tia?
_ Filha, por que eles são assim?
_ Ué, mamãe. Porque são.
_ Mas por que eles não são bonitinhos, perfumadinhos e penteadinhos?
_ Porque ia ser ridículo.
_ Mas o Felipe é bonitinho, perfumadinho e penteadinho e não é ridículo.
_ Mamãe, você não vê o Felipe desde a terceira série.
_ E...?
_ E ele mudou, mamãe. Mudou muito.
_ Mudou?
_ Ô.
_ Quer dizer que aquele menino bonitinho, perfumadinho e penteadinho...
_ Tá com o cabelo quase no meio das costas, usa piercing na sobrancelha e brinco de argola. Ah, e acho que não usa desodorante.
_ Pelamordedeus...
Uns dias depois, vi esse casalzinho na entrada da escola. Ele, uns 16. Ela, uns 14. Ele, recostado na mureta, cabelos úmidos precisando desesperadamente de um corte, pernas abertas, enlaçando a menina pela cintura. Ela, de cabelos compridos jogados para a frente e grandes brincos de argola, apoiada languidamente nele, ora consultando o estado do cabelo num espelho próximo, ora beijando o sapo, digo, o príncipe. Beijocas e mais beijocas; centenas delas. Lembrei na hora dos olhos horrorizados da minha mãe quando viu alguns dos meus namorados e da maldição: “Você me paga. Você vai ver!”. Tô pagando, mãe. Ô, se tô. Mas sua neta também me paga. Ela vai ver.
Terça-feira, 27 de Maio de 2008
O assunto dos acentos
_ Oi, filha. Tudo bem?
_ TD. O P tem q lvr 1 foto de maio pra scla. Vc traz?
_ Seu irmão tem que levar uma foto pra escola? Foto recente? De maio?
_ Eh.
_ Tá. Vou separar aqui. Pode ser do Dia das Mães?
_ Km assim, MM? Pirou?
_ Comassim, digo eu, filha! Ele não tem que levar uma foto de maio? De maio, acho que só tenho do Dia das Mães. Qual é o problema?
_ Pô, MM! Não cmplik. É foto de rp de ndr; na piscina!
_Mas seu irmão não foi à piscina em maio.
_ MaiÔ, MM. Maiôôôô.
_ Ahhhhhhhhhhhh, tá. Agooooooora eu entendi. Essa sua mania de comer os acentos ainda vai nos arrumar encrenca. Custa usar os acentos, filha?
_ PQ? Acento eh 1 prda de tmp.
_ Não é, não. Acento é muito importante.
_ Eu n axo.
_ Mas é. E se você pretende escrever em português, TEM que usar acento.
_ PQ?
_ Para que as pessoas entendam o que você quer dizer. Para que não aconteça o que quase aconteceu agora, do seu irmão levar a foto errada pra escola, por causa de um acento a menos. Quer outro exemplo?
_ Qro.
_ Tá. Olha só: João e Maria é um casal. João é Maria é um transsexual.
_ MM, vc pirou msm.
_ Por que, filha?
_ Dããããns! Pq João e Maria eh uma hstria. Td mnd sb disso.
Sexta-feira, 16 de Maio de 2008
Treze
Tão difícil quanto ser mãe é ser filha. Ainda mais a mais velha. Eu sei bem. De repente, só porque a gente nasceu antes, todo mundo acha que a gente tem que ser mais madura, mais responsável, mais focada, mais educada, mais equilibrada.
Quando a gente tem um irmão mais novo, fica pior ainda. Ainda mais quando ele é muito mais novo. Aí, os pais sempre dão a desculpa de que “ele é pequeno, a gente é grande; ele não sabe; a gente sabe...” e por aí vai. E quando a gente finalmente consegue as coisas, depois de lutar feito louca, vem o irmão mais novo e consegue a mesmíssima coisa um mês depois, na aba das nossas conquistas. É filha; não é fácil ser filha, nem é fácil ser grande.
Lembra de quando você foi fada da Bela Adormecida na peça da escolinha? E daquele Dia das Mães, em que penduraram um coração imenso no seu peito e você cantou só pra mim? E quando você voltou de viagem e foi correndo pro quarto, beijar todos os seus bichinhos? Eu lembro, filha. Lembro de quando você pisou no formigueiro, de quando a abelha picou sua boca e de quando o cachorro arranhou sua perna. E lembro, perfeitamente, da sua primeira competição de esgrima e de quando você achou que o Yago era fortão só porque ele foi à escola com a fantasia do Batman. Eu estava presente em todas essas ocasiões, filha, assim como vou estar presente hoje, na pizza com as suas amigas (“só que em outra mesa, né? Longe, né? Porque mãe na mesma mesa é o maior mico!”).
Aí, um dia desses, eu olhei pra você e descobri que você tinha virado mulher. A descoberta me encheu de orgulho e de saudade. De orgulho, porque me fez ver que a gente conseguiu, apesar de tudo, chegar até aqui sem maiores percalços e que você está se tornando uma mulherzinha maravilhosa. De saudade, porque sei que daqui pra frente, você vai se afastar cada vez mais de mim para poder ser você. E que a gente só vai se encontrar de novo daqui a uns dez anos, quando você virar adulto de vez. Vai com Deus, filha. Com Deus e com a certeza de que, mesmo da outra mesa, eu vou estar sempre perto de você. Porque só tem uma coisa melhor que ser mãe: ser SUA mãe.
