quinta-feira, 31 de maio de 2007

Abstinência


Reunião do CCABC:

_ Oi, meu nome é Ana Téjo.
_ Ooooooiiii, Anaaaaaaaaaaa!
_ Eu queria dizer que estou há vinte e três dias e sete horas sem comer bomba de chocolate.
_ Otária! Trouxa! Azar o seu! Kkkkkkkkkkk!

Mal humor empacotado

Acho que já comentei que detesto supermercado. Não é assim, que eu não aprecie muito, que não chegue a me divertir fazendo compras. Não! Meu caso é pior. Eu detesto com todas as minhas forças. Detesto a ponto de ficar com o dia parcialmente estragado quando tenho essa missão a cumprir. E já tentei de tudo: mercados maiores e menores, durante a semana e nos fins de semana, de manhã, de tarde, de noite e até de madrugada. Nada. Recentemente, tentei ouvindo música – as minhas músicas, mas não foi o suficiente.

Em um desses dias inglórios de compras, estava pensando em algumas providências simples podem surtir grande efeito moral no trauma que uma ida ao supermercado causa em pessoas como eu. O empacotador, por exemplo. Essa figura que fica logo ali, depois do caixa, é capaz de reduzir em 40% o estresse na etapa semifinal das compras. Ele fica ali, quietinho, colocando aqueles oitenta ou cem itens em sacos, arrumando tudo no carrinho e depois, com alguma sorte e uma pequena remuneração, essa bondosa criatura acompanha você até o carro E coloca tudo no porta-malas. Nada mais simples nem mais eficaz.

Até porque, quando o empacotador não está lá, sobre pra quem? Pra você, consumidor, que já está com o saco na lua depois daqueles duzentos itens adquiridos ou para o caixa, que faz o serviço numa má vontade dos infernos porque, afinal, aquele não é o trabalho dele.

Para agravar a situação, é comum que nos hipermercados onde donas-de-casa de classe média costumam fazer suas compras na esperança de economizar uns trocados, empacotador seja mais raro que ararinha-azul. Por que será? Porque o empacotador não gera lucro direto para o supermercado, oras! Empacotador é um benefício agregado que, embora faça toda diferença na qualidade da compra, não ajuda o supermercado a ganhar dinheiro. Pelo menos, não diretamente.

Hoje, por exemplo, fui ao supermercado às sete e meia da manhã, na brecha entre deixar um filho e outro na escola. Tinha meia hora para comprar cerca de sessenta itens, muito sono, muito frio e principalmente, muita pressa. Dos cinqüenta caixas, não havia nem meia dúzia em funcionamento. Quando chegou a minha vez – sim, porque, naturalmente, havia fila – pedi à moça para me arrumar um empacotador, por caridade.

_ Eu não sei se tem, senhora, mas vou chamar a supervisora.

Chega a supervisora e diz:

_ O quê? Empacotador a essa hora? Tem, não.
_ Nenhum? _ perguntei, desanimada.
_ Nenhum, senhora. Os “forgado” só chega depois das nove.

Engraçado... “os forgado” chegam depois das nove porque provavelmente esse é o horário do ponto deles. Tenho certeza que se o supermercado quisesse contratar “uns forgado” para chegar às seis, haveria fila de candidatos.

Pior: às oito da manhã não tem empacotador no supermercado porque é muito cedo. Mas tem “agentes de prevenção de perdas” de vistosos coletes vermelhos e walkie-talkies em punho, positivos e operantes. Hoje, pela manhã, vi logo dois desses, conversando bem na frente dos caixas, enquanto a “forgada” que vos escreve empacotava tudo, amaldiçoando céus e terras. Humpf!

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Você já ficou grande?

Tenho um amigo muito querido que faz aniversário amanhã. Hoje, quando nos vimos, eu perguntei:

_ E aí, você já cresceu?
_ Comassim, Ana? Isso é pergunta que se faça? Eu estou é querendo diminuir. Tô num regime brabo há meses, como você tem acompanhado.
_ Eu sei, meu lindo. Estou perguntando no sentido mais filosófico do termo. Assim, ó: você já dorme na véspera do seu aniversário?

Ele me olhou meio divertido e riu.

_ Durmo, ué!
_ Você não fica assim, ansioso, excitado, doido para chegar o dia seguinte e ser seu aniversário?
_ Hmmm... não mais. Acho que eu já cresci.
_ Pois é. Eu também. Cresci faz uns cinco anos...

Fiquei ali, pensando nos muitos anos em que não dormi na véspera do meu aniversário. E não era coisa de criança, não. Com mais de trinta anos, eu ainda ficava ansiosa, imaginando como seria o dia seguinte, se as pessoas me olhariam diferente, se lembrariam, se haveria alguma surpresa...

Aí um belo dia, eu dormi. Dormi, levantei no meio da noite para amamentar meu filho, acordei com o despertador para levar minha filha na escola, me arrumei e fui trabalhar normalmente, como se aquele fosse um dia igual a todos os outros. Nesse ano, acho que virei adulta de vez. Meleca, viu?

terça-feira, 29 de maio de 2007

Assunto de altíssima relevância para debater em dias cinzentos

Na falta de assunto, a gente fica calado, reparando. É quando costumam surgir os melhores temas. O pão francês, por exemplo, é tema que dá assunto para horas de conversa fiada.

Pão francês é como time de futebol. Todo mundo gosta, mas cada um tem seus cacoetes e não adianta discutir horas, citar cozinheiros famosos, fontes históricas ou teorias filosóficas que a pessoa não arreda o pé do seu estilo de consumo.

Tem gente que corta o pão francês ao meio, no sentido da largura. Conheço uma pessoa que corta no sentido do comprimento e diz que assim, o pão fica mais estreito, o recheio encaixa melhor e ela fica com a sensação psicológica de que está comendo um pão inteiro quando, na verdade, está comendo só a metade. Sabida, a danada.

Tem gente que simplesmente não corta e vai tirando pedaços com a mão, beliscando o pãozinho até acabar com ele. Há ainda os que comem só a casca e jogam o miolo fora (porque miolo engorda), como se casca e miolo fossem entidades diferentes.

Eu, que sou normal, gosto de cortar o meu em rodelas; umas seis ou oito pelo menos, para "maximizar" o recheio. Aí, em vez de comer UM sanduíche só, como um com presunto, um com queijo, um com salame, um com geléia, um com mel... Além da diversidade, ainda fico com a ilusão de que estou economizando nas calorias do pão. E nem venham me dizer que essa forma de consumo é tão boa quanto qualquer outra. As chances de eu mudar de opinião são nulas.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Não basta ser pai, tem que ter noção de realidade

Lá iam eles, atrasados como de hábito para a escolinha, mais por conveniência da mãe do que por falhas na programação.

_ Vamos, filho!
_ Tô indo.
_ Vem logo que o elevador já chegou.
_ Já vou! Você acha que eu levo o bimotor branco ou o Power Ranger vermelho?
_ Acho que tanto faz. Vamos?
_ Tô indo! Pronto. Cheguei.

Ele opta pelo walkie-talkie de camuflagem e aparece correndo, sorridente, encasacado como todo filho que tem mãe (e avó, e irmã, e babá) e entra saltitando no elevador. Antes da porta de correr se fechar, ele avança e abre de novo.

_ O que foi agora, filho? A gente já está atrasado!
_ Eu sei, mamãe. Segura a porta só um pouquinho, por favor?
_ Tá, mas vai logo.

Ele sai disparado e abre a porta de casa. Pára no sofá, diante da televisão onde estão quatro ou cinco bichinhos que dividiram a cama de inverno e, com cuidado, dá um beijo em cada um. Então, senta um ao lado do outro e volta correndo para o elevador.

