domingo, 29 de abril de 2007

O círculo vicioso das coisas que os homens apreciam nas mulheres dos outros (ou nas de ninguém) mas que não querem ver apreciadas na sua

_ Caramba _ exclama você, perplexa. _ Você viu aquela ali?
_ Qual? A loira de vermelho, que parece a Paris Hilton?
_ Não! Não é aquela loira “falsa”, idosa, pelancuda, que parece a “avó” da vagaba da Paris Hilton. Estou falando da roupa daquela outra, ali...
_ Hein? _ responde ele, disfarçando, enquanto limpa a babinha escorrendo no canto da boca.
_ Olha aquilo, pelamor! A mulher veio só de blusa!
_ Ah, mas ela tem um corpão...
_ Corpão? CORPÃO??? Essa vadia, saliente, desfrutável tem um corpão? E você comenta isso assim, na maior naturalidade?
_ Mas tem, ué! Ela chama atenção. O que é que eu posso fazer?

_ Primeiramente, pode parar de olhar. Em seguida, pode aproveitar a oportunidade para me responder à pergunta que não quer calar: e se EU saísse com você, com uma fatiota desse calibre, hein? Que tal? Eu, com uma minissaia que termina antes mesmo de começar?

_ Ah, seria o fim final. Eu acharia péssimo, simularia um mal estar súbito para cancelar o programa.
_ Ah, é? E por quê?

_ Porque você é a minha mulher, oras!
_ E daí?

_ Daí, que eu não quero a minha mulher vestida de piranha, para todos os machos do recinto ficarem babando em cima.
_ Ah, não?
_ Não!
_ Quer dizer que aquilo ali é uma piranha e você, como macho no recinto, tem a obrigação moral de babar em cima?
_ Deixa de ser implicante. A minha mulher é você. É você que eu quero. Do jeitinho que você é.

_ Sei. Do jeitinho que eu sou...
_ É.
_ De burka?

_ Não exagera, né?
_ Tá, mas sem minissaia...
_ Precisamente.
_ Sem decotão...
_ É claro que sem decotão. Decotão é vulgar.
_ Sem nada muito justo, que modele demais as curvas do corpo...
_ É. Saias amplas e rodadas são muito mais femininas.

_ Mais femininas, né? Sei... Então, por que diabos você e todos os outros machos ficam babando em cima das piranhas de minissaia, roupa colante e decotão, hein?

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Inspiração divina

É natural que nem todo dia a gente esteja altamente inspirado. Com Deus também foi assim. Enquanto fazia o mundo, teve dia que ele acordou totalmente bola-murcha, sem a menor vontade de pegar no batente. O problema é que havia um mundo inteiro para ser feito, um cronograma feroz a cumprir. Ai, ele fez exatamente o que a gente faz: ligou o Work Simulator e criou coisas como:

- Chuchu
- Tofu
- Doce de feijão
- Água tônica
- Canja
- Loiras de roupa bege
- Ricota
- Estâncias hidrominerais
- Pedalinhos

Em outros dias, ele acordou animadíssimo, depois de uma balada infernal e fez coisas sensacionais, como:

- Ornitorrinco
- Girafa
- Canguru
- Montanha russa
- Sorvete de chocolate com calda que fica dura
- Sábado

- Espaguete
- Férias
- Cheiro de filho depois do banho

Terapia da sacola

Quando a gente está em um trabalho, acaba acumulando coisas nas gavetas. É inevitável reunir uns poucos objetos pessoais, algumas fotos, uns brinquedinhos, listas, documentos, cartões de visita e ir juntando, quase sem perceber, coisas que por algum motivo, pareceram relevantes em determinado momento.

Aí, um belo dia, alguém decide que é hora de embora. E espera-se que as gavetas sejam restituídas ao seu estado original, ou seja, vazias ou, no mínimo, destituídas de “você”.