Quinta-feira, 15 de Maio de 2008
Mamãe-coruja
Reza a lenda, que toda mãe que se preze, deve admirar incondicionalmente a beleza dos filhos, desde o momento do nascimento. Só que comigo não foi assim.
Antes que a coisa fique preta, devo salientar que, hoje, meus filhos são, efetivamente, lindos. Tão lindos quanto é possível, modéstia à parte.
O problema é que durante a gravidez, passei os nove meses (ou quase), idealizando a aparência deles. Imaginava bebês como a minha irmã havia sido: lindos, imensos, bochechas coradas, totalmente carecas e com olhos azuis da cor do céu. Só que é óbvio que cada bebê é de um jeito e minha filha, apesar da ascendência puramente caucasiana, nasceu com uma farta cabeleira preta e espetada, que mais parecia filha de japonês. Nasceu pequena, magrinha... e peluda! A parte dos pêlos foi a mais chocante. Tinha toda a área das costas, dos ombros até o bumbum recobertos por uma fina camada de pêlos escuros, que a pediatra jurou por Deus que cairiam em alguns meses. De fato. Como se isso não bastasse, a pobrezinha nasceu de parto normal e, consequentemente, toda amassada. Ah, e tinha umas manchas escuras na região da bacia que, diante do meu espanto, a mesma pediatra disse tratarem-se de "manchas mongóis".
_ Comassim??!! _ perguntei, perplexa.
_ Mongóis. Da Mongólia.
_ Mas como essas manchas foram parar aí?
_ Deve ser a ascendência.
_ Comassiiiiim???!!!
_ Você ou seu marido devem ter ascendência Mongol.
_ Não temos!!!
_ Ah, devem ter, sim. Só que vocês não sabem.
Virei para o pai dela, acusadora:
_ Você tem ascendência Mongol? Porque eu, não tenho!
_ Eu, não! _ afirmou ele, aturdido.
Virei-me para a pediatra e declarei:
_ Nós não temos ascendência Mongol!
_ Então... _ disse ela, dando de ombros. _ Eu não sei.
_ Isso sai? _ perguntei, temerosa.
_ Sai _ disse ela. _ Em alguns meses.
Bem, eu sei que sou a mãe sei quem é o pai. Seria possível que minha filhinha tivesse sido trocada na maternidade? Não. Certamente que não. Eu vi quando colocaram a pulseirinha e conferi quando ela veio para o quarto e antes de levá-la para casa.
Tem mais. Quando nasceu, ela quebrou a clavícula. Os médicos disseram que era uma ocorrência comum em partos normais e que podiam enfaixar ou não, porque o osso calcificaria da mesma forma. Perguntei as vantagens e me informaram que enfaixando (por apenas sete dias), era garantido que a calcificação fosse perfeita.
_ Enfaixem!_ disse eu, poderosa.
Quando um bebê quebra a clavícula no nascimento, a imobilização é feita apenas com gaze, prendendo o lado fraturado, com braço e tudo, junto ao peito. Resultado: um braço fica solto e o outro, preso.
Algumas horas depois, fui chamada ao berçário para vê-la. Quase enfartei. Minha filha, saci-pererê de braço, com uma manga do macacãozinho recheada e a outra solta, como se faltasse um braço ali. Eu olhava para ela e pensava: "Deus! Tem alguma coisa errada comigo. Eu TINHA que estar louca de paixão por ela! Tinha que estar achando essa pequena taturana a coisa mais linda do mundo. Mas, como???"
Sozinha, fui algumas vezes ao berçário. Via os outros bebês (alguns lindos, clones perfeitos do bebê dos meus sonhos) e pensava, morta de culpa: "Puxa! Bem que a minha podia ser assim!"
Quando fiquei grávida do meu filho, resolvi não idealizar a imagem dele. "Agora estou mais madura, já vivi a experiência uma vez e VOU amá-lo de qualquer jeito. Venha ele como vier." Grande engano. Ele nasceu de cesárea e eu logo pensei: "dessa vez não vai nascer amassado, será loirinho e, com alguma sorte, terá olhos como os da minha irmã." Só que o coitadinho era feio de doer. Tinha bem menos cabelos que minha filha, todos concentrados na coroa externa da cabeça, como um fradinho careca em miniatura. Também nasceu pequeno, magrinho e tinha um nariz grande como o do pai, ligeiramente adunco. Olhava para ele no quarto e pensava: "parece um velhinho banguela
Para corroborar a minha tese de que o bichinho de doer, recebi a visita de um grande amigo, que depois de dar uma espiadinha no berço, disse, franco:
_ Ana, eu adoraria dizer que ele é uma gracinha, mas não vou poder.
_ Tudo bem _ respondi. _ Eu também não acho. Mas ele vai melhorar, se Deus quiser.
Ah, hoje, os dois têm olhos escuros, como jabuticabas. E eu adoro jabuticabas!