_ Pronto.
_ Você estava se despedindo dos seus bichinhos?
_ Estava.
_ E não vai falar pra eles que você já volta?
_ Não, né, mamãe?! Eles são de brinquedo; não iam escutar!

...

Você cospe ou engole?

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Chão

Aí, um dia vem alguém e tira o seu.
Como é que fica?

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Saco meio cheio ou meio vazio?

Tem gente que é assim: implicante. Eu, graças a Deus, sou uma pessoa flexível e bem adaptada que não implica com quase nada, quase nunca. A não ser com uma coisa: gente que usa meio saquinho de adoçante. No trabalho, há vários espécimes desse tipo.

A criatura tem a pachorra de ir até a máquina de café, escolher entre as várias opções disponíveis e na hora de adoçar, coloca MEIO saquinho de adoçante.

Outro dia, peguei um saquinho, uma lupa potente e li aquelas letrinhas em corpo pulga-condensed-light: “cada envelope equivale ao poder adoçante de duas colheres de chá de açúcar.” Aí, o praticante do meio saco é capaz de argumentar: “mas eu só quero UMA colher de chá de açúcar no meu cafezinho!” Então pega o dobro de café, pô!

Porque outra coisa que acontece com o raio do meio saquinho é que NINGUÉM NUNCA quer a segunda metade. Nem os adeptos da primeira! E a coisa vai se sofisticando. Outro dia, alguém com muita iniciativa e um bruta senso de organização arrumou um copinho de café só para colocar os meios saquinhos que fossem se acumulando ao longo do dia. Lá pelas três da tarde, fui à máquina e dei com nada menos que CINCO meios saquinhos de adoçante que jaziam ali, meticulosamente guardados. Fiquei por ali, disfarçando, tomei uns três ou quatro cafés, um chocolate, um pingado, um capuccino e, de repente, ei-lo: um legítimo adepto do cacoete. Fiquei esperando até ele dobrar a pontinha do pacote para configurar o flagrante e ataquei:

_ Ei, por que você usa só meio pacotinho de adoçante?
_ Porque senão fica muito doce, Ana.
_ E por que você não põe mais café?
_ Porque aí vou tomar café demais.
_ Sei... desculpa a insistência, mas por que você não usa um dos meios saquinhos que já estão ali, ó? Tem uns cinco.
_ Ah, porque naqueles meios saquinhos nunca tem a quantidade certa.
_ Comassim? Não é meio?
_ É que quando a gente usa a metade, nunca usa a metade MESMO, entende? Vai sempre um pouco menos, um pouco mais e quando a gente pega o meio saquinho de outra pessoa, corre o risco de ficar com o café amargo ou muito doce.
_ E se vocês escrevessem o nome em seus meios saquinhos e cada um pegasse sua própria metade no segundo café do dia?
_ Ah, ia dar muito trabalho, né? Além disso, mesmo o próprio usuário não usa exatamente meio pacote, de forma que o que sobre nunca é a mesma quantidade.
_ E por que então vocês não jogam essa droga de meio saquinho fora de uma vez?
_ Porque aí ia ser desperdício, né, Ana?

Contrariando meus princípios, resolvi dar cabo daquele monte de meios saquinhos. Até porque, onde já se viu? Me servi de um café longo, peguei um saquinho e tchuf. Caíram cerca de seis grãos de adoçante. Droga! Não vai dar... peguei outro meio saquinho e tchuf, mais oito grãos. Peguei um terceiro. Pronto. Caiu um montão e meu café – justo no meu, que não sou praticante e nem apoio o uso do meio saquinho – ficou doce. E eu detesto café doce! Aliás, café doce demais é outra coisa com a qual eu implico. Humpf!

A função educacional dos tatus-bola no desenvovlimento saudável de uma criança essencialmente urbana

Quando eu tinha por volta de quatro anos, passei cerca de seis meses na casa da minha avó. Era uma casa imensa, ainda mais para meus padrões de idade. No terreno retangular, que ia de um lado a outro do quarteirão, com a lateral mais estreita virada para a rua, foi construída uma casa em L. Os quartos, que tinham grandes portas de madeira em vez de janelas, se abriam para um imenso jardim gramado, emoldurado por canteiros de hortênsias e azaléias que meu avô gigante cuidava com o maior carinho. Sei que se voltasse lá hoje em dia, é provável que tudo tivesse encolhido e que nem o terreno, nem o jardim fossem daquele tamanho. É por isso que é melhor não voltar.

Pois foi justamente nessa casa, passei um dos períodos mais felizes da minha vida. O espaço, a grama, as plantas, os cachorros, duas avós, pai, mãe, tia, irmã bebê... o que mais uma criança pode querer?

Durante as tardes, depois de voltar da escola, eu me dedicava, além de fugir dos cachorros, a atividades seriíssimas, como desenhar com giz nas pedras do jardim, colher flores com expressa autorização da minha avó ou simplesmente explorar os canteiros.

Foi nessa época que comi algumas borboletas.

Nessa casa, vivi aventuras como quando houve uma reforma nas garagens e brotou, como que por encanto, um monte de areia no jardim. Areia mesmo, do tipo que se usa para misturar com cimento. Uma beleza para construir castelos e fazer túneis.

Havia também as emocionantes e sempre disputadíssimas corridas de tatu-bola. Isso só era possível porque havia centenas, milhares de tatus-bola em todos os cantos do jardim. Era só procurar um pouco nos cantinhos e ir pegando.

Quando juntava uns seis ou oito, eu perfilava os competidores em uma área aberta e plana – geralmente em cima de uma pedra, com uma fileira de azaléias em volta, pra dar um ar mais “glamouroso” – analisava com cuidado cada participante, em busca de suas reais chances e, com toda a seriedade, transformava os tatus em bola, o mais rápido que podia. Aí, era só torcer loucamente para que o meu escolhido fosse o primeiro a se desenrolar. Ficava doida, cheia de adrenalina, como adulto em hipódromo, torcendo: “vai, quatro! Vai quatro! Anda logo!!!”. Os três primeiros colocados eram separados num potinho com furos para disputar a grande final, que costumava ocorrer do mesmo dia, com os ganhadores dos outros “páreos”. Os demais eram soltos.

Outro dia, lembrei disso e, junto com a lembrança, veio a constatação: acho que meus filhos nunca viram um tatu-bola. O que terá sido deles? Provavelmente mudaram para terras mais férteis ou climas mais amenos. Será que sobrou alguma família na casa onde minha avó morou? Confesso que fiquei melancólica. Não pelos tatus-bola, exatamente, mas pela época que eles simbolizaram. Uma época cheia de adultos competentes que se encarregavam de tudo. Uma época em que minha única preocupação era colher azaléias, hortênsias e selecionar bem os competidores. Se alguém tiver notícia de tatus-bola, favor entrar em contato com Ana Tejo, pelo Pensatriz. Vai me fazer muito bem.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Temos o mundo inteiro no nosso quintaaaal...

Ambientação: casal sem filhos. Ele foi na festinha infantil e ela ficou em casa. Lá pelas tantas, ela telefona para saber das coisas.

Mulher, pelo telefone: _ E aí? Você está na festinha? E a aniversariante, tá bonitinha?
Marido: _ Linda. Tá vestida de vaquinha rosa, com umas bolas mais claras pelo corpo.
Mulher: _ O quê? A mãe vestiu a coitada de vaca? Não é possível! Olha direito.
Marido: _ Tô olhando. É uma vaquinha rosa, sem dúvida. Malhada.
Mulher: _ Não pode ser. Deixa eu falar com a mãe d
a criança.
...
Mãe: _ Alô?

Mulher: _ Olá, querida. Parabéns, viu? Soube que a bonequinha está linda. Qual é o tema da festa?
Mãe: _ Backyardigans.

Mulher: _ Ah, é? As crianças adoram, né? E ela está vestida de quê?
Mãe: _ De Uniqua*.

