quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Eu quero ter 45 para...


Dizer tudo sem precisar abrir a boca.

Lembrar da Sônia Braga em Vila Sésamo, na TV em preto e branco.

Manter o corpinho de 20 e matar todo mundo de inveja.

Ver brotar na minha filha o melhor de mim..

Lembrar de Santos quase sem prédios.

Ter olhos intensos, matadores.

Pensar que até agora eu só vivi a metade – ou menos – da minha jornada.

Lembrar da Copa de 70.

Ganhar prêmios e concluir que, no fim, eles não eram tão importantes assim.

Lembrar de Londres.

Ter morado em Nova York.

Passar um aniversário em Paris.

Vestir o que me der vontade (e ficar bem nas minhas escolhas).

Conhecer o gosto de Crush.

Exibir pelo corpo marcas que contam a minha história.

Precisar provar muito pouca coisa pra muito pouca gente.

Olhar pra trás e sentir orgulho de tudo o que passou.

Saber o que busco num homem.

Aceitar com serenidade a impermanência de tudo (inclusive dos 45).

Ter amigos de 30 anos (ou menos).

Ter amigos há 30 anos (ou mais).

Ficar mais parecida com você.


Parabéns, querida.

Você é uma inspiração todos os dias.


Ilustra de autoria da própria homenageada.


quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Teçte de prutugueis


Aí, você resolve investir cinco minutos de ócio e descompressão no trabalho em um teste de caráter inteiramente educativo, como: "que tipo de ritmo/ lugar no mundo/ deusa grega/ distúrbio psiquiátrico" é você.


Quinta pergunta:
"Quais instrumentos mais te atrai em uma banda?"

Resultado:
Ritmo: jazz
Concordância: 0

sábado, 22 de agosto de 2009

Homeless

Lar é mais que casa.
É estado de espírito.
Eu estou sem teto
desde que deixei de morar em você.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

A Declaração

_ Mamãe, eu estou bonito?

_ Tá lindo, filho. Como sempre. Por quê?

_ É que hoje é um dia muito importante. Hoje, eu vou dizer pra Lívia que estou apaixonado.

_ Ué! De novo? Mas você já não disse?

_ Dãããns, mamãe! Todo mundo sabe que as garotas gostam de ouvir essas coisas vááárias vezes.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O Presente

_ Mamãe, nós temos que comprar um presente para a Lívia.

_ Eu sei, filho. E nós vamos. Pode ficar tranquilo.

_ Quando?

_ Certamente, antes da festa. Você já pensou em alguma coisa?

_ Pensei, sim. Pensei em três coisas. Mas uma, eu já sei que você não vai deixar. Sabe qual é a que você não vai deixar?

_ Qual?

_ A sereia! Pensei numa sereia pra ela porque ela é linda como uma sereia, mas você vai reclamar porque a sereia é muito grande e não cabe na sua banheira. Ou vai reclamar porque não vai dar pra você tomar banho até a festa, né?

_ Bem, eu reclamaria de coisas diferentes, mas você tem razão. Uma sereia está fora de cogitação.

_ Eu sabia! Foi por isso que eu pensei também numa coisa bem pequenininha.

_ O que, meu filho?

_ Uma fadinha igual à Sininho do Peter Pan. Acho que ela ia adorar e cabe até num pote de geleia!

_ É verdade, mas acho que não estamos na época das fadinhas. Eu não tenho visto nenhuma pra vender ultimamente, você tem?

_ Não, mamãe. Não tenho. Que pena...

_ Pena mesmo. Qual era a sua terceira opção?

_ Um arco-íris.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

O convite

_ E então, meu filho? Como foi o primeiro dia de aula?

_ Ah, mamãe, foi maravilhoso. Paradisíaco!

_ Paradisíaco?!

_ É. Eu vi a Lívia. Ela continua linda. Mas isso não foi o melhor. O melhor é que ela me convidou para a festa dela. E ainda escreveu no convite que “sem a minha presença a festa não estará completa”.

_ Nossa! Que legal! Ela escreveu isso com a letra dela?