Quinta-feira, 8 de Maio de 2008
Confissões inv(f)ernais
Depois dessa seqüência de madrugadas frias e de ter que pular feito uma mola da cama pela manhã & trocar de roupa, eu resolvi pôr uma pantufa acolchoada e vir a público para dividir uma coisa muito, muito pessoal: eu tenho Tip-Top. Adoraria dizer que, mesmo no inverno, eu só consigo dormir usando camisolas de renda ou, como Marilyn Monroe, Chanel número 5, mas seria uma mentira deslavada.
Explico: sabe pijama de bebê, com pé? Melhor; alguém lembra do desenho do Peter Pan? E do irmãozinho menor da Wendy, que vai pra Terra do Nunca com um pijama ridículo, cor-de-rosa, com dois botões no traseiro? É. Eu sei. Fica uma gracinha. Desde que você tenha até um ano de idade. Ainda não captou? Ok. Imagine um macacão. É feio, eu sei. Adicione ao macacão pés do mesmo tecido com bolinhas antiderrapantes nas solas. Acrescente um zíper de quase um metro para permitir que um adulto entre e saia da peça da peça. Um Tip-Top é mais ou menos isso, só que pior.
Pior porque qualquer adulto de um metro e setenta de altura fica parecendo um whoompa-loompa com paralisia cerebral dentro dele. Como o meu é quase branco – uma coisa meio assim... off-white... trendy! – fico parecendo um coelho gigante dentro dele. O que me salva é que minhas orelhas são pequenas, graças a Deus.
Só que esquenta. Muito. E funciona como fonte de entretenimento pra família toda. Até meus filhos morrem de rir!
Se eu já usei esse estrupício na frente de outra pessoa? Talvez ainda solteira, na casa dos meus pais... Sei, com absoluta certeza, que nunca usei nem na frente do meu ex-marido.
É horrível, é medonho, mas esquenta. A única desvantagem do Tip-Top é que o meu, ao contrário do modelo do menininho do desenho, não tem dois botões ridículos no traseiro. É, meu amigo, você passa a tecer novas considerações sobre o quão dura a vida pode ser, no dia em que precisa levantar à noite para fazer pipi... e tem que tirar o Tip-Top.
Segunda-feira, 5 de Maio de 2008
Filha 3.0
Pelo MSN:
Filha: oi, mm!
Mãe: Oi, filha. Tudo bem?
Filha: td. E vc? 9ddes?
Mãe: Não, filha. Sem novidades. Tô aqui, soterrada como de hábito.
Filha: taum tá. Dpis flams.
Mãe: Filha, posso perguntar uma coisa?
Filha: Pd.
Mãe: Por que vc come as letras?
Filha: Hm?
Mãe: Por que vc fica me mandando essas mensagens enigmáticas, sem vogais?
Filha: Pro seu prpr bm.
Mãe: Pro meu bem???
Filha: É. Qr vr?
Mãe: Quero.
Filha: e eu eee ó a oai oê ão ai eee aa.
Mãe: O quê???
Filha: Eu disse que “se eu escrever só as vogais, você não vai entender nada.” Viu só km vc n ntndeu?
Quarta-feira, 23 de Abril de 2008
Agora você pode!
Você bem que gostaria de se informar, de ter acesso aos clássicos da literatura, mas o preço não ajuda? Numa iniciativa pioneira de levar cultura às massas, a livraria Saraiva está oferecendo O Pequeno Príncipe, o livro preferido por dez entre dez misses, por um precinho de ocasião. Aproveite o frete grátis e garanta já o seu.
Duvida?
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Agora, se o seu negócio é mais boxe, Muhammad Ali e coisas assim, encomende seu exemplar de Goat, de Taschen e economize ainda mais. Só pra você, que é legal, eles fazem por 12x de R$ 1.499,17 , sem juros.
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Terça-feira, 22 de Abril de 2008
Verdade seja dita
Pela manhã, no carro, a caminho da escola, esperando o farol / sinal / semáforo / sinaleira abrir.
_ Ih, filho, olha lá! O moço do jornal! Será que a gente consegue pegar um?
_ Consegue, mamãe. Eu estou torcendo.
_ Moço! Moço! Aqui, por favor.
_ Aqui está seu jornal. Bom dia, minha jovem.
_ Qual é o problema, filho?
_ Muito engraçado o moço do jornal chamando você de “minha jovem”.
_ Por quê?
_ Kkkkkkkkkk! Kkkkkk! “Minha jovem”! Kkkkkk!
_ Qual é o problema, moleque?
_ São dois problemas, mamãe. Primeiro, porque você não é “dele”. Segundo, porque você não é jovem.
Quarta-feira, 16 de Abril de 2008
Toy what?
O divertido de trabalhar com publicidade é isso: a gente acaba tendo contato com algumas coisas esquisitas antes das pessoas normais. A última moda (nem é tão “última" assim. Pelos meus cálculos, já tem mais de um ano) são uns monstrinhos caríssimos de plástico injetado que os adultos cool chamam de Toy-art.
Com isso, milhares de adultos cool no mundo inteiro estão voltando à primeira infância e enlouquecendo com seus “toys”.
Outro dia, chegou uma caixa para um amigo meu.
_ O que é? O que foi? É um iPhone? Um acelerador de partículas?
_ Não, Ana. É um bonequinho de Toy-Art que eu mandei trazer do Japão.
_ Puxa!... do Japão? Deve ser um estouro.