Agora, só me fala: alguém, mesmo aos dois anos de idade, merece ser vestido de um personagem que é um misto de vaca e joaninha? Mais uma prova de que crescer é sobreviver aos pais.

*Uniqua: personagem do desenho infantil Backyardigans, amado por dez entre dez crianças em idade pré escolar. Segundo os criadores, Uniqua é uma criatura única em sua espécie (por isso, o nome). Há teorias defendendo trata-se de uma joaninha, por causa das bolas. Outros acham que pode ser uma formiga por causa das antenas. Vaca, certamente, não é. Uma leitoa mutante, talvez...

terça-feira, 22 de maio de 2007

Isso lá é nome?

Era o nome da minha primeira escola, no começo da década de 1970, láááá no século passado. Era uma escola pequena, que ia até o pré-primário e não devia ter nem cem alunos.

De bom, tinha uma pitangueira imensa no pátio (ou assim me parecia, aos três ou quatro anos de idade), onde os “grandes” subiam para apanhar frutinhas e os pequenos ficavam embaixo, pegando o que caía.

Também tinha umas janelinhas sem vidro, por onde os pequenos como eu, conseguiam passar para fugir dos grandes como a Valéria – incrível como esse tipo de informação absolutamente inútil fica armazenado na memória –, uma pirulona sádica de uns seis anos, cem quilos e um metro e oitenta de altura, cujo único objetivo na vida era perseguir outras crianças pelo pátio.

De excelente, tinha a sala do mimeógrafo, cheirando permanentemente a álcool e a tinta, de onde saíam maravilhosas páginas hiper saturadas de roxo com as lições. Lembro de algumas vezes em que as páginas, recém saídas do mimeógrafo, vinham ainda úmidas para a classe. As primeiras do lote vinham tão saturadas, que mal dava pra ler o que havia escrito nelas. Ainda bem que ninguém sabia ler mesmo, de forma que não fazia a menor diferença. Eu adorava o cheiro daquilo. Acho até, que na improbabilidade de encontrar uma página impressa em mimeógrafo hoje em dia, seu perfume me levaria diretamente para aqueles dias.

Mas havia um problema naquela escola (além a Valéria, o Godzila do parágrafo anterior): o nome. Onde já se viu, em nome de Deus, batizar uma pré escola como “Patinho Feio”? Patinho FEIO??? Uma das histórias mais depressivas da literatura infantil, seguida de perto por João e Maria. Que tipo de auto-estima se espera construir numa criança que estuda num estabelecimento chamado “Patinho Feio”?

_ Onde você estuda, menininha?
_ No Patinho Feio.
_ É. To vendo.

Ou:
_ Você já está na escolinha?
_ Estou, sim. No Patinho Feio!
_ E tem algum patinho bonito lá ou só os feios mesmo?

Ou ainda:
_ Você estuda no Patinho Feio?
_ Não. Estudo na filial, “A Madrasta Malvada”.

Não há infância que agüente. Para piorar, o uniforme, estilo Austin Powers, era formado por uma jardineira de pregas marrom (ainda bem que crianças de três ou quatro anos não têm quadris avantajados) e uma blusa xadrez de amarelo e branco. Para compor o visual, as indefensáveis botas ortopédicas que dez entre dez crianças da década de setenta usavam. E um chapéu amarelo-ovo, que deixava todo mundo com cara de pato. Além de sádicos, os diretores eram irônicos. Conta minha mãe, que todas as crianças resistiam bravamente ao uso do chapéu. Todas menos uma: eu. E minha mãe, da janela do prédio, conseguia me encontrar no meio de cem crianças no pátio porque eu era a única pata de chapéu.

Ainda bem que o senso de ridículo veio com a idade.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Democracia

Aprendi na escola que a palavra democracia vem do grego. Demos significa povo e kratia, vem de krátos e significa governo, poder, autoridade.

Ensinam em História que o primeiro modelo democrático foi exercido na Grécia, mais precisamente em Atenas, onde ao cidadão era dado o direito de opinar sobre os destinos do estado grego. Só que mesmo naquela época, já havia representantes do povo e ninguém precisa ser grego e muito menos brilhante, para deduzir que representantes escolhidos não necessariamente espelhariam a vontade de quem os escolhesse. Era assim naquela época e continua assim hoje.

Todo esse preâmbulo político-histórico para sustentar um questionamento fútil: blog legal é blog democrático? E o que é um blog democrático afinal? É aí que a coisa pega porque ao autor do blog é dado o direito de escrever o que lhe aprouver, sobre o assunto que lhe der na telha, sem imposição de pauta, freqüência, periodicidade e se mqualquer controle de qualidade. O autor do blog pode discorrer sobre temas reais ou fictícios; pode mentir, inventar personagens, distorcer fatos e até ocultar o próprio nome. Pode ainda permitir ou não comentários e pode, finalmente, autorizar a publicação dos comentários apenas depois de passarem pelo seu crivo. Ou seja, o autor do blog pode quase tudo.

Ao leitor, cabe o direito de manifestar-se fazendo uso do próprio nome ou de pseudônimo ou de manter-se em silêncio; cabe, ainda, o direito inalienável de não voltar nunca mais ao blog (e ainda de falar mal dele, se quiser), caso o conteúdo o ofenda ou desagrade. Em suma, ninguém é obrigado a concordar com nada e muito menos a freqüentar lugares que não lhe façam bem.

Mais dois longos parágrafos apenas para dizer que se você não gosta do que eu escrevo, sinta-se à vontade para procurar lugares mais agradáveis ou apropriados. Eu continuarei escrevendo e tenho certeza que muitas vezes, mesmo involuntariamente, é possível que magoe uma ou outra pessoa pelos mais variados motivos. Acontece, e peço desculpas antecipadamente. A intenção aqui não é, absolutamente, tecer comentários pejorativos ou preconceituosos de qualquer natureza. Implicâncias do autor são tratadas pelo próprio autor com a (falta de) seriedade que qualquer implicância merece. E opiniões são expressas pelo que são: pontos de vista, apenas, passíveis de discordâncias que serão sempre respeitadas. O autor não acredita em verdades absolutas, mas acredita que toda unanimidade é burra (inclusive esta).

Em suma, é assim, ó: quer comentar, sinta-se à vontade. Quer apenas ler, seja bem vindo. Quer discordar, perfeitamente (elogiar, idem), mas tenha a decência de identificar-se, ainda que seja com seu pseudônimo, porque quem ofende, xinga, critica e não se identifica é covarde. E com covarde, eu não interajo.

A partir de hoje, comentários anônimos – elogiosos ou depreciativos – serão sumariamente deletados. Porque o blog é meu, quem manda nele sou eu e ponto final. Quer democracia? Vá procurar uma e não me apoquente!

Consciência ambiental

http://www.flickr.com/photos/95907142@N00/487219354/

As crianças estão a cada dia mais precoces. Acho importante que se informem, que aprendam, que se conscientizem, que tenham contato com as coisas, mas acho que há limites. Ou, pelo menos, que deveria haver.