Aí, você junta tudo, enfia em uma sacola – se for americano, enfia em uma daquelas caixas de arquivo que aparecem em todos os filmes – e se manda. Quando chega em casa, você joga a sacola num canto e deixa ela lá, de castigo, até o próximo emprego ou até a sensação de incômodo passar.

Isso já me aconteceu algumas vezes e, geralmente em pouco tempo, o conteúdo da sacola foi filtrado e transferido para uma nova gaveta, onde foi muito mais feliz.

Mas houve uma sacola que eu fechei e não abri mais. Por quatro anos. Tinha medo do conteúdo e medo das lembranças. Por quatro longos anos, eu não trabalhei em outro lugar que tenha me feito tão feliz quanto aquele. Por quatro anos, não consegui imaginar canto em minha vida profissional para abrigar objetos tão preciosos quanto os que estavam ali.

A sacola foi aberta esta semana. Sem cerimônia, sem preparação. Foi aberta assim, à toa, simplesmente porque eu precisava ocupar o espaço dela com outra coisa mais importante. E para minha grande surpresa, descobri que quase tudo do que havia ali dentro não fazia mais o menor sentido. Que sensação engraçada passar por tantas reminiscências e não sentir absolutamente nada. Que curioso procurar os trabalhos que guardei porque me pareceram “bons” e só encontrar um punhado de papéis superados. Que graça olhar para cartões de gente que eu nem lembro mais quem é, e extratos bancários velhos, e convites de festas que eu não fui, e portifólios que deixei pra lá, e cardápios de restaurantes que já fecharam, e extratos de milhas que já gastei, e endereços de e-mail que mudaram, e brindes, e cacarecos, e clips, e lapiseiras, e canetas...

Fui vendo aquilo tudo e tentando entender porque tive tanto medo, por tanto tempo. Porque você precisava desse tempo, loira burra! Porque precisava superar. Porque precisava de um trabalho que a fizesse feliz de novo, para esquecer a fossa daquele.

Separei uns poucos itens da mais alta relevância e joguei o resto fora, sem dó. Sobreviveram:

- Minha cobra de pelúcia, que voltou a morar em cima da CPU;
- Um livro que meu professor de francês emprestou há quatro
anos e que finalmente pretendo devolver;
- Um CD pirata do Chris Montez, gravado por um amigo que nem tinha nascido quando o Chris Montez fazia sucesso;
- Dois desenhos feitos pela minha filha, anos atrás.

................

Conclusão: não há paixão no mundo que sobreviva a quatro anos de sacola.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Perdas

Perder a admiração por alguém é muito triste.
Perder o respeito é perder tudo.

Bitterness

Hoje, eu não tenho nada de bom para dizer. Nada que os alegre, que os divirta ou que os inspire. Nada doce, nada agradável, nada bem humorado. Absolutamente nada que mereça ser lido.
Em dias assim, é melhor não escrever nada. Ou escrever o mínimo possível.

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Escala de cores


_ Mamãe, olha só! Você pintou as unhas!
_ Eu pinto toda semana, meu filho.
_ Mas você pintou de vermelho!
_ É. Pintei. Você gostou?
_ Hmmmm... na semana que vem você pinta de verde?
_ De verde, meu filho? Mas verde não é cor de unha.
_ E vermelho é?

Homens, blargh!

SP Trans

Se eu saio mais cedo, pego mais trânsito e chego mais tarde.
Se eu saio mais tarde, pego menos trânsito, mas chego tarde do mesmo jeito. Meleca, viu?

terça-feira, 24 de abril de 2007

A minha casa

Tem que ter janelas sempre entreabertas para deixar passar aquela brisa que acalenta no começo da noite.

Tem que ter flores e plantas para regar de verdade. Porque de plástico, nesta vida, bastam os cartões de crédito.

Tem que ter cortinas com liberdade para voar de vez em quando.

Tem que ter cheiro permanente de lavanda. É já que não é fácil plantar lavanda por aqui, vale encher todos os cantos com sachês e óleos essenciais.