_ E é. Mal posso esperar para abrir.
_ Então abre, ué.
Ele abriu e eu fiquei ali, olhando, tentando entender que parte eu tinha perdido. A verdade é que desde a época em que eu fazia cinzeiros de argila na escola, eu não via uma coisa tão esquisita.
_ Como assim?
_ O que ele faz? _ insisti. _ Ele dança, pisca, acende alguma luz, recita Shakespeare, tira a temperatura?
_ Não, Ana. É só assim mesmo.
_ Só assim?
_ É. Não é lindo?
_ E você mandou trazer “isso” do Japão?
_ Mandei.
_ Pra quê?
_ Porque eu coleciono, ué.
_ Você coleciona monstrinhos esquisitos de plástico? Mas você nem tem filhos...
_ Não é pra criança, Ana. É para adulto. E não é um monstro de plástico _ concluiu ele, magoado. _ É Toy-art!
A vida pode ser dura quando a gente entra precocemente na adolescência... Outro dia, saí para almoçar com outro amigo, perto do trabalho.
_ Ok
Paramos e depois de uns dez minutos, acompanhei-o até o caixa. Na saída, perguntei:
_ É que eu coleciono, Ana.
_ Coleciona, mas não pode escolher?
_ É. São “blindboxes”.
_ “Blindboxes”; sei... E se você odiar? E se vier repetido?
_ Eu não vou odiar, mas se vier repetido, eu tento trocar com alguém.
_ Mas e se ninguém quiser trocar com você? E se o troço for feio de doer?
_ Ah, mas querem, sim. Há muitos encontros de colecionadores de Toy-Art por aí.
_ Sei... mas você não pode nem dar uma espiadinha na loja?
_ Hum-hum.
_ A moça não deixa?
_ Não é que não deixa, Ana. É que não é o espírito, entende?
_ Ele não trabalha mais aqui.
_ Mas é um brinde do IG pra ele.
_ Deixa comigo _ disse logo alguém, animado.
...
_ Gentennnn, que show, que maravilha, que sensacional! Era tudo o que eu queria!
_ O que é? Um cruzeiro de navio? Uma viagem de balão? _ perguntei, ansiosa. _ Porque se for, eu vou ligar djá pro Gastón e avisar.
_ Muito melhor que isso, Ana! Olha só.
_ Que horror! Que sacanagem! O que é isso, pelamor?
_ É o du_k, Ana, um Toy-art exclusivo. Ele é numerado e só existem mil iguais a ele. Mil no mundo inteiro! Ele vem com certificado de autenticidade e é disputadíssimo!
_ Disputadíssimo por quem?
_ Por todo mundo, Ana! Em que planeta você vive?
_ Acho que no planeta errado.
_ Ó: e nem adianta botar o olho grande em cima porque esse vai ficar pra mim, entendido?
Tendências...
Sexta-feira, 11 de Abril de 2008
Percalços no cume, parte 6. Final
Terça-feira, dois de abril, 18h30.
Quarta-feira, 9 de Abril de 2008
Percalços no cume, parte 5
Terça-feira, dois de abril, 14h30.
_ De novo?
_ É que o médico precisa consertar o seu nariz.
_ Mas ele já tá bom, ó!
_ Filho, pelamor, não cutuca! O doutor precisa operar seu nariz pra ele ficar retinho de novo e você poder respirar direito..
_ Operar? Radicaaaaal!
_ Escuta a mamãe: a gente vai daqui a pouco, você vai ficar em um quarto e...
_ Um quarto? Só pra mim?
_ É.
_ Com TV?
_ Com TV.
_ Com cama legal também, filho.
_ Uaaaauuu!
_ Mas presta atenção: mais tarde, o médico vai dar um remedinho pra você dormir e vai arrumar o seu nariz. Quando você acordar, já vai estar tudo no lugar, tá?
_ Tá. Só tem um problema.
_ Qual, fillho?
_ Vai dar tempo de eu assistir os Backyardigans?
_ Não sei, mas se não der, eu prometo que gravo, tá?
_ Tá. Mamãe, eu queria pedir uma coisa.
_ O que você quiser, filho.
_ Posso ir de helicóptero?
_ Pra onde?
_ Pro hospital, ué!
_ Nem morto. Dá pra pedir outra coisa?
_ Posso ir de ambulância?
_ Não. Próximo pedido.
_ Você fica comigo?
_ Sempre, meu amor. Sempre.
Terça-feira, 8 de Abril de 2008
Percalços no cume, parte 4
Terça-feira, dois de abril, 10h30.
Trim, trim, triiiiiim.
_ Alô?
_ Dona Ana Téjo?
_ Sim...
_ Bom dia, eu sou o Dr. Cássio, otorrinolaringologista. Eu estou aqui, atendendo seu filho, o Montanha, com a avó dele.
_ Sei.
_ Olha, tá tudo bem, viu? Eu quero que a sra. fique muito calma.
(Pronto. Lá vem.).
_ É que o Montanha fraturou o nariz ontem, não foi?
_ Foi.
_ Eu analisei os exames dele e... eu vou querer operar o seu filho.
_ Operar?! Justo o MEU filho?! Tanta criança no mundo pro senhor operar e tem que ser justo a minha?! Até porque, o médico ontem disse que...