_ Não, mamãe. Estava com aquela letra do convite mesmo. Aquela que não é feita por humanos.

_ Ah...

_ E sabe o que foi melhor ainda?

_ O quê?

_ Que o Pedro Motta disse que não quer mais namorar com ela. Então, ela vai namorar comigo.

_ É mesmo? Mas que maravilha, filho! E você já falou isso pra ela?

_ Não. Vou falar amanhã. Mas eu não quero filhos, por enquanto.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Comidas que não (me) convencem – parte I I

Eu sou uma pessoa versátil.

Versátil e flexível.

Quase sempre.

Mas como é que uma coisa que não sabe o que é pode ser obra de Deus? Vejam a soja, por exemplo: é um grão? Sem dúvida. Mas um grão que se transforma em leite, queijo, salgadinho, farinha, carne e até hambúrguer! Como é que uma planta pode virar um hambúrguer? E leite??? Não pode ser coisa de Deus. Definitivamente.

É por isso que eu, apesar de conhecer boa parte dos benefícios trazidos pelo seu consumo moderado, confesso que tenho medo. Pronto. Falei.

Comidas que não (me) convencem – parte I

Sei que é preferência mundial e que algumas pessoas praticamente subsistem à base delas, mas eu nunca consegui gostar de verdade de salsicha. Talvez parte disso se deva a uma ou duas dores de barriga memoráveis na adolescência, causadas por consumo exagerado. Ou pelo professor de sociologia do meu ex-marido, que dizia que “quem gosta de salsicha e de política não deve perguntar do que são feitas.” e ainda que “a diferença entre uma boa salsicha e uma má salsicha é a qualidade do jornal usado na sua fabricação.”

Já tentei das marcas mais populares, às mais aclamadas. Provei de peru, de frango, de pernil, de lombo, da branca e da vermelha, com e sem especiarias, com e sem pimenta, com e sem massa em volta, à milanesa, num boteco, pra provar que não tenho medo de nada e até – pelo menos, foi o que me juraram – sem jornal. Não funcionou.

Nem com purê, nem com batata palha, em com molho de tomate acebolado, nem com mostarda e catchup num pão bem molinho. Com maionese, nem pensar. Nem no sanduíche, nem na salada.

O engraçado é que tem gente que não se conforma e tenta a todo custo me convencer a abraçar a causa da salsicha. E eu, pra não parecer chata, disfarço e filosofo: bendita seja a diversidade humana que permite que pessoas estranhas como eu vivam anonimamente, sem despertar suspeitas.

Também tem gente mais louca que eu – graças a Deus! – que, apesar da tinta – porque as salsichas são todas pintadas, não vá dizer que você não sabia!!! – e do jornal, consegue comê-las diretamente do pacote, sem nem aferventar. Nem um aguinha quente pra lavar parte do não-sei-o-que que vai ali dentro. Essas pessoas são fáceis de identificar: elas têm a área em volta dos lábios meio alaranjada nos momentos improváveis, como na saída do cinema, por exemplo. Depois morrem e dizem que a vida não é justa. Eu, hein?

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Economias

_ Mamãe, vamos abrir o meu cofrinho?

_ Ué, pra quê, filho?

_ Pra contar todas as moedas, ora! Pra ver quanto dinheiro eu tenho. Eu devo ter MUITO dinheiro porque o cofre está muito pesado.

_ Ok. Vamos.

...

_ Pronto, filho. Você tem exatamente R$ 26,78.

_ Isso é muito?

_ Depende. O que você quer comprar?

_ O que eu posso comprar com isso?

_ Hmmm... deixa eu ver... pode comprar duas meias entradas de cinema e ainda sobre um troco para um doce.

_ Não quero.

_ Por que?

_ Porque é você quem paga as entradas de cinema.

_ É verdade. O que mais você quer?

_ Dá pra comprar roupa, mamãe?

_ Roupa, filho? Dá. Acho que dá. Na C&A, talvez...

_ Uma capa longa para meninos?

_ Acho que para uma capa longa, não dá. Talvez dê pra uma camiseta ou duas.

_ Droga! Camiseta eu não quero porque você também compra.