Tem que ter uma geladeira permanentemente abastecida. Para alimentar as vontades do corpo e as da alma.

Tem que ter algo assando, principalmente nos fins de semana. Um pão, um bolo, um rosbife, uma fornada de biscoitos...

Tem que ter vinho em abundância – do tinto e do branco – porque eu nunca sei qual vou ter vontade de beber.

Tem que ter sol, para eu me sentir viva; e sombra, para me sentir protegida.

Tem que ter um sofá onde a gente afunde e não queira mais levantar.

Tem que ter livros. Tanto os já lidos mil vezes, quanto os que eu nunca li.

Tem que ter filmes. Os que me perturbam e os que me confortam.

Tem que ter música, ora combinando com o clima lá fora, ora com o que está no forno, aqui dentro.

Tem que ter fotos de momentos felizes tatuados no tempo.

Tem que ter ordem suficiente para eu me sentir no comando, mas bagunça o bastante para saber que nunca estou sozinha.

Tem que ter lençóis macios, toalhas do tamanho de um abraço e travesseiros feitos sob medida para a curva do meu pescoço.

Tem que ter mesa posta, com toalha bonita e pratos combinando com o que estiver no forno (ou com quem estiver na rua).

Tem que ter brinquedos espalhados em lugares improváveis para me lembrar o sentido da vida.

Tem que ter quadros com histórias para contar.

Tem que ter abajures. Muitos e em todos os cantos.

Tem que ter velas fáceis, para acender quando der vontade.

Tem que ter você. Senão, eu não me sinto em casa.

Fico aqui me perguntando...

Homens são bichos que vão a guerras (hoje em dia, as mulheres também vão, mas em bem menor escala).

Homens pilotam aviões de caça, dormem em submarinos e explodem bombas amarradas ao próprio corpo.

Homens levam tiros, facadas, são trespassados por baionetas e destroçados por granadas.

Homens têm membros decepados, perdem pedaços de órgãos e recebem placas de metal pelo corpo.

Homens se envolvem em acidentes, têm fraturas expostas, levam centenas de pontos e ficam com cicatrizes que não somem nunca.

E com tudo isso, esses mesmos homens não têm coragem de enfiar uma minúscula agulha na veia e tirar umas poucas
gotas de sangue para fazer um mísero exame!

Francamente...

Espaço para a Luci comentar

Luci, querida, sei que você não tem conseguido "abrir janelas" ultimamente.
Esta aqui, coloquei especialmente pra você.
Beijo!

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Tendência fashion

Ok, pessoal. Eu prometo que nunca mais falo mal de sapatos caramelo.

A bolsa do ladrão

Quem mora em grandes cidades, tem paranóia de assalto. Se essa grande cidade for São Paulo ou o Rio, a paranóia cresce exponencialmente. Não que morar em São Paulo ou no Rio torne as pessoas mais paranóicas (embora torne), mas é que em lugares assim, o perigo é quase palpável. Experimente, por exemplo, perguntar a um paulistano ou carioca se ele já foi assaltado. Se der muita sorte, você encontrará um afortunado que responderá: “ainda não”. Ainda. É uma questão de tempo.

Os assaltos são tantos e tão freqüentes, que as pessoas criam categorias para o fato: “já fui assaltado, mas nunca de carro.”; “assaltado, sim, mas jamais sofri seqüestro-relâmpago”; “graças a Deus, só uma vez, no ônibus”. É assim que funciona.

Pra se defender, a gente tira cópia dos documentos, usa cartão com chip, tem mais de um celular, põe insulfilm no carro, não vai cedo, não volta tarde e segue adotando todo tipo de estratégia que possa minimizar as perdas.

De carro, já me avisaram: nunca leve laptop, nem sonhe em pôr a bolsa no banco da frente, pasta, só no porta-malas, não ostente sacolas! Mas e o insulfilm, pessoal? Ah, com insulfilm é pior ainda, porque os ladrões têm a certeza de que você tem algo a esconder. Mulher sozinha é péssimo, mulher com criança é ainda pior. E mulher acompanhada? Vixxx... mulher acompanhada, nem se fala.