_ Eu sei, mas pela tomografia, ele está com um desvio importante*. Se a gente não reduzir a fratura, ele vai ficar com o nariz torto e pode ter dificuldade de respirar.
_ Ele já está com dificuldade de respirar.
_ Pois é. Mas a senhora pode ficar tranqüila que é um procedimento** muito simples. Eu poderia até fazer aqui, no consultório.
_ O sr. vai fazer no consultório?
_ Então... não vou. Embora eu “pudesse” fazer no consultório, vai ser muito melhor pra ele se a gente fizer no hospital.
_ Sei...
_ Com anestesia.
_ Naturalmente.
_ ... geral.
_ GERAL???????? ANESTESIA GERAL? VAI TER QUE ENTUBAR O MEU FILHO?
_ Vou, mas é uma coisa simples.
_ Simples???????? Eu assisto "Discovery Home & Health", doutor. E "Plantão Médico"! Eu SEI que não é simples.
_ Eu não vou usar nem bisturi. Não vou ter que cortar nada. Vou simplesmente enfiar uma pinça no nariz dele, puxar a cartilagem que está fora do lugar para cima e recolocá-la
_ ...
_ Dona Ana?
_ T... tô aqui. Q...quando?
_ Eu estava pensando em fazer hoje, às cinco e meia. Ele internaria as três e meia e teria alta provavelmente amanhã. Precisa fazer jejum a partir de agora, por causa da anestesia.
_ Hoje?! Amanhã? Mas por que tão cedo? Não pode ser no fim de semana? Eu não estava preparada e...e eu estou no trabalho e... buááááááá!
_ Fica calma, dona Ana. O quanto antes melhor. É que depois de 24 horas, a fratura começa a calcificar e se deixarmos para o fim de semana, eu vou ter que quebrar o nariz dele novamente pra colocá-lo no lugar. A senhora prefere?
_ ...
_ Dona Ana?
_ ...
_ Dona Ana, a senhora está aí?
_ ...
* “importante” é a palavra preferida pelos médicos quando querem dizer séria, grave ou aguda.
** “procedimento” é o termo que os médicos usam quando querem dizer que vão deitar você ou alguém que você gosta em uma cama, deixar a criatura desacordada e mexer muito nela.
Segunda-feira, 7 de Abril de 2008
Percalços no cume, parte 3
Segunda feira, primeiro de abril, 22h50.
_ Moço, o resultado da tomografia já chegou?
_ Eu acho que não, senhora.
_ Que tal você dar uma olhada, só pra gente ter certeza?
_ Quando o resultado chegar, ele será encaminhado diretamente ao médico e ele chamará o paciente pelo nome, senhora. É só aguardar.
_ MAS A GENTE JÁ ESTÁ AGUARDANDO. DESDE AS OITO DA NOITE. ELE FEZ ESSA TOMOGRAFIA HÁ CINQÜENTA MINUTOS. CINQÜENTA! E O PACIENTE, SÓ PARA ESCLARECER, É UMA CRIANÇA DE SEIS ANOS RECÉM-COMPLETOS. QUE ESTÁ CANSADA, E ESGOTADA, E COM DOR E...
_ É aquele menino ali?
_ Ele mesmo.
_ Aquele que está cantando?
Algum tempo depois:
_ Senhor Montanha Téjo!
_ Vamos, filho. Somos nós. Finalmente.
No consultório:
_ A senhora é a mãe dele?
_ Sou. E essa aqui é a avó dele.
_ Sei; e como foi que isso aconteceu?
_ Ah, aconteceu acontecendo, ué! Ele estava correndo e caiu. Do chão mesmo. Nem estava em cima de nada.
_ Entendo... eu examinei as tomografias e... ele quebrou o nariz.
_ Quebrou? O nariz? Esse narizinho lindo?
_ Esse mesmo.
_ E agora? O que eu faço?
_ Nada.
_ Comassim, “nada”?
_ Não há o que fazer. Não foi uma fratura muito grave, não houve afundamento nem nada. A senhora deve observar, fazer compressas com gelo, se ele permitir, e lavar com Rinossoro.
_ Eu passei Hirudoid, para não ficar roxo.
_ Ok.
_ Mas e se doer?
_ Se doer, a senhora dá o analgésico que ele costuma usar.
_ E se continuar sangrando? Faz quase cinco horas que ele caiu e...
_ Vai parar de sangrar logo, senhora.
_ Mas e se não parar? E se ele não conseguir respirar?
_ A senhora deixa a cabeça dele meio alta essa noite.
_ Mas nem um band-aid do Bob Esponja?
_ Não é preciso, senhora.
_ Mas e se... e se...
_ Amanhã, só por segurança, a senhora marca uma consulta com um otorrinolaringologista para avaliação.
_ E até lá eu não faço nada?
_ Nada. Depois, quando desinchar, a senhora marca uma avaliação com um plástico para verificar a necessidade de uma cirurgia corretiva.
_ Cirurgia???
_ Mas não deve ser necessário. Fique tranqüila.
_ E por hoje eu não faço nada, não passo nada, não dou nada?
_ Nada.
_ Então tá. Vamos, filho.
_ Tchau, palmeirense.