_ Dá pra um cartucho de Mario Kart pro Nintendo DS?

_ Nem de longe, filho. Um cartucho custa R$ 200,00!

_ E pra um GPS?

_ Affff! Piorou. Um GPS custa uns R$ 600,00, pelo menos.

_ Um sonar, talvez...

_ Impossível, filho. Eu nem sei quanto custa um sonar, mas deve ser muito mais caro que um GPS.

_ Droga! Não dá pra comprar nada do que eu quero.

_ Olha, vamos combinar uma coisa: se você resolver que quer MESMO o cartucho de Nintendo, você junta mais um pouco e eu te ajudo a comprar, que tal?

_ Se eu escolher uma coisa que eu quero MESMO, você me ajuda?

_ Ajudo.

_ Mesmo?

_ Mesmo, filho.

_ Então, eu já sei.

_ Ótimo, o que é?

_ Um vulcão.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Macaquices

Aí, por um desses caminhos e descaminhos que só acontecem na Internet, fui parar na página de embarque de animais domésticos do site de uma companhia aérea (Não. Eu não tenho animais domésticos. Mesmo que tivesse, não pretendo viajar nos próximos dias e muito menos levando um.). No rodapé da página, depois de dar todos os detalhes sobre como levar Totós e Lulus com segurança, estava a seguinte informação:

Embarque de animais acompanhando deficientes físicos
Passageiros com deficiência visual ou auditiva que acompanham animal de serviço (cão ou macaco guia) são autorizados embarcar em nossos vôos e ficar junto ao passageiro durante todas as etapas de sua viagem.



Vocês leram o que eu li? Macaco-guia? Agora, na boa, sei que é ignorância minha, mas como será que um macaco-guia funciona? Porque os cães-guias de cegos, efetivamente “guiam” o dono. Se o cão pára, o dono pára. Se o cão anda, o dono anda. E com o macaco? Na hora de atravessar a rua, por exemplo, como será que o macaco faz? Dá um tapa na orelha do ceguinho? E se não for para o dono atravessar a rua porque vem vindo um caminhão em desabalada carreira, como o macaco reage? Grita?

Imagina agora você, embarcando para uma viagem de negócios e, de repente, senta-se ao seu lado um deficiente com um macaco-guia. Lá pelas tantas, o macaco começa a ficar de saco cheio e resolve puxar conversa com você. Como macaco não fala, ele primeiro pula no seu ombro e depois, mais confiado, começa a cutucar sua orelha e a catar piolhos na sua cabeça. Que tal? E você não tem nem o direito de reclamar com a aeromoça porque, afinal, os animais “são autorizados embarcar em nossos vôos e ficar junto ao passageiro durante todas as etapas de sua viagem”.

Em caso de despressurização da aeronave, faz como? Põe a máscara primeiro no macaco ou no passageiro? Porque, se for um deficiente visual, não vai enxergar a máscara e se for um deficiente auditivo, não vai ouvir o alerta de emergência, certo? E se o macaco não tiver prática?

Será que o macaco tem direito a uma barrinha de cereais? Será que ele escolhe a de banana?

E em caso de pouso n’água? Será que o macaco está ciente que “o assento da sua poltrona é flutuante”?

Só sei que troquei idéias com amigos e quando disse que, se fosse eu, discretíssima, levaria logo um orangotango, alguém rebateu dizendo que orangotango não podia, porque todos já estavam trabalhando como seguranças de boates.

Melhor parar por aqui porque esse post está ficando politicamente incorreto, a companhia aérea é seriíssima, o serviço também há de ser e é capaz de haver algum ativista da Sociedade Protetora dos Animais ou do Sindicato dos Deficientes Donos de Macacos-Guia que Viajam de Avião lendo isso aqui e aí, vou acabar sendo processada em milhões de dólares por calúnia, difamação, preconceito e ignorância. Mas que é engraçado, é.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Tia Genérica, parte 2

Trim, trim, triiiiiiiiiiim!

_ Alô?

_ Ana? É a tia Genérica.

_ Oi, tia. Como vai a senhora?