Conversa entre mãe e filho de cinco anos de idade:

_ Mamãe, você não deveria me trazer de carro para a escola.
_ Ah, não?
_ Não, porque o carro produz gases poluentes que contribuem para o aquecimento global.
_ Ah, filho, me economiza, vai!
_ É verdade, mamãe.
_ Meu filho, os carros de hoje são menos poluentes.
_ Mas a gente devia vir de bicicleta.
_ Filho, entenda uma coisa: se a gente morasse em Pindamonhangaba; se todas as distâncias não ultrapassassem um quilômetro, se não houvesse Marginais e marginais; se a gente tivesse todo o tempo do mundo e se a sua mãe já não tivesse – às oito da manhã – acordado, tomado café, levado a sua irmã à escola, ido ao supermercado, voltado, pego você e estado a caminho da sua escola para, em seguida, ir para o trabalho, nós iríamos de bicicleta. Só que aqui em São Paulo, isso é virtualmente impossível, entendeu?
_ Entendi, mas o aquecimento...
_ PÁRA com esse negócio de aquecimento, tá? Não é o MEU carro que vai aquecer o globo.
_ Tá vendo? Esse é o problema.
_ Que problema, criatura?
_ Todas as mães falam que não é o carro DELAS que vai esquentar a Terra e aí, elas continuam vindo de carro pra escola e a Terra continua esquentando.
_ Ah, filho, me poupa, me pula, me deixa fora dessa, vai? Eu já estou perdendo a paciência e já falei pra você que se a gente vier pra escola de bicicleta, não dá tempo de chegar, ENTENDEU?
_ Entendi.
_ Ótimo. A gente pode mudar de assunto?
_ Pode.
_ E do que você quer falar?
_ De reciclagem

sexta-feira, 18 de maio de 2007

A origem das coisas

Criança de cidade sofre. E nos idos da década de 70, quando não havia os programas educativos dos canais de TV a cabo ou as “Fazendinhas modelo” para os pais e mostrarem aos filhos coisas exóticas como vacas ou porcos, as crianças de cidade viviam assim, com o que lhe era apresentado.

Eu, por exemplo, nascida e criada em cidade e sem parente próximo vivendo em áreas rurais, era praticamente um ET quando se tratava natureza e suas conseqüências. Basta dizer que a única árvore frutífera com a qual tive contato até lá pelos seis anos de idade foi uma pitangueira que resistia bravamente no pátio da pré-escola que eu freqüentava, apesar dos ataques constantes dos demais anjinhos.

Eu achava, por exemplo, que macarrão era planta. Imaginava uma plantação de macarrão como se fosse uma plantação de trigo, dourada como os quadros de Van Gogh, com aqueles fios imensos de espaguete voando ao sabor do vento, sob céus tempestuosos. Dependendo do tip ode macarrão, a plantação era diferente. A de penne, por exemplo, era mais rústica, como um bambuzal (cuja referência eu também não tinha, na época) e os pedaços de massa eram costados depois de colhidos, na diagonal, pra ficar bonitinho. Fusillis e Farfalles davam em árvore, nas pontas dos galhos. Como eram basicamente esses os tipos de massa que eu conhecia, não tive necessidade de imaginar outros tipos de plantação. Massas recheadas, frescas, como ravióli e caneloni pertenciam a outra forma de vida que eu nem considerava “planta” porque às vezes, vovó fazia gnocchi em casa e eu via que havia ali uma certa alquimia de ingredientes.

Outra coisa eram os ovos. Eu também achava que ovo era planta e que dava em árvore. Vocês devem estar imaginando, “Dãns! Que menina burra! Nunca ouviu falar em galinha?” Ouvi, sim. Ouvi e sabia com clareza que galinhas punham ovos e que, dos ovos, nasciam pintinhos. PIN-TI-NHOS e não gemas e claras de comer. Para mim, o ovo que a galinha punha era uma coisa e o ovo que a gente comia era outra, totalmente diferente. O ovo que virava pintinho vinha do bicho. O que a gente comia, vinha da árvore, ficou claro? A árvore que dava o ovo era frondosa e os moços que colhiam precisavam ter muito cuidado para colher sem quebrar. Para isso, tinham escadas altas e, à medida que iam colhendo, colocavam os ovos naquelas caixinhas de papelão que ficam até hoje nos supermercados. Faz todo sentido, não? Coisas de criança da cidade...

Profissões com pê

_ Mamãe?
_ Sim, meu filho.
_ Sabe o que eu vou ser quando crescer?
_ Não, mas estou pressentindo que você vai me dizer.
_ Policial!
_ Ah, não, filho. Policial é muito perigoso. Escolhe outra coisa.
_ Mas, mamãe... eu quero algum trabalho que comece com a letra do meu nome.
_ Mas tem dezenas profissões que começam com a letra do seu nome e não são perigosas como “policial”.
_ Tipo quais?
_ Hmmmm... pintor? Pedreiro? Pescador?
_ Não. Muito chato.
_ Que tal promotor? _ sugere a irmã, entrando na conversa.
_ Pelamordedeus, filha! Ficou louca? Ser promotor, hoje em dia, é mais perigoso do que ser policial. Vamos pensar em outra coisa para o seu irmão ser _ Volto-me para ele. _ Ei, filho, que tal pesquisador, professor... passista de escola de samba?
_ Hmmmm... não.
_ Já sei! Achei a boa!
_ Qual?
_ Pagodeiro! Aí, você fica rico e compra uma casa pra mamãe envelhecer no sul da França, tomando vinho nacional e fazendo sachês de lavanda, que tal?
_ Eca!
_ Tá bom. Vamos pensar em outra.
_ Profeta, padre, pastor... pregador?! Também dá um bom dinheiro...
_ Ah, mãe! Eu nem sei o que é isso.
_ Mamãe, mamãe! Eu já sei! _ sugere novamente a irmã, animada.
_ O quê, filha?
_ Político!
_ Não, filha. Isso não é profissão. Publicitário, eu não recomendo por razões óbvias.
_ E peixeiro? Poeta? Psicólogo? Pedagogo?
_ Ah, vocês não têm a menor criatividade, viu?
_ Pôxa, filho. Que mal agradecido... A gente está aqui, planejando seu futuro, se matando pra arrumar uma profissão que combine com a letra do seu nome e você ainda reclama... Moleque enjoado!
_ Eu já sei o que eu vou ser!
_ Ah, já? E o que é, majestade?
_ Vou ser príncipe e pronto!

Negócio de ocasião:
Aluga-se menino com rei na barriga para temporada.
Interessados, favor entrar em contato com Ana Téjo.
Remunera-se regiamente.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Perigo iminente

Pelo rádio, na volta do almoço:

_ E você sabe, né? Que ouvindo a rádio dos melhores ouvintes, você corre o risco de ganhar o DVD da Mart’nalia em Berlim e...

Mudei de estação bem depressa.
Está certo que viver é correr riscos, mas a gente tem que ter algum instinto de auto preservação.

Pra ficar fortinho, pra ficar fortinho e crescer

Diferentemente de outros lugares onde trabalhei em que a cultura da fome imperava, aqui, todos têm um saudável hábito que a minha endocrinologista me implora para adotar há anos: um lanchinho no meio da tarde.

Começa lá pelas quatro e a gente vai acompanhando.

De repente, alguém levanta, vai até a copa e volta com um ligeiro sorriso no rosto e alguma coisa na mão: tem o pessoal da maçã; a galera da barrinha de cereais; o time do Polenguinho com Club Social; as magérrimas do Corpus de damasco; os biscoiteiros de carteirinha e os do Danone com Sucrilhos.

O engraçado é que tudo isso convive pacificamente em uma mesma geladeira, tipo frigobar e eu nunca rolou sangue porque alguém roubou o Danone do amiguinho por engano.

Resolvi entrar na festa e também comprei meus lanchinhos. Da primeira vez, comprei um pacote grande de Polenguinho Light (que, por sinal, ainda está na gaveta porque era muito Polenguinho e eu enjoei antes de comer todos). Pulei o Club Social porque acho muito gorduroso. Passei pela maçã, mas achei sem graça, abdiquei do biscoito recheado porque tenho amor à minha cintura e agora estou na onda do Danone com Sucrilhos. É verdade que o fabricante não é a Danone, mas Danone é sinônimo de marca, né? Todo mundo sabe do que eu estou falando, certo? Esse produto, lúdico que só, ainda não existe em versão light – algo como iogurte natural desnatado com All Bran ou Müsli – mas eu nem sei se vai haver, porque a versão “adulta” corromperia um pouco o caráter divertido da coisa. Legal é abrir o potinho de Danone (que tem açúcar, sim, fazer o quê?), abrir o potinho de Sucrilhos ou de ChocoKrispis (que têm pouca fibra, dane-se!) e ir misturando. Sem pensar “que o seu intestino vai funcionar como um relógio” ou coisas do gênero que esse povo da propaganda vive tentando enfiar na cabeça da gente.