_ Palmeirense é a vovozinha!
Sexta-feira, 4 de Abril de 2008
Percalços no cume, parte 2
Segunda feira, primeiro de abril, 22h00.
_ Agora, deita e fica como uma estátua, tá, filho?
_ Tá.
_ Não pode mexer nada, tá?
_ Hum-rum...
...
_ Úia, mamãe! Por que o moço tá colocando essa armadura irada em você?
_ Pra me proteger dos raios gama-laser-criptonita do portal dimensional.
_ Uaaaaaaaaaauuu! Ele vai colocar uma em mim também?
_ Não, porque é você quem vai entrar no portal, entendeu? Se ele colocar, você não passa pra outra dimensão.
_ Ahn... entendi.
_ Mas, ó: tem que ficar estátua, viu, filho? E de olhos fechados.
_ Por quê?
_ Porque se você abrir os olhos, o portal não consegue enxergar dentro do seu cérebro.
_ Exatamente. Como é que você sabe?
...
_ Mamãe...
_ Estátua, filho.
_ Mas o meu nariz tá coçando.
_ Mas não dá pra coçar agora.
_ Então coça pra mim?
_ Não posso, filho.
_ Por quê?
_ Porque se eu coçar, vai aparecer a minha mão dentro do seu cérebro, na outra dimensão.
_ Uaaaaaaaauuuuuuu! Radical.
...
_ Mamãe?...
_ Estátua, filho.
_ Eu já estou na outra dimensão?
_ Quase, por quê?
_ Porque eu não tô sentindo nada.
_ É assim mesmo, filho. Fica quieto.
...
_ Mamãe?
_ Estátua, Montanha, pelamor...
_ Muito chato esse negócio de portal dimensional, viu?
Quinta-feira, 3 de Abril de 2008
Percalços no cume, parte 1
Segunda-feira, primeiro de abril, 18h10.
Trim, trim, triiiiim!
_ Alô?
_ Alô, filha?
_ Oi, mãe.
_ Olha, tá tudo bem, viu? Fica calma.
Pausa para comentário:
Até hoje não entendi porque, em nome de Deus, sempre que alguma coisa não está bem, as pessoas dizem: “ó, tá tudo bem, viu? Fica calma.” Como se a gente se enganasse... Essa frase é uma senha para o coração disparar, a boca ficar seca e a gente começar a hiperventilar quase instantaneamente.
_ Mãe, o que aconteceu?
_ Então... o Montanha caiu.
_ Caiu? De onde?
_ Do chão mesmo.
_ Mas ele tá bem?
_ Er... tá. Quer dizer... tá.
_ Mãe, o que foi?
_ É que ele está chorando muito e querendo você. E o nariz dele tá sangrando.
Fui pra casa correndo o que,
_ Tem algum paciente sangrando?
_ Tem, sim, o Montanha aqui!
Furamos a fila do atendimento, mas não a da tomografia. Duas horas depois, finalmente um enfermeiro veio buscar uma criança cansada, inchada e levemente sanguinolenta. De cadeira de rodas.
_ Uhúúúú! Radical! Olha, mamãe, eu na cadeira de rodas!
_ Tô vendo, filho.
_ Dá até pra fazer umas manobras, olha só!
_ É melhor a senhora pedir pra ele descer. Se a cadeira cair, ele pode se machucar... mais.
_ Filho, escuta o enfermeiro.
_ Hein?
_ Desce já daí, menino, não é porque a gente tá no pronto-socorro que você vai querer fazer um tour pelas especialidades, né?
_ O que é tour? O que são especialidades?
Na sala da tomografia:
_ Caramba!!! Radical, sensacional, um portal dimensional, mamãe, olha só!
_ Tô vendo filho.
_ É aqui que eu vou fazer o exame?
_ É.
_ E o que é que eu vou fazer?
_ Você vai deitar aí, ficar feito uma estátua e aquele moço que você não está vendo ali, atrás daquele vidro, vai ligar o portal dimensional para olhar dentro da sua cabeça.
_ No meu cérebro?
_ É.
_ Uaaaaauuu! Radical! Ele vai ler meus pensamentos, mamãe?
_ Eu espero que não, filho. Sinceramente, eu espero que não.
Quarta-feira, 26 de Março de 2008
Crenças
Eu acredito em cozinha.
Eu acredito em pimenta moída na hora.
Eu acredito em molho com tomates frescos.
Eu acredito em cheiro de pão crescendo.
Eu acredito em cheiro de pão assando.
Eu acredito em copos bonitos todos os dias
e pratos, e talheres.
Eu acredito em torta feita em casa.
Eu acredito em guardanapo de tecido.
Eu acredito em mesa posta.
Mas eu sou realista e acredito, acima de tudo, que às onze e meia da noite de um dia que começou às seis, ninguém merece perder tempo na cozinha, nem para cozinhar um ovo que seja .
Assim, eu também acredito:
Em delivery.
Em pizza.
Em sopa Vono inidividual e instantânea para aqueles dias em que mal sobra energia para ferver 200 ml de água e aquilo, com tantas opções de cores e sabores, desce como um veludo pela garganta.
Só tem uma coisa em que eu não acredito: como é que o crouton da sopa Vono continua crocante mesmo depois de ser afogado em 200 ml de água fervendo ? Hein? Hein?