_ Ah, minha filha, nada bem.

_ É mesmo? O que houve?

_ Eu estou triste, meio deprimida...

_ Puxa, tia, que pena... por quê?

_ Porque eu estou muito gorda. Muito gorda mesmo, sabe? Relaxei com o meu corpo.

_ Nossa, tia, da última vez que a gente se viu, eu achei a senhora ótima.

_ Ah, mas eu piorei muito, minha filha. Muito. Nenhuma roupa mais me serve; um horror. E o pior é que eu tenho um casamento na semana que vem e estou nua.

_ Sei...

_ Aí, eu lembrei de ligar pra você. Será que você não me emprestaria um vestido seu?

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Tia Genérica, parte 1

Todo mundo conhece alguém assim.

Geralmente, é uma tia que não necessariamente é irmã dos seus pais. Às vezes, é uma amiga da sua mãe que, por razões que a própria razão desconhece, insiste em frequentar a família há décadas. A sua. Não a dela própria.
A tia Genérica é uma pessoa avançada na idade, nos dissabores da vida e no grau de miopia, que parece compensar esses avanços todos com comentários inclassificáveis.

_ Ana!
_ Oi, tia Genérica.
_ Nossa! Há quanto tempo! Você engordou?
_ Não, tia. Continuo com o mesmo peso.
_ Mas você tá mais fortinha. Com quantos anos você está?
_ Trinta e nove, tia.
_ Só??? Tem certeza? Eu pensei que você já tivesse passado dos quarenta há algum tempo.
_ Não, tia. Eu só faço quarenta em agosto. Falta muuuuuuuito tempo.
_ Mas, espera aí... quando você brincava com o Heitorzinho, meu filho, vocês eram quase da mesma idade, não?
_ Não, tia. Eu sempre fui oito anos mais nova que o Heitorzinho. Sempre.
...
_ Mas você esta bem, Ana. Tá até conservada.
_ Er... obrigada?
_ Você usa creme para os olhos, minha filha?
_ Uso, tia. De manhã e à noite, religiosamente, desde meus vinte e cinco anos.
_ Pois não parece...

terça-feira, 19 de maio de 2009

O Primeiro Amor


_ Mamãe, eu estou apaixonado.

_ Comassim, meu filho? Você só tem sete anos!

_ Eu sei, mas estou apaixonado.

_ E quem é ela?

_ A Lívia.

_ E quem é a Lívia?

_ Uma menina da minha classe.

_ E como ela é?

_ Linda.

_ Mas como ela é? De que cor são os olhos, os cabelos?

_ Ela tem cabelos escuros, lisos e brilhantes e uma carinha linda.

_ Sei... e ela é mais alta ou mais baixa que você?

_ Mamãe, isso importa?

_ Bem, na verdade, não. Tô só curiosa, filho.

_ Mais baixa.

_ Sei... e você já falou que gostava dela?

_ Falei que estava apaixonado.

_ JuraporDeus??????????

_ Juro, mamãe.

_ E o que ela disse?

_ Que também estava apaixonada por mim.


... Aí a gente cresce e estraga tudo.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Mãe que é mãe...

Esse ano, meu filho cresceu e foi para a escola grande, junto com a irmã dele.

Ele estranhou a classe sem brinquedos, o recreio muito curto, a professora que fala sem parar e a quantidade de lição de casa. Eu estranhei o fim das festinhas de Dia das Mães. Acabaram os cartões toscos, os cinzeiros de argila, os vasos pintados com tinta acrílica, os pregadores decorados...

Não que a escola grandona não faça nada. A comemoração desse ano foi em um cinema (!) na Avenida Paulista (!!), às nove da manhã (!!!) de sábado (!!!!).

Programa: mães e filhos seriam recebidos pelo coral da escola e tomariam café-da-manhã. Depois as mães veriam um filme de mães (“Eu Odeio o Dia dos Namorados”!) e os filhos veriam um filme de filhos. Confesso que não entendi nada. Qual é o sentido de comemorar o Dia das Mães separada do filho? Conversei com meu filho e resolvemos pular.