Um dia, fiquei observando os coleguinhas. Tem uma que molha a colher no Danone, “empana” no potinho de Sucrilhos e come; tem o que come tudo bem depressa, com uma colher de sopa (esse, não entendeu nada); tem o meu vizinho, que põe o pote de Sucrilhos inteiro dentro do pote de Danone e mistura tudo de uma vez (a colher que ele usa é de sobremesa) e esquece de jogar no lixo depois que come, para desespero da moça da limpeza e tem gente como eu, que pega a menor colher possível e vai misturando os Sucrilhos aos pouquinhos, para que eles não fiquem moles antes da gente acabar. Isso, na minha opinião prolonga o tempo do lanchinho e o prazer proporcionado.

Dia desses, vou propor o “blind lanchinho”. Cada um traz o seu de casa e, quando der fome, põe uma venda do Chapolim Colorado nos olhos, vai à geladeira e pega o que lhe cair nas mãos. E tem que comer sem fazer cara feia. Numa segunda etapa, podemos tentar adivinhar quem era o dono original do lanchinho consumido. O trabalho? Ah, a gente trabalha, sim. E como! Antes e depois do lanchinho, mas nunca durante.

É por essas e por outras que eu gosto daqui, da escolinha!

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Dezesseis de maio

Minha filha,

Não é sempre que acontece, mas às vezes, a gente ganha um presente tão especial que fica assim, aparvalhado, com cara de bobo, sem saber direito o que fazer com ele. E fica ali, meio sem jeito, olhando para o pacote e se perguntando se merece, se vai saber usar, se não vai estragar.

Quando você veio para mim foi assim que me senti. Como toda mãe de primeira viagem, tinha medo de quebrar você, de fazer algo que te magoasse, que te ferisse. Com o tempo, fui ganhando confiança e a gente foi crescendo. Não tem sido fácil, né? Nem pra mim, nem pra você. Às vezes, eu sei que eu te machuco com meu jeito de furacão, mas juro que não faço por mal. Toda vez que a mamãe range os dentes, estufa o peito e esbraveja, é pra defender a gente, para nos fortalecer, para buscar, nem que seja à força, algo que eu acredito que precisamos.

E um dia, quando você for maior, torço para que olhe para trás, lembre de todas as vezes em que a mamãe brigou e explodiu e entenda que o que me movia era (quase) sempre um bom motivo.

Quero que você seja forte além de doce; que seja firme além de meiga; que seja determinada além de cúmplice. E, acima de tudo, quero que seja feliz. Loucamente feliz.

Porque eu sei que embora esteja longe de ser a melhor mãe, você é, de longe, a melhor filha. Prometo tentar não te estragar demais, tá?

Parabéns, meu amor. E feliz aniversário.

Mamãe

terça-feira, 15 de maio de 2007

O público vai à privada

Aí, a moça esperta sai pra passear pelo bairro com seu buldogue mal encarado. Como sabe que há uma lei que a obriga a recolher toda a sujeira que seu totó fizer na calçada, ela não tem dúvidas:

_ Vem, Nabucodonosor. Faz aqui, na rua.

E o Nabuco, que não é bobo nem surdo, desce a calçada, adota aquela posição típica e faz o que tem que fazer. E lá vai a moça esperta, feliz da vida, de volta à calçada e livre da obrigação. Afinal, rua não é de ninguém.

Coisas que só acontecem na mesa ao lado

Casal de meia idade em show moderninho de tango eletrônico. Bem, talvez um pouco mais que meia idade porque eu não conheço ninguém que tenha vivido 140 anos. Ele, andando devagarinho, provavelmente se recuperando de alguma cirurgia no olho – uma catarata ou um glaucoma, talvez –, caminhava com certa dificuldade. Ela, cuidadosa, o conduzia da melhor forma possível por entre o mar de cadeiras.

Sentaram-se, cada qual com seu guaraná, e o show começou.

Ela: _ E então, meu amorzinho, está gostando?
Ele: _ Ah, muito bom, muito bom.
_ E você está conseguindo ver? Está enxergando direitinho?
_ Ah, estou, sim. Muito bem.
_ E do que está gostando mais?
_ Daquela cantora gordinha de vermelho, bem no centro do palco.
_ Não é uma cantora, meu amor.
_ Não?!
_ Não. É um contrabaixo.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Seguidores de tendências, estremecei!

Atenção locomotivas fashion: o Pensatriz traz, em primeira mão, o último grito em moda masculina para as temperaturas amenas do nosso inverno 2007

Vale votar no look preferido e sugerir outras possibilidades de combinação. As melhores opiniões concorrem ao kit Garoto Pensatriz 2007, formado por duas gravatas pink e uma echarpe lilás, a escolher.


Peço desculpas pela má qualidade da foto, mas é que a emoção foi tanta, que não deu nem pra regular o flash. Os interessados que não ganharem o kit, podem entrar em contato em off, que eu passo o endereço com a máxima discrição. E se encontrar na rua, prometo não morrer de rir.

Rotatória, modo de usar

Acho rotatória uma coisa muito civilizada. Civilizada demais, até.

Nada mais intuitivo, sensato e natural que, em um cruzamento de não muito fluxo de duas ruas de mão dupla, criar uma rotatória no meio.

Diz o mini-maternal do Detran que, quando em uma rotatória, todos os que se aproximarem devem reduzir a velocidade e terá preferência quem já estiver na rotatória. Simples assim. Só que na prática, infelizmente, não é o que acontece (pelo menos, não aqui, nessa selva que a gente chama de lar).

Aqui mesmo, no bairro onde trabalho, tenho o privilégio de passar por duas rotatórias tanto na ida, quanto na volta para casa. Como costumo ir para casa para almoçar, estamos falando em oito rotatórias/dia.

Pois bem. Só que infelizmente, pelo que tenho visto, parece que tem preferência quem tem o carro maior, quem é mais feio, mais macho ou tem menos a perder. Hoje mesmo, quase pus a perder a lateral do meu bólido prateado porque resolvi dar uma lição em um motorista tosco e extremamente rude.

Mas ele não perde por esperar. Descobri um site inglês que vende tanques no verejo. Gostei muito do BMP1 APC e nem precisa ser do ano. Aquilo, com uma pintura metalizada e um adesivo das da Betty Boop ia ficar um estouro nas minhas mãos!

Vou pagar parcelado. Aguardem-me.

domingo, 13 de maio de 2007

Lembranças que marcam. Da série “Pequeno Édipo”*

_ Mamãe, posso fazer uma tatuagem?
_ Mas filho, você só tem quatro anos!

_ Mas eu queria taaanto...
_ Sei. Você sabia que fazer tatuagem dói?
_ Mas eu sou forte, ó!
_ Estou vendo. Onde você queria fazer a tatuagem?
_ Aqui, ó!

(Ele levanta a roupa e mostra a barriga).

_ Na barriguinha?
_ É!
_ E o que você quer tatuar na barriga, meu filho?
_ As letras de “mamãe”!

Garoto de bom gosto. Alguém conhece um tatuador pediátrico?