Eis o mistério da fé.
Segunda-feira, 24 de Março de 2008
Suicídio precoce

_ Mamãe, eu vou me matar.
_ Tá louco, moleque? Você é muito jovem pra isso. Além dos mais, eu já gastei um dinheirão com você e ainda nem acabei de pagar seu presente de aniversário!
_ É justamente por isso.
_ Pelo seu aniversário? Mas você fez seis anos! Seis!!! Não está meio cedo pra entrar em crise?
_ É que eu comentei sem querer na escola que o tema da minha festa ia ser Backyardigans.
_ Depois dizem que mulher que é fofoqueira... Ok. Você comentou “sem querer”. E aí?
_ E aí que um amigo falou que Backyardigans é tema de menina. E agora eu quero me matar!
_ Filho, você acredita na mamãe?
_ Acredito.
_ Então, ó: Backyardigans não é tema de menina, entendeu?
_ Entendi.
_ Tema de menina é Princesas, Barbie, Pequena Sereia, Pocahontas... entendeu?
_ Entendi.
_ E então?
_ Meu amigos vão achar que eu sou menina! Buááááá!
_ Não vão, não. Eles te vêem todo dia. Todo mundo sabe que você é menino.
_ Mas minha festa vai ser de menina. Buáááá!
_ E o que você quer fazer?
_ Eu quero mudar o tema da festa.
_ Eu não sei se dá, mas posso ligar e perguntar, tá?
_ Tá. Snif.
_ E que tema você quer?
_ Tem de exército? De guerra? De Tomb Raider?
_ Hmmmm... acho que não, mas eu vi uma mesa de Esportes Radicais com toalha de camuflagem, quer?
_ Essa não tem água. Eu quero uma que tenha água. Água caindo, sabe?
_ Sei. Filho, entenda uma coisa: trata-se de uma mesa de aniversário infantil e não de um carro abre-alas de escola de samba.
_ O que é carro abre-alas?
_ Deixa pra lá. Que tema então?
_ Hmmmm... Peter Pan?
_ Ok. Vou pedir.
_ Mas, mamãe?
_ Sim, filho.
_ Pede pra esconderem a Sininho e a Wendy atrás do bolo, tá?
_ Coitadas, filho!!! Por quê?
_ Dãããns! Porque elas são meninas, né?
Quinta-feira, 20 de Março de 2008
Seis
Aí, eu sento num canto e fico vendo você lutar com seus monstros e pôr em pé seus castelos com calabouços e tudo. Ou então, te olho empolgado com os enredos dos desenhos que você já viu mil vezes e me divirto, não com a TV, mas com as caras que você faz. Tem vezes também em que eu brigo com você, que insiste em não entender que a nossa casa não é um pântano (nem uma floresta, nem um deserto) e que os nossos móveis não são camas elásticas, nem areia movediça, nem obstáculos pelos quais você deva passar pulando. Tem dias que eu paro pra ouvir você contar aquelas histórias incríveis, que misturam jogos de computador, com giz de cera, com peças de Lego, com placas de trânsito, com os utensílios da minha cozinha. E não vamos esquecer de quando você me chama, suado, à noite, me conta um pesadelo horrível e eu te trago pra minha cama e te faço carinho até você se acalmar. De vez em quando, eu passo pelo seu quarto só pra te ver dormir. E você já está tão grande, meu filho. Mas aí, só pra me provocar, você vira de lado e eu vejo de novo o bebê que ficou com preguiça de sair da minha barriga seis anos atrás. E tudo isso é tão precioso, tão único, que eu fico com medo de explodir de felicidade por ter feito uma coisinha tão iluminada quanto você.
Um dia, seu pai disse que quando me vê te olhando, acha que eu posso estar criando um problema para o resto da sua vida. Porque “quando a primeira mulher da vida da gente nos olha com esse ar de absoluto encantamento, a gente cresce se achando o máximo e passa o resto da vida procurando outra mulher que nos olhe da mesma maneira.”
Pois é, filho. Quem manda você ser tão especial? Seria loucura minha não aproveitar esse restinho de tempo em que você ainda é só meu.
Mamãe
Quarta-feira, 19 de Março de 2008
O mico
_ Mamãe, você tem “mesmo” que me levar na escola?
_ Claro que tenho, filha. Por quê? Você não quer?
_ Será que dava pra você me deixar na esquina?
_ Comassim “na esquina”? E eu lá sou mãe de deixar filha de doze anos na esquina?
_ Quase treze, mamãe. Quase treze. É que você sempre me beija e...
_ Ué, qual é o problema de te beijar, filha?
_ É que todo mundo olha e...
_ E daí que olham, filha? Vão concluir o quê? Que você tem mãe e que ela gosta de você?
_ Mas é meio mico.
_ Comassssssim “meio mico”? É mico ter mãe ou é mico ganhar beijo?
_ Ah, mamãe, sei lá... é que as pessoas comentam...
_ Comentam o quê? “Ûia! Aquela mãe deu um beijo na filha! Que horror!”
_ Não, mamãe... você não entende...
_ Pelo jeito, não mesmo. Que tal você me explicar?
_ Ah, mamãe, eu não sei... é essa sua roupa...