Acordamos no sábado e tomamos nosso próprio café-da-manhã, sem cinema nem coral, mas com morangos, leite com chocolate e pão de queijo, na nossa própria cozinha.

De repente, ouvimos música vinda da escola vizinha à minha casa e fomos os três para a janela. Eram os pequenininhos da pré-escola, agrupados em círculo, cantando em português e em inglês para um bando de mães emocionadas.

É claro que eu chorei. Mesmo da janela; mesmo sabendo que a festa não era pra mim; mesmo sem conhecer uma única criança; mesmo nunca tendo entrado naquela escola. Chorei porque mãe é um bicho que chora em festas genéricas de Dia das Mães. Para sempre.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Skate Adventures, parte 2

Na loja de skate, fui atendida por um menino que não devia ter mais de 12 anos. Dá uma pena ver criança tão pequena trabalhando... Ele devia estar na escola. Será que tinha dado tempo de se alfabetizar?

_ E aí? Belê?

_ Belê. Eu queria comprar um skate pro meu filho, por favor.

_ Sei. Ele é âm?

_ Hein?

_ Ele é âm?

_ O que é “âm”, moço?

_ Amador, tia. O seu filho é amador?

_ Claro que é. Ele só tem sete anos. Começou agora.

_ E que tipo de skate a sra. quer?

_ Quero um do tipo “certo” pra um menino de sete anos, que começou a andar agora e que não custe mais de duzentos reais.

_ Duzentos o shape?

_ Não, moço. Duzentos o total da conta, em duas vezes, no cartão, pro moleque sair andando, com tudo o que isso envolve.

_ Entendi... A sra. tem que escolher um shape. Que shape que a sra. quer?

_ Hmmm... oval, comprido?

_ Depende do estilo do seu filho.

_ Moço, ele não tem estilo. Está começando a aprender “agora”.

_ Mas ele faz freestyle, street, mini ramp, half pipe, pool, big air, downhill…como é que ele anda?

_ Em pé, oras! Às vezes ele dobra um pouco os joelhos e estica os braços assim, ó, meio de lado.

 

Enquanto ele tentava, em vão, conter a risada, eu me sentia a mais incompetente mãe de skatista do mundo.

 

_ Olha, existem três tipos de shape: skateboard, fishboard, longboard, com vários noses, tails e côncaves diferentes

_ Qual é a mais comum?

_ Skateboard.

_ Ok. Eu vou levar uma dessas, com nose e tail padrão.

_ E a mesa, o truck, roda, amortecedor, rolamento?

_ Moço, na boa: eu não sei se deu pra perceber, mas eu não ando de skate, não sei nada de skate e nem domino o vocabulário. Assim, temos duas opções: ou você me descola o skate “certo” pro menino, ou eu vou embora sem skate e você fica aqui, sem comissão. O que vai ser?

_ É que fica difícil ajudar a sra. sem ter informação.

_ Mas eu já dei todas as informações que eu tinha, criatura! O primeiro skate dele, que tinha uns desenhos irados, de monstros embaixo, o professor disse que não prestava. O segundo, que ele ganhou, o professor disse que não andava o suficiente. Essa é minha terceira e última tentativa. Assim, pelamordedeus, monta aí um skate médio, com rodas, cheipe, truck, whoop, skettles, sbranches e brables médios, pra um menino médio aprender a andar. Se possível, com rodas verdes porque a gente adora verde. Se não der certo, boto ele no karatê porque, de kimono, eu entendo.


...


_ Pronto, tia. Eu pus um slick no shape pra ficar mais slide. Ficou dentro do preço.

_ Ótimo.

_ A session dele vai ficar rad!