Como não tem jeito mesmo, há alguns anos eu adotei uma idéia que, até agora, só me trouxe benefícios: a bolsa do ladrão. Funciona mais ou menos assim: tenho minha bolsa normal, com aqueles poucos itens básicos de subsistência que toda mulher precisa portar: dois cartões de crédito, identidade, carteira de motorista, documentos do carro, chaves de casa e do carro, celular, talão de cheques, carteirinha de doadora de sangue, da Blockbuster, do supermercado, do clube, de desconto da loja infantil, pente, batom, espelho, palm top, lenços de papel, escova e pasta de dentes, fio dental, remédio para dor de cabeça, drops de hortelã, sal (é. Sal. Eu tenho pressão baixa. É um item de subsistência para mim, por quê? Vai encarar? Um saquinho de sal pesa apenas 1g e mesmo que pesasse 1 Kg, por acaso é você que carrega minha bolsa? Não, né? Então tá!), adoçante, lenços umedecidos para limpar óculos, band-aid, lixa de unha, óculos de grau e de sol, creme para as mãos, perfume e, às vezes, até algum dinheiro.

Essa bolsa geralmente combina com a roupa que estou usando e fica num lugar secreto e discretíssimo, impossível de localizar, a menos que você seja eu. A bolsa do ladrão é preta e fica embaixo do banco do passageiro. Nada muito vistoso, nem muito visível. Afinal, eu não sou boba de dar sopa pro azar, né?

Pois bem. A bolsa do ladrão tem vários dos itens que compõem a bolsa normal, só que tudo falso. Explico-me: um celular antigo, que não funciona; dois batons velhos, rançosos, podres e de uma cor horripilante; um pente quebrado; uma escova de cabelos dura pra burro; uma carteira do Cebolinha que minha filha nunca quis, com talões de cheques de bancos onde eu não tenho mais conta, com a área do nome cortada; cartões magnéticos vencidos de outras pessoas; vitamina C que já ficou verde; balas Soft – daquelas que matam criancinhas sufocadas; um frasco de hidratante do Patrocinador Oficial da Olimpíadas de Inverno de Sarajevo, de 1984, óculos espelhados com uma perna só e dinheirinho do Banco Imobiliário (houve um tempo em que me recomendaram deixar algo entre R$ 20,00 e 50,00 de verdade, na bolsa do ladrão. Eu até coloquei o dinheiro lá, mas acabei precisando dele, usei e nunca mais repus. Até porque, se o ladrão levar meu dinheiro de verdade, que sentido faz ter uma bolsa falsa?).

O grande segredo da bolsa do ladrão é a astúcia. Ela deve ter peso e volume parecidos com os de uma bolsa comum e itens razoavelmente consistentes, de modo que o ladrão leve algum tempo vasculhando seu conteúdo, até descobrir que foi enganado. Um dia, me sugeriram colocar um tijolo dentro da bolsa. Não daria certo. Assim que abrisse o zíper, o ladrão veria o engodo e era capaz até de me dar uma tijolada na cabeça. A bolsa do ladrão tem que ser suficiente para enganar o meliante até o farol abrir e você poder fugir em desabalada carreira.

Ainda não sei se dá certo, mas parece que dá sorte. Eu, pelo menos, tenho a minha há anos e, até agora, não precisei usar nenhuma vez!

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Aparecido

Havia crescido daquele jeito, de forma que não sofria com os dilemas morais da classe média cristã. Sexo fazia parte da sua vida desde que o padrasto, ainda antes dela ficar moça, decidira tomar-lhe o corpo sem pedir licença. Para que outro não lhe faça mal, dissera. Depois dele, outros tantos haviam agido da mesma forma. Ela nunca sentira nada, além de um certo desconforto por causa do peso

Era tão menina, que nem relacionou aquelas invasões à barriga, cada vez mais redonda. Não sabia quem era o pai e nem se interessava. Que diferença faria? Mas o fato foi que, com o passar dos meses, aquele ventre, subitamente vivo, passou a lhe fazer companhia. De um jeito que não entendia direito, gostava de sentir as bolhas flutuando dentro dela.