_ Minha roupa??? Qual é o problema com a minha roupa?
_ É que tem dias que você vai pra ginástica e aí você...
_ Vou de roupa de ginástica, naturalmente. Algum problema com ela? Calça da mesma marca da sua, camiseta bacana, tênis da mesma marca do seu... eu não tô gorda, tô? Tem alguma banha saindo da roupa, por acaso?
_ Não, mamãe. É que fica esquisito.
_ Esquisito por quê? Mães não fazem mais ginástica?
_ Fazem, mamãe, mas é que... ah, deixa pra lá. Você não entende. Você vai me deixar na esquina ou não?
_ Não. Nem morta. E vou continuar dando beijo. Estalado. Na porta. E se reclamar, eu desço do carro e faço a dancinha do Barney enquanto você desce as escadas, hein? " Amo você, você me ama, somos uma família feliz..."
Domingo, 16 de Março de 2008
De boas intenções...
Sexta-feira, 14 de Março de 2008
A ditadura da juventude (para mulheres)
_ E então? Tô bem?
_ Hmmmm... tá. Você andou perdendo peso?
_ Só uns quilinhos.
_ Desculpa perguntar... mas com quanto você está?
_ Trinta e oito, mas quero chegar aos trinta e cinco.
_ Anos?
_ Não. Quilos.
_ Quilos?! Você não acha demais?
_ Por quê? Você acha que com trinta e dois ficava melhor? Eu ainda quero ver se perco essa banha na barriga.
_ Banha?!
_ É. Olha só. Mas eu pareço uma adolescente, não é? Tem muita menina de vinte anos que não tem o meu corpo.
_ Graças a Deus.
_ E você notou que eu coloquei silicone?
_ Não brinca!
_ Juro. Duzentos e cinqüenta ml em cada seio. Não ficou natural?
_ Naturalíssimo. Se você não contar, ninguém nota.
Quinta-feira, 13 de Março de 2008
Plec
A gente não devia perder nunca a capacidade de encantamento que as crianças têm. Hoje, durante o café-da-manhã, meu filho me pediu para ensiná-lo a estalar os dedos.
_ É assim, ó _ gesticulei. _ Você junta o dedão com o terceiro dedo e esfrega um no outro.
Ele repetiu meu gesto, tentou duas, três vezes. Na quarta, um “plec” bem baixinho. Ele me olhou, encantadíssimo.
_ É claro que funciona, filho. Agora, você só precisa praticar.
Fomos até a escola praticando. Chegando lá, ele entrou correndo na classe e anunciou:
_ Vocês precisam ver o que eu aprendi!
Seis ou oito amigos se aproximaram depressa.
_ Ó! “Plec, plec, plec.”
Seis ou oito pares de olhos se arregalaram, depois sorriram e depois, absolutamente espontâneos, eles bateram palmas. Palmas! Palmas sinceras e entusiasmadas para o amigo que aprendeu a estalar os dedos.
Em que momento será que a gente perde isso, hein?
Quarta-feira, 12 de Março de 2008
A ditadura da juventude (para homens)
_ E então, que tal a tintura?
_ Ah, tá ótima. Você ficou parecendo muito mais jovem.
_ Mas será que não ficou um pouco artificial?
_ Imagina! Tá naturalíssimo. Eu conheço milhares de pessoas que têm cabelo cor-de-abóbora queimada. É o último grito. E você tem a pele jovem, nem parece um maracujá-de-peruca. Ninguém vai notar.
_ E o combover?
_ Ah, o combover ficou uma obra-prima. Você tá parecendo o Rei-Leão.
_ Mas não tá dando pra ver o fundo?
_ Tipo aquário, você diz? Nããão! Tá fartíssimo. Peraí. Penteia só essa mechinha mais pra cá. Pronto.Sensacional
_ Escuta... e se ventar, hein?
_ Uééélllll, se ventar, só tem dois jeitos: ou você se coloca a favor do vento, ou põe uma fivela.
_ E eu posso fazer tudo, tudo?
_ Pode, com cautela. Até porque, você não vai querer que alguém desconfie que você é careca, né?
Quarta-feira, 5 de Março de 2008
Pomba-gira
Eu detesto pombos. Sempre detestei. Morro de nojo. Sou do tipo que compraria uma camiseta dizendo "Vá a Piazza San Marco, mas não me convide". Nem da emblemática pombinha branca, símbolo da paz, eu gosto, mas tenho meus motivos.
Minha guerra definitiva deu-se num dia causticante de verão. Na época, meu carro não tinha ar condicionado, mas eu já era tão paranóica quanto hoje. Em conseqüência disso, não abria os vidros nunca. Preferia cozinhar ao sabor do ventilador, que jogava ar quente para dentro do carro. Nesse dia em particular, era cerca de uma hora da tarde, fazia uns 40 graus e eu estava quase grudada no banco de tanto suar. O vento quente já estava baixando minha pressão e ameaçava começar a derreter os poucos neurônios remanescentes. Num gesto de desespero, fiz o impensável: abri o vidro do lado do motorista. Estava na rua Tabapuã que, para quem não conhece, é um lugar aprazível e arejado, repleto de edifícios comerciais, sem uma única árvore num raio de dez quadras, em qualquer direç