* publicado originalmente em 10/05/06, no falecido Respira pela Barriga.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Protesto materno

Venho, por meio desta, formalizar um protesto em meu nome e em nome de todas as outras mães que têm filhos em pré-escolas e que ficarão sem festinha de Dia das Mães neste fim de semana porque o Papa – sim, ele de novo – por causa da missa de canonização do Frei Galvão, criou uma confusão danada na cidade e, na dúvida sobre se haveria feriado hoje ou não, as escolas viram por bem postergar as comemorações para o fim de semana que vem.

Agora, só me fala: que graça tem ganhar um cinzeiro de argila em forma de ameba, um colar de macarrão ou um porta-treco de palitos de sorvete DEPOIS do Dia das Mães? E com que cara vai ficar o meu Montanha no domingo, de mãos abanando?

E eu? Como é que fica o meu direito de chorar de emoção, se não vou ter a chance de ver, pela oitava vez (quatro da minha filha e quatro agora, do Montanha), um filho meu cantando com as palavras erradas, a música “eu olho uma por uma, essa porção de mãezinhas, mas eu não vejo nenhuma mais bonita que a minha”? E o meu desenho de “Esta é a minha mamãe” no qual eu pareço uma lhama, cadê? E a parte da aula de inglês, na qual eles cantam “I love you yeah, yeah, yeah”, fazendo imensos corações com os braços? HEIN?

Humpf!

Questão de proteção

Aí, só porque esfriou um pouco, as mães, cheias de zelo, encapotam suas crias como se aqui fosse Reykjavyk. Olho os pobrezinhos chegando à escola e fico imaginando que tiveram que acordar às quatro da manhã para dar tempo de enfiar tudo aquilo.

As crianças mal consegue
m se mexer. As pernas nem dobram e os braços, menos ainda. Vão andando assim, como o boneco da Michelin, tentando passar uma perna à frente da outra, apesar de tudo.

Mas isso não é o pior. O pior, de longe, são os gorros. Na minha modestíssima opinião, gorro é um acessório que devia ser banido dos guarda-roupas de todo o mundo com a máxima urgência. Eita, troço feio dos infernos! A coisa mais rara de se ver é um gorro que assente bem na cabeça. Eu, até hoje, conheci um único caso que, por sinal, senta bem aqui, ao meu lado, e está com o bendito gorro nesse exato momento. De resto, é um negócio que aniquila o visual e deixa qualquer loira sueca de cabelos de espaguete parecendo um alien com hidrocefalia. As criancinhas, então, que dó! Uns monstrinhos surdos, de cabeçorras disformes, tentando enxergar além daquela camada de lã.

E a mãe persiste, cautelosíssima:

_ Arturzinho, puxa o gorro pra baixo! Cobre as orelhas, menino! Depois você pega uma otite e não dorme!
_ Hein?
_ As orelhas, filho _ repete ela, fazendo mímica. _ E puxa aqui embaixo também, pra proteger o pescoço. Põe assim, por cima do cachecol e cobre be
m a cabeça.
_ Mas mamãe, assim eu não enxergo nada!
_ Enxerga, sim, menino. E é melhor ficar sem ver do que pegar uma friagem e ficar lacrimejando o tempo todo. Vem. Vem, que a mamãe te guia.

Como se não bastasse o horror dos gorros em forma de ameba, tricotados por profissionais disléxicos, ainda há aquelas mães que, não contentes com tanta deformidade, compram modelos com pompons! Em casos assim, só me resta rezar para que a criança seja equilibrada o suficiente para superar o trauma e, quando atingir a idade adulta não insistir na aberração. Afff!

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Há algo guinchando embaixo da cama - parte 2

Ela acordou cansada do embate inesperado e da noite maldormida. Em algum momento naquele dia, teria que afastar a cama e enfrentar a possibilidade de encontrar a criatura lá, meio viva ou meio morta. Não sabia o que era pior. Se estivesse viva, teria que pegá-la com um saco plástico e sufocá-la até a morte, para então jogar o cadáver... na privada? Não; podia entupir. No lixo? Não; perigoso demais. Pela janela? Hummm... estaria apenas mandando-a de volta para o lugar de onde viera.

Passou o dia andando pela casa com os ouvidos atentos a qualquer tipo de ruído. Nada. Já eram quase seis da tarde quando se deu conta de que morcegos dormem de dia, mas aquele não era o maior dos seus problemas. Problema de verdade era a claustrofobia que a impedia, apesar do juramento da noite anterior, de viver enclausurada, com as janelas permanentemente fechadas. Esperou o marido chegar, pensando no que fazer.

Depois de concluído o trinômio banho-jantar-cama, ela investiu:

_ Sabe, eu estava pensando...
_ Pensando em quê, mulher?
_ No morcego.
_ Ainda? Por quê? Ele deu notícias?
_ Afff! Deus me livre! Felizmente, não. Mas eu não estou tranqüila. Você sabe que eu não suporto viver de janelas fechadas.
_ E o que você está pensando em fazer?
_ Não sei... e se a gente colocasse uma
tela?
_ Tela? Daquelas de criança? Na casa inteira, só por causa de um morcego?
_ Não é por causa do morcego. É por MINHA causa!
_ Por quê? Você vai se jogar se ele aparecer de novo? Olha que a tela não agüenta o seu peso, hein?
_ Pára! Fala sério: você acha que uma tela resolveria?
_ Hmmm... sei não. Você viu o morcego? Do tamanho de um canário. Um bicho daqueles passa fácil por uma tela.
_ É... o pior é que passa mesmo. E se fosse uma tela mais fina, daquelas de mosquito?
_ Você está louca, mulher? Que coisa mais lunática!
_ É. Acho que estou. Escuta... e se eu deixasse a janela aberta, mas só um pouquinho?
_ Como ontem?
_ Não! Só uns dois ou três dedinhos...
_ Sei não. De repente, o morcego faz um parafuso na aproximação e entra de lado...
_ Será possível? Ai, Xisus! E se eu deixar só um dedo de vidro aberto? Só pra eliminar a sensação de sufocamento iminente?
_ Olha... do jeito que esses morcegos são gaiatos, é capaz dele vir voando, aterrissar no peitoril da janela, andar até a esquadria, sentar, passar uma perninha, passar a outra, passar a bundinha e entrar dentro do quarto.
_ Pô, mas aí não é um morcego. É um filho da puta!

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Há algo guinchando embaixo da cama - parte 1

Rio de Janeiro, seis da tarde, temperatura na casa dos trinta graus. Ela, para economizar o ar condicionado quase permanentemente ligado, entreabre as janelas para deixar entrar um pouco do ar da tarde. Pouco antes da hora dele chegar, torna a fechar tudo e liga os aparelhos para refrescar o ambiente. Em pouco tempo ele aparece, cansado do dia de trabalho. Diligentes, dedicam-se ao trinômio banho-jantar-cama.

Já deitados, luzes apagadas, ouvem um ruído no quarto. Uma coisinha assim, incipiente, mas insistente, do tipo que começa a incomodar devagarinho e aos poucos vai fazendo perceber que não é possível que exista no mundo um pernilongo capaz de fazer tanto barulho.

Ela: _ Ei! Tá ouvindo isso?
Ele: _ Tô. Dorme. Deve ser o vizinho.
_ Não é, não. Tô ouvindo bem aqui, atrás da cama.

Ele se vira para o outro lado e procura deixar pra lá. Mas o barulho continua. Ora um ligeiro ruflar de asas, ora uns guinchos esquisitos.

Ele: _ Será um passarinho?
Ela: _ Tá doido? Passarinho não guincha.
_ Então é um morcego.
_ O quê???
_ Um morcego, ué! Tem muito disso aqui, no Rio.

Ela se senta na cama e acende a luz, com o coração batendo como o de um velocista olímpico.