_ Obrigada. Pra você também.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Síntese


_ Que legal a sua lição de casa, filho!
_ Qual?
_ Essa aqui, ó. É a história do elefante cinzento e grandalhão. Conta como ele subiu montanhas, desceu colinas e fez mil coisas. E você tem que recontar a história com outro personagem.
_ É. Eu sei.
_ Que personagem você vai escolher, filho?
_ A rã. A rã leve e bege.
_ Rã bege? Que interessante! E por quê você escolheu a rã?
_ Porque é menor.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Skate adventures - parte 1

Não é fácil para uma mãe acompanhar o ritmo dos filhos. Meu filho agora faz skate. São sete anos de pura energia e adrenalina em cima de uma prancha com rodinhas. Para lapidar o estilo, resolvi colocá-lo nas aulas do clube. Como já investi muito no moleque e preciso conservá-lo, comprei antes equipamento completo de proteção. Capacete, ele vai usar provisoriamente o de ciclista, até minha conta bancária se recuperar porque antes de acertar no skate, tive duas aquisições solenemente recusadas pelo professor.

 

_ Mãmi, esse skate não dá!

(Mãmi?)

_ Você que é o professor de skate do meu filho?

_ Eu mesmo, mãmi. Meu nome é Johnny.

(Acho que eu já vi esse filme.)

_ Legal, Johnny. Olha só: eu não sou sua mãe, tá? Não sei como a notícia vai cair pra você, mas é melhor que você saiba de uma vez, antes que comece a se apegar a mim.

_ Ah, falou. Olha, é que esse skate do Montanha não tem a menor condição.

_ E por que não? É tão bonito, verde, tem uns monstros aqui na parte de baixo, ó...

_ Ah, mã... tia, porque esse não roda direito. Vai prejudicar a performance do moleque.

_ Sei...

_ Aí, todos os amigos dele vão progredir e ele vai ficar estacionado...

_ Entendi. E qual é o skate “certo”?

_ Tem que ser um bom, tia.

_ Bom “quanto”, Johnny? Porque lembre-se de que o Montanha aqui tem só SETE anos e que é mais fácil um boi voar do que eu comprar um skate de um milhão de dólares pra ele.

_ Acho que com umas duzentas pratas você já compra um que ele consiga andar.

_ Duzentas pratas??? Pelamordedeus!

_ Isso, pra começar, né? Depois, a gente vai melhorando.

_ Sei. Johnny... faz o seguinte: anota aqui, por favor, o que eu preciso, que eu vou tentar arrumar isso para antes da próxima aula.

_ Falou, tia. Aê, Montanha, a mãmi é pro, hein?

 

...

 

_ Filho, o que é esse “pro” que o seu professor de chamou?

_ Sei lá, mamãe, deve ser professora.

_ Mas eu não sou sua professora. Sou sua mãe.

_ Eu sei. Quer que eu vá lá e pergunte?

_ Melhor não, meu filho. Vamos embora.


Peguei os endereços de lugares para comprar o skate “certo” e saí, munida do maior espírito aventureiro, a bordo do meu mais puro estilo skatista.

Continua...

quinta-feira, 16 de abril de 2009

40

Tenho acompanhado nos últimos tempos várias amigas chegarem aos quarenta anos. As comemorações variam, mas muitas tem oferecido grandes festas para uma centena de pessoas ou mais, com as músicas que a gente dançava, comes, bebes, flores, garçons e iluminação caprichada. Invariavelmente, as aniversariantes estão esfuziantes a bordo do trio melhor penteado-melhor roupa-melhor maquiagem. As mais abonadas reservam uns três meses antes da ocasião para pequenos retoques, lipos e uma ampolinha de toxina botulínica para amenizar as rugas que começam a dar as caras. Afinal, envelhecer virou pecado mortal e se os cinquenta são os novos trinta, os quarenta são o quê? Os novos vinte? Eu acho que não.

Porque por mais que abundem mulheres de cinquenta que juram estarem muito melhor hoje do que aos vinte, é impossível manter um pique igual sem mil vezes mais esforço. E nem sempre aos quarenta, a gente tem tempo para tanto esforço.

É claro que todo mundo diz que morre de orgulho de cada passo do caminho, de cada dia vivido, de cada conquista e de cada ruga – e é verdade, à exceção, talvez, das rugas – e que não quer, por nada, voltar aos vinte anos.