O parto foi na rua mesmo, de dia mesmo, com a ajuda de alguém que estava passando. Lá pelas tantas, acha que perdeu os sentidos, porque acordou em um lugar muito branco, cheio de gente que a olhava de cima para baixo. Disseram que o menino estava bem. No dia seguinte, avisaram que podia ir embora e que era preciso registrá-lo. Registrar? É. Para ele ser gente.

Aquilo a sensibilizou. “Gente”. Algo que ela própria nunca havia sido. Saiu dali direto para o cartório. Foi perguntando pela rua até encontrar. Um pouco depois, menino nos braços, o tal escrivão quis saber o nome. O meu? Não; o do menino. Ah, João. João de quê? Hein...? João de quê? De onde veio o menino? Veio de mim. Mas como ele apareceu aí? Ah, disse ela, olhos subitamente iluminados, acho que foram os anjos.

Registrou-se João Aparecido dos Anjos. E assim ficou.

Falta de ar

Em um emprego, mais importante do que ficar amiga dos caciques, dos colegas e dos líderes de gangue, é ficar amiga do “çanguebão”. Aprendi isso em quase vinte anos de carreira e, para mim, é regra. Sempre que chego em um trabalho novo, a primeira coisa que faço é detectar e travar amizade com o çanguebão local. E toda agência tem um.

Çanguebão é aquele sujeito encarregado de resolver tudo o que as outras pessoas sempre estão ocupadas ou entediadas demais para resolver. É o cara que vai ao banco, ao correio, busca encomendas nos clientes, leva pacotes de um lado para o outro, troca lâmpadas, troca o garrafão de água, leva os carros pra lavar, enfim... é “o” cara.

Embora nem sempre resolvam os problemas – aliás, muitas vezes não resolvem – eles dão aquela confortável sensação de amparo que toda fêmea tanto anseia sentir.

Quando contei ao nosso çanguebão sobre a triste história do meu pneu, ele estufou o peito, se encheu de brios e disse: “Deixe comigo que eu resolvo isso pra senhora!” Entreguei a chave e os documentos do carro no nano segundo seguinte, antes que ele mudasse de idéia e suspirei, aliviada, sentindo o coração flutuar.

Cerca de meia hora depois, ele voltou, disse que o borracheiro havia desamassado a roda, colocado um “vedante” e que aquilo deveria resolver. Minha vida e meu carro, novos em folha, por apenas dérreau. Paguei alegremente e dei graças a Deus por todos os çanguebão do mundo. Adicionalmente, ele ainda informou que se não resolvesse, que eu mandasse colocar uma câmara no meu pneu, originalmente sem câmara.

_ Se fizer isso, a senhora nunca mais vai ter problema. A única coisa é que o pneu vai ficar um pouquinho mais pesado e na hora de fazer o balanceamento, a sra. precisa pedir pra pôr um pouco mais de peso no outro pneu, pra compensar, entende?
_ Perfeitamente.

Hoje, só por desencargo de consciência, parei no posto e pedi ao simpático frentista que calibrasse meus pneus, com atenção especial ao dianteiro direito.
_ E aí? Tava bom?
_ Tava não, dona.
_ Quantas libras?
_ Seis.
_ Seis era o que faltava para completar?
_ Não, dona. Seis era o que tinha.

Volto a suspeitar que talvez o problema não esteja resolvido.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Desafios alfabéticos

Quando a gente entra na fase de pré-alfabetização, o mundo ganha uma nova perspectiva.

_ Com que letra começa pastel?

_ Com pê. O mesmo pê de Pedro.

_ Ah!

_ Sabe o que mais começa com pê? Pneu, poste, penico, pirulito...

_ Ah, mamãe, que droga!