_ Um mo... um morcego? Morcego-vampiro? Do tipo que suga o sangue das pessoas? Do tipo que pode matar a gente durante o sono?
_ Não, mulher, relaxa. A maioria dos morcegos é herbívora.
_ E VOCÊ ACHA QUE EU VOU DORMIR COM UM MORCEGO NO QUARTO? Acha que, antes dele me atacar, eu vou ter sangue-frio de oferecer uma salada?

Quando percebe que a coisa não vai parar por ali, ele também se senta na cama e decreta:

_ Então, nós vamos ter que abatê-lo. Pega seu travesseiro.
_ O quê? Você acha que eu vou usar o meu travesseiro da NASA, comprado em prestações ainda nem quitadas para matar um morcego nojento?
_ Tá bom, mulher. Com o que você quer matar o morcego?
_ Sei lá! Com uma vassoura, seu chinelo...
_ Meu chinelo, não.
_ Então pega lá a vassoura. Espera! Eu vou junto. Não fico sozinha no quarto com o morcego nem morta.

Vassoura em punho, afastam a cama e o vêem: um bichinho do tamanho de um canário, olhinhos brilhantes, provavelmente mais assustado que eles.

_ Aaaaaaaaaaaiiiiiiii! Socorro! Que monstro!

Com o grito, o bicho, que não é surdo e muito menos bobo, precipita-se num vôo livre pelo quarto. A luta franca, janelas abertas do lado deles e peito aberto do lado do morcego, é arduamente disputada e dura cerca de uma hora. No fim, o casal senta-se exausto e ofegante na cama, sem saber ao certo se havia conseguido se livrar da ameaça ou não.

Ele: _ Pronto. Acho que ele foi embora.
Ela: _ Acha ou tem certeza?
_ Acho que tenho certeza.
_ Mas você o viu sair voando pela janela?
_ Acho que vi, mas das duas, uma: ou ele foi embora, ou está tão cansado quanto nós e não há de incomodar.

Dormiram assim, exauridos, com ela jurando que nunca mais deixaria as janelas abertas.

Continua...

O ogro e a coletividade – parte 2

E não é que ontem mesmo, saindo com o Montanha, meu filho, para a escola, depois de esperar pacientemente pela chegada do elevador, eis que abro a porta e quem está lá? Quem? Quem? Ele mesmo, o ogro, com o mesmo barrigão, o mesmo cabelo ensebado, o mesmo bigode manchado, as mesmas pontas de dedos amarelos e o mesmo maldito cigarro escondido atrás do corpanzil. Pensando bem, o maldito cigarro devia ser outro, mas era da mesma marca porque fedia igual.

Mal a porta se abriu e eu senti o bafo dos infernos. Como paciência tem limite e o limite da minha está mais estourado que meu cheque especial, não tive dúvidas:

_ O senhor está fumando?
_ Er... sim, senhora.
_ NO ELEVADOR?
_ Er... eu...
_ Vem, Montanha. Vamos no outro, filho _ disse, arrastando o colosso de cinco anos de idade pelo hall.
_ Não, senhora. Pode deixar que eu saio.
_ Sai? Sai para ficar empesteando o MEU hall? Sai para eu ter que me enfiar nesse elevador fedido? Não, obrigada. E fecha essa porta logo pra não piorar o cheiro!

Tomei o outro elevador, ainda pensando em parar na portaria e fazer um escândalo (ou em lacrar a porta para o ogro ficar preso ali dentro, refém do próprio fedor). Depois, pensei em fazer uma carta de desagravo e colar nos elevadores. Finalmente, pensei em interfonar para a síndica e armar um escarcéu sem precedentes. Desisti de tudo. Primeiro, porque o porteiro prefere mil vezes ficar batendo papo com as empregadas alheias a dar atenção a alguém como eu. Depois, porque eu tenho mais o que fazer do que ficar lacrando portas. Além disso, é muito mais divertido escrever para o blog do que para o elevador e ficar sujeita aos palavrões, chicletes mastigados e melecas que os vândalos inevitavelmente grudam em toda e qualquer correspondência afixada em elevadores. Terceiro, porque a síndica do meu prédio é pior que o ogro. Um dia, ainda hei de difamá-la por aqui. Mas que eu lavei a alma, isso eu lavei.

terça-feira, 8 de maio de 2007

Problemas de lógica

Com a iminente vinda do papa ao Brasil, é inevitável tentar entender algumas questões de lógica.

Se eu cometer um estupro e depois me arrepender, serei perdoado.
Se esse estupro gerar um filho, a mãe da criança não poderá abortá-lo.

Se eu ficar grávida de um feto sem cérebro, também não poderei abortá-lo. Deverei mantê-lo até o final da gestação e passar pelo parto para, então, enterrá-lo horas depois.

Se o casamento é uma união insolúvel, que cessa apenas com a morte, posso matar meu cônjuge e me casar de novo.

Se em vez de matar meu cônjuge, eu me separar dele, não posso me casar de novo.
Nem comungar. Nunca mais.

Assassinos arrependidos podem comungar. Divorciados, não.

Padres pedófilos arrependidos podem comungar. Divorciados, não.

Estupradores arrependidos podem comungar. Divorciados, não.

A Igreja Católica condena a eutanásia, que significa abreviar o sofrimento de um doente terminal, sem chances científicas de recuperação. Se eu matar o doente e depois me arrepender, pode?

A Igreja Católica é a favor da vida. Mas não permite o uso da camisinha, nem para prevenir doenças mortais como a AIDS.

A Igreja Católica é a favor da vida, mas não ajuda a manter os milhões de crianças geradas irresponsavelmente todos os anos.

A Igreja Católica é a favor da vida acima de tudo. Agora, só entre nós: isso lá é vida?

segunda-feira, 7 de maio de 2007

O aperto

Cenário: elevador comercial
Área útil: cerca de 1,5 m²
Características: uma parede envidraçada, com vista para o átrio do prédio de apenas dois andares.

O elevador do trabalho é assim: temperamental. São apenas dois andares para cima e dois para baixo, o que significa que a coisa toda não tem mais de cinco pavimentos. Mas às vezes demora como se fosse um prédio de 80 andares. Tanto para chegar, quanto quando você está dentro dele. Deve ser para o pessoal ter mais tempo para observar a vista. Coisa de arquiteto... Assim, um trajeto do G1 para o segundo andar pode levar algo equivalente a um minuto e meio. Isso, quando não há interrupções. Porque geralmente, há.

Entrei pela garagem, esbaforida como de hábito. Apertei o botão para apressar o fechamento das portas. Um lance acima, no térreo, as portas se abrem. Entra um tipo roliço, vestindo algo parecido com uma roupa de ginástica e boné.

_ Oi.
_ Oi _ respondi, enquanto guardava os óculos, as chaves do carro e o crachá na bolsa e tentava pescar o celular.

Eu disse que o elevador demorava. Tanto, que mesmo depois de fazer tudo isso, ainda não havíamos chegado nem ao primeiro andar. Percebi que o sujeito me olhava com uma certa insistência. Será que eu estava bloqueando a vista? Aproveitei a desculpa de consultar o relógio e mudei ligeiramente de posição, para deixar a parede de vidro liberada. Não adiantou.

_ Quer que eu te faça uma massagem?

A pergunta, vinda assim, de sopetão, me pegou totalmente desprevenida. Comassim, uma massagem? Aqui? Agora? No elevador? Tá certo que demora, mas não é bem assim, né? Você nem faz o meu tipo e, mesmo que fizesse, a gente nem me conhece, você nem sabe meu nome... e eu tenho namorado, sabe? Onde já se viu? Vá ser direto assim lá em Marte, de onde você deve ter saído.

Apesar da avalanche de pensamentos, limitei-me a olhar para ele com um misto de incredulidade e incompreensão.