Só que aos vinte anos, a gente saía, voltava às quatro da manhã, levantava seis e meia e ia para a faculdade como se nada houvesse. Aos vinte, a gente comia lasanha e pizza quatro queijos quando tinha vontade, tomava sorvete com calda, se entupia de chocolate na Páscoa – e no resto do ano – e não engordava. Aos vinte, a gente não usava demaquilante, nem loção tônica, nem um hidratante para o dia e outro para a noite – este último, com ácido para corroer o peso dos anos –, nem filtro solar e tinha pele de pêssego. Em calda. Aos vinte, a gente não fazia ginástica, ou fazia duas vezes por semana e tinha coxas firmes, bunda dura e uma barriga mais chata que a Mallu Magalhães que, por sinal, nem vinte tem.

Por mais que a gente sorria e celebre não é fácil fazer quarenta anos e quem disser que é, está mentindo. Aliás, ouso dizer que é muito mais difícil hoje. A seu favor, nossas mães não tinham a obrigação de preservar o frescor dos vinte nem a expectativa – geralmente frustrante – de manter o mesmo pique, o mesmo corpo e a mesma disposição.

Eu completo quarenta anos em agosto e estou me preparando com muito cuidado. Não vou fazer lipo, não vou aplicar Botox e provavelmente não vou dar festa porque nunca tenho grana. Para ajudar na aparência, um vestido novo, unhas feitas e um novo corte de cabelo. Talvez me rebele e aprenda a andar de moto para driblar o trânsito de São Paulo. De resto, manter a rotina de sono, a alimentação equilibrada e os exercícios cinco vezes por semana para tentar, em vão, abandonar em alguma esteira os três quilos que vieram morar em mim um ano atrás.

E, não. Esse post não tem conclusão, lição de moral, mensagem otimista ou final engraçadinho. Vou ali tentar lidar com a perturbação e entender esse negócio de fazer quarenta anos e, quando descobrir, eu volto.

terça-feira, 31 de março de 2009

Da relatividade da existência

_ Mamãe, coelho da Páscoa existe ou não existe, afinal de contas?

_ Depende, filho.

_ Como assim, “depende”? Ou existe, ou não existe.

_ Você quer que ele exista?

_ Quero, mas eu acho que não existe.

_ E por que você acha que não existe?

_ Porque um menino na minha escola disse que não existia.

_ Talvez, para ele, não exista. Mas pode existir pra você.

_ Mesmo?

_ Mesmo.

_ Até quando?

_ Até quando você quiser.

_ Mas se o Coelho da Páscoa não existe, a Fada do Dente e o Papai Noel também vão deixar de existir, né?

_ Provavelmente.

_ Chato, né?

_ É, filho. Muito chato.

_ Se eles deixarem de existir, eu vou deixar de ganhar ovos de Páscoa e presentes no Natal e quando cair um dente?

_ Não.

_ Mas aí é você quem vai me dar, né?

_ Exatamente. Eu e outros adultos.

_ Acho que prefiro que eles existam mais um tempinho.

_ Eu também, filho. Definitivamente, eu também.

segunda-feira, 30 de março de 2009

A lógica da dor de barriga

_ Mamãe, eu vou ganhar ovos grandes ou pequenos na Páscoa?

_ Eu não sei, filho. De que tipo você prefere?

_ Eu prefiro dos dois tipos. Pequenos pra procurar e grandes pra deixar em cima da mesa, da cama e da cozinha e comer até dar dor de barriga.

_ Mas não é ruim ter dor de barriga?

_ Deve ser. Eu nunca tive.

_ É verdade. Acho que você nunca teve mesmo. Que sorte, hein?

_ Então, eu devia poder comer ovos até ter dor de barriga.

_ Mas se você sabe que é ruim, por que você quer ter dor de barriga?

...

_ Já sei!

_ O que você já sabe, menino?

_ Já sei porque eu quero ter dor de barriga.

_ E por que é?

_ Pra você poder dizer: “eu não disse? Olha aí! Agora você está com dor de barriga!”

_ E por que você acha que eu vou dizer isso?

_ Porque as mães sempre dizem.

_ Eu nunca disse, filho.

_ Dãããns! Porque eu nunca tive dor de barriga, né?