_ Droga por quê?

_ Porque agora você “pegou” todas as palavras com pê e eu fiquei sem nenhuma.

_ Imagina, filho. Tem tantas palavras com pê no mundo...

_ É?

_ Claro que é. Só que eu não vou falar pra você não achar que eu “roubei” suas palavras. Vou fazer “você” falar, tá?

_ Tá.

_ Aqueles moços com quem se casaram a Branca de Neve, a Bela Adormecida e a Cinderela.

_ Príncipes!

_ Isso. Príncipe é com pê. E aquela coisa dura que quando a gente chuta, dói o dedão?

_ Pedra!

_ Isso. Também é com pê. E bicho que faz quá?

_ Pato.

_ Muito bem! Outro pê.

_ Mamãe, vamos mudar de letra?

_ Vamos.

_ Só que agora, eu faço as perguntas e você tem que dar as respostas certas.

_ Combinado.

_ A letra é agá.

_ Pôxa, filho... justo agá? O agá é difícil porque é uma letra muda.

_ Mas eu sei uma! Eu sei, eu sei!

_ Tá bom. Então, dá uma pista para eu tentar adivinhar.

_ É um bicho.

_ Bicho com agá... vamos ver... hiena?

_ Kkkkk! Errou!

_ Hipopótamo?

_ Claro que não, mamãe. Hipopótamo é com “i”. Brinca direito!

_ Eu tô brincando! E hipopótamo não é com “i”, não, mocinho. Foi por isso que eu disse que o agá era difícil. Quer trocar de letra?

_ Não. O meu bicho com agá é um bicho com penas

_ Bicho com penas e com agá... caramba, filho. Existe isso? Deixa eu pensar... com penas... com agá... desisto!

_ Kkkkk! Quer dizer que eu ganhei?

_ Ganhou. De lavada. Agora me diz, qual é o bicho?

_ Agalinha!

Uh, boy!

Só uma coisa é pior do que acordar de ressaca:
acordar de ressaca sem ter bebido na noite anterior!

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Tendências em moda masculina

Não é de hoje que os italianos são reconhecidos internacionalmente por seu charme e bom gosto.

Grifes como Prada, Armani, Gucci, Valentino, Versace e Dolce & Gabbana pipocam por todo o mundo civilizado, glamourosas e inquestionáveis, para quem tiver peito (e bolso) para se aventurar.

Nas esquinas de Roma, por exemplo, não é raro flagrar grupinhos de homens recostados em suas lambretas, conversando tranqüilamente a bordo de ternos impecáveis de Ermenegildo Zegna e de deliciosos sapatos de Salvatore Ferragamo.

A Itália excede tanto quando o assunto é moda, que pode se dar ao luxo de divulgar que quem desenhou os uniformes da Guarda Suíça do Vaticano foi ninguém menos que ele, Michelangelo, aqueeele, do Davi, do teto da Capela Sistina... Está certo que faz alguns séculos, mas, e daí?

E já que italiano sabe tudo de moda, o blog Pensatriz enviou, com exclusividade, uma correspondente internacional à meca da elegância masculina para trazer, em primeira mão, flagrantes daquilo que será a última palavra em tendência de cor para o próximo verão. Adoradores de mocassins caramelo, preparai-vos!

Afffff!

Hábitos e atitudes

Mãe é um bicho engraçado.
É um bicho que sempre que freia abruptamente,

leva a mão ao banco do passageiro, num gesto de proteção.
Mesmo que esteja sozinha no carro.

terça-feira, 17 de abril de 2007

O ogro e a coletividade

Como ex-fumante, eu respeito gente que fuma. Respeito, inclusive, o direito de fumarem em locais públicos sem serem olhados como se tivessem alguma doença infecto-contagiosa crônica. O que eu não consigo respeitar nessa vida, é a cavalgadura do meu vizinho.