_ É que eu sou massagista, sabe? Faço massagens aqui, no pessoal. Faço do-in, shiatsu, massagem relaxante... Você trabalha lá em cima, né?
_ Trabalho _ respondi, desconfiada.
_ Então, eu faço massagens em quase todo mundo de lá. Depois, fala com a recepcionista e pede pra ela marcar uma hora pra você. Eu atendo aqui mesmo.
_ Sei...

Com isso, a porta finalmente se abriu e eu desci, com ele logo atrás. Entrei quase correndo na porta da direita e ele foi para a da esquerda.

Bem que eu ando precisando de uma massagem, mas assim, tão de repente? Melhor não, né? Imagina se ele cai nas minhas omoplatas com a mesma decisão da conversa do elevador? Não restará osso sobre osso. Afff!

O "culega"

_ Alô?
_ Oi. Posso falar com a Aninha Téjo?
_ Pode. Quem está falando, por favor?
_ É um amigo dela.
_ Qual amigo?
_ Ah, eu sou um "culega do culégio".
_ E você tem nome, rapazinho?
_ Tenho. Fulano.
_ Ok, Fulano. Eu vou chamar a Aninha Téjo.
_ Filha, aquele moleque de voz grossa que nunca diz o nome, quer falar com você. De novo.
_ Ai, mãe! Pára, vai...
_ Não paro, filha. Por que ele nunca quer dizer o nome?
_ Ai, mãe, sei lá. Acho que é porque ele tem vergonha.
_ Sei... tem vergonha de dizer o nome, mas não tem vergonha de ficar ligando?
_ Mãe, pára. E por que você precisa saber o nome dele?
_ Porque preciso, filha. Porque sou sua mãe. Porque pessoas educadas se identificam ao telefone. Porque vivemos em um mundo de sequestros telefônicos, sequestros relâmpago, sequestros virtuais e outras barbaridades do gênero. Porque eu quero proteger você. Porque...
_ Tá boooom, mãe.
_ Filha, quantos anos esse cara tem?
_ Ele não é um cara, mãe. É um menino. E acho que tem treze, sei lá.
_ Treze???!!! E o que um quase-homem de treze anos e voz grossa está fazendo na sua classe?
_ Ele veio do Rio, repetiu de ano... mãe, pelamor... deixa eu atender antes que ele desista de esperar.

"Culega do culégio", hein? Pois sim.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

O Molho do Vovô

O vovô em questão não era pai do meu pai, nem da minha mãe. Era um vovô emprestado das minhas primas. Italiano de nascença, veio jovem para o Brasil, mas nunca perdeu o sotaque. Teve dois filhos, seis netas e uma mulher formal e seriíssima que amou até o último dia da sua vida.

Mas não é sobre nada disso que vou falar hoje.Hoje, o assunto é o MOLHO de tomates inesquecível, antológico e impossível de reproduzir que ele fazia todos os domingos, para o almoço.

O processo todo começava em uma sexta-feira como hoje, quando ele ia pessoalmente à feira e escolhia um a um, cinco ou seis quilos de tomates italianos, perfeitamente simétricos e maduros. Já vou adiantando que não tenho a receita do MOLHO, de forma que se alguém acha que corre o risco de ficar com vontade, é melhor parar de ler agora mesmo.

Mas voltemos aos tomates, que assim que chegavam em casa, eram cirurgicamente desprovidos de suas peles e sementes, antes de qualquer outra coisa. Reza a lenda que pele e sementes cozinhavam em separado, por um tempo x, para serem depois peneirados com extremo zelo. Seu futuro estava traçado: no momento oportuno (qualquer que fosse ele), esse suco rico estava fadado a incorporar-se ao restante do MOLHO, como uma oferenda aos Deuses.

As polpas dos tomates eram cortadas grosseiramente (grosseiramente, no sentido de que não eram pedaços muito pequenos. Porque nada, nada mesmo nesse MOLHO, era grosseiro. Muito pelo contrário), ganhavam a companhia de cebolas, essas sim, picadas milimetricamente, alho (acho, mas não apostaria meus filhos na presença do alho), sal, uma pitada secreta de açúcar para cortar a acidez (nessa, eu aposto meus filhos), uma dose honesta de vinho tinto de ótima procedência e outros mistérios alquímicos da cozinha que nunca consegui decifrar, e iam para a panela numa ordem secreta, por um tempo infinito. Por infinito, entenda-se horas e horas - tipo uma hora para cada quilo original de tomate - o que estendia a preparação do MOLHO a uma meia dúzia de horas, ou mais.

Também há boatos relatando que lá pelas tantas (e nem um minuto a mais), o suco rico extraído das cascas e sementes era incorporado à mistura da panela, que cozinhava mais uma eternidade. Às vezes, o vovô colocava lingüiças de lombo ou de pernil no MOLHO, mas não era sempre.

O resultado era algo que, por mais que me esforce, não serei capaz de descrever. Ainda não inventaram palavras para tanto.

Tratava-se de uma experiência cármica, tântrica, sensorial, que tomava o paladar de assalto, invadia as papilas sem pedir licença, dominando a língua por inteiro, possuindo-a, fazendo sexo com ela, lançando um festival inesquecível de sabores e sensações ricas e complexas para o cérebro, provocando sucessivos espasmos de prazer gastronômico.

Um MOLHO sensacional, rico, de um vermelho escuro e profundo como catchup (perdoe-me, vovô, por cometer a heresia de citar uma coisa mundana como catchup para dar uma referência de cor do seu MOLHO), denso, encorpado, homogeneamente pedaçudo, servido fumegante sobre uma boa porção de massa Barila ou Divella, cozida com precisão de milésimos de segundos.

Esse MOLHO, como os braços da Vênus de Milo, como o nariz da Esfinge, como o telhado do Parthenon perdeu-se no tempo. Algumas pessoas da família, já alegaram ter a receita. Mas nem mesmo meu pai, o Homem do Croquembuche, com seu onipresente "eu faço", conseguiu reproduzir a riqueza, a opulência do MOLHO do vovô.

A mim, coube a nostalgia de saber que, assim como a presença do vovô, o MOLHO jamais será reproduzido, e a satisfação de ter estado entre o seleto grupo de privilegiados que desfrutou de uma coisa tão incrivelmente boa.

P.S.: Às vezes, eu invejo os camelos, que conseguem armazenar imensas quantidades de nutrientes no corpo, para consumi-los lentamente, com todo bom senso do mundo.

Período de reclusão

_ Mamãe, snif....
_ O que foi, meu filho? Por que você está chorando?
_ Porque eu estou com medo que você vá presa.

_ Presa??? Por que presa, pelamor? Eu sou a criatura mais careta do mundo, faço tudo direito, pago todos os impostos do mundo, ando na linha, eu não vou ser presa!
_ Mas eu tenho medo que você vá para a cadeia... buáááá!
_ Eu não vou para a cadeia, meu filho. Quem vai para a cadeia é bandido. Bem, nem todos vão, mas deixa pra lá. O importante é que a sua mãe não fez nada, absolutamente nada para ser presa. Aliás, de onde você tirou essa idéia?
_ É que... é que a mã.... a mãe do Dumbo foi presa...
_ Mas eu não sou a mãe do Dumbo E nem você é o Dumbo!
_ Mas a mãe do Dumbo não fez nada e ela foi presa.
_ A mãe do Dumbo foi presa porque ela estava defendendo o Dumbo e o pessoal do circo pensou que ela estivesse brigando com aqueles moleques. Aí, mandaram prendê-la.
_ Ela só estava defendendo o Dumbo?
_ Só.
_ E foi presa? Buáááááá!
_ Mas filho, entenda: ela é elefante. Ela não sabia falar para explicar que aquilo era um absurdo, uma violação dos direitos humanos (ou dos elefantes, sei lá).
_ Snif... a mãe do Dumbo não fala, né?
_ Não, meu amor. E a sua mamãe fala, né?
_ Ô! E como...