Trata-se de um velho gordo, de unhas dos pés imensas (sei, porque já vi a criatura de sandálias. Antes não tivesse visto), bigode amarelo de nicotina, combinando com as pontas dos dedos da mão direita, igualmente amarelas, e dentes... preciso mencionar os dentes? Não, né? Então tá.

Apenas para completar o quadro, esse vizinho usa calças presas por um cinto afivelado no primeiro furo, acomodadas na curva inferior da barriga imensa e camisas da época em que ele cabia nelas.

Não. Eu não moro em um cortiço. O vizinho é apenas um viúvo aposentado, cujos filhos saíram de casa e a conta bancária, certamente, já viu dias melhores. Deve precisar economizar, o pobre. Certamente economiza em roupas, em shampoo, em dentista e em tesourinha de unhas. Mas não economiza em cigarros.

Qualquer ser humano minimamente civilizado sabe que é de péssimo gosto fumar em elevador. Primeiro, porque trata-se de um cubículo mal arejado que fatalmente ficará fedendo por horas a fio. Segundo, porque é de um egoísmo inominável com o resto do mundo.

Pois lá estava eu, em meu bom humor contagiante, tentando aproveitar minha hora e meia de almoço para aplacar a culpa e dar umas migalhas de atenção aos meus filhos. Missão cumprida, sirene já devidamente acoplada no capô do carro para voltar ao trabalho em tempo recorde. Chamo o elevador, a porta se abre e lá está ele: o ogro do vizinho. Ele faz um movimento discreto com uma das mãos e bastam dois segundos para eu ver que será um longo trajeto até a garagem.

O elevador de 1,5 x 1,5m já está empesteado de cheiro de cigarro vagabundo (e cigarro bom cheira bem, por acaso?) e de trás da imensa massa gordurosa que é o sujeito, sobe uma fumacinha inconfundível. Fecho a cara e me arrependo de ter dado “boa tarde”. Boa tarde o caramba, seu porco egoísta! Devolve aqui meu “boa tarde” e vai se danar!

Fico imaginando se ele acha mesmo que o “proibido fumar” vale apenas para quando houver outras pessoas presentes. Será que acha que “o que os olhos não vêem, o nariz não sente”? Olho pra ele e tusso sem o menor constrangimento. Em seguida, faço careta e tampo o nariz com a mão. Inabalável, o Shrek faz cara de paisagem.

Deu vontade e dizer, “ó, não disfarça, não, que eu to vendo a fumacinha atrás de você!”; “Cara-de-pau! Egoísta! Fedidão! Não dava para esperar até chegar lá embaixo, não?”; “Por que não fuma no seu cafofo?”; “Por que não vai cortar essas unhas dos pés, hein?”

O elevador chega ao térreo e ele finalmente desce. Eu sou obrigada a agüentar o mau cheiro até a garagem. Entro no carro com raiva da vida, do velho, do cigarro do velho e do trânsito que ainda vou pegar. Mas a raiva maior é de não ter dito nada. E agora, quem tem que escutar são vocês, humpf!

Triz

Hoje, eu não matei um motoqueiro.
Mas foi por pouco.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

A difícil arte de se tornar uma mulher coerente

_ Filha, senta direito.
_ Mastiga de boca fechada.
_ Desembaraça esse cabelo, menina. Essa cabeça está parecendo um ninho de periquito selvagem!
_ O quê? E você tem coragem de me dizer que está penteada?
_ Pára de roer unha.
_ Você já escovou os dentes? Então, escova de novo.
_ Filha, aprenda uma coisa: quando uma moça bem educada come, a gente não ouve os talheres entrarem, nem saírem da sua boca.
_ Quem é esse sujeitinho de voz grossa que ligou pra cá? Do grupo? De que grupo? Grupo de quê? E por que ele já fala grosso?
_ Senta direito, menina.
_ E põe essas pernas para baixo! Você parece um polvo!
_ Mocinhas elegantes usam pouco perfume, viu?
_ Você não vai passar perfume?
_ Credo! Quem te deu esse desodorante fedido? Ah, fui eu, é?
_ Não. Essa blusa não te deixa gorda.
_ Não. Você não fica de perna fina com essa calça.
_ Claro que essa saia deixa o bumbum pra trás! Onde você queria que o bumbum estivesse?!
_ Damas chiquérrimas, elegantíssimas como nós, nunca deixam comida no prato.
_ Cuidado para não comer demais, hein?
_ Tire os cotovelos da mesa, filha.
_ Você já é uma mocinha, não pode sair na rua desse jeito.
_ O quê? Você vai ter coragem de sair na rua desse jeito?
_ Lendo na hora do almoço? Nem pensar!
_ O guardanapo está no colo?
_ Olha a postura, criatura!
_ Já ligou agradecendo?
_ Já não está na hora de desligar esse telefone?
_ Não. Não pode brigar com o seu irmão porque você já é grande.
_ Não. Não pode ficar vendo TV porque você ainda é pequena.
_ Ninguém vai ver essa espinha, eu garanto.
_ Não. A espinha não parece um vulcão no meio do seu rosto.
_ Pode. Pode usar minha maquiagem corretiva.
_ Mas nem sonhe em tocar no meu rímel.
_ Juju, Tatá e Cacá é animal, vegetal ou mineral?
_ Não. Elas não são mais bonitas que você. Tenho. Tenho certeza. Absoluta.
_ Já fez a lição? “Toda” a lição? Não tem nada pra adiantar?
_ Cinema? Com quem? Aquele sujeitinho da voz grossa vai?
_ Banho? Nessa velocidade? Se eu escolher três lugares à revelia para cheirar, você me garante que vou sentir cheiro de sabonete, ou prefere voltar lá no chuveiro e dar mais uns toques?
_ Puxa essa blusa pra baixo!
_ Puxa essa calça pra cima!
_ De tênis? De novo?
_ É claro que eu te entendo.
_ Juro por Deus que eu não te entendo!

Algo no ar

Sabe aquele perfume que eu comprei pra você?
Aquele, que eu parei um homem na rua para perguntar o nome e você ficou com ciúme?
E que todo mundo diz que é divino e você desconversa, só para não dizer o nome?
E que não quer que ninguém tenha igual?
E que eu comprei um novo quando viajamos, só de medo que o seu acabasse?
E que tem tudo a ver com você?

Pois é. De fato, é um perfume muito bom.
Bom e raro.
Seria perturbador encontrá-lo por aí, em outro pescoço.
Ou em outro carro,
Ou em outra camisa,
Ou em outra companhia.

Sabe aquele perfume, que assombrava o cinto de segurança do meu carro?
Descobri que ele é ainda melhor do que eu me lembrava.
Principalmente no seu pescoço
E no seu peito,
E nas suas roupas,
E nos nossos travesseiros,
E na minha vida.

sábado, 14 de abril de 2007

Estado de graça

Estou sim.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

O que fazer?

Numa sexta-feira 13 que também é Dia do Beijo?

Outra dúvida

Você gostava mais do que eu era antes. Eu também.
Eu g
ostava mais do que você era antes. Você também.
A pergunta é: será que a gente consegue voltar a ser
o que era antes?

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Eu vou me matar ali e já volto – parte 1

Aí, um belo dia, os mocassins cor de caramelo caíram no gosto dos brasileiros. Os de bico quadrado, então, nem se fala (claro que me refiro aos calçados, não aos homens). A moda veio, e os pobres machos, que têm tão pouco com o que variar, abraçaram a novidade com as duas pernas. E por um punhado de anos, foi um desfile interminável de homens de mocassins caramelo com jeans, com blazers, com calças e sarja e até com ternos. Detalhe: como nem os mais loucos estilistas tiveram coragem de fazer ternos da cor dos sapatos (graças a Deus), via-se uma seqüência de ternos beges, marrons e até azuis com os benditos mocassins caramelo. Alguns homens, crentes que estavam abafando, chegavam ao cúmulo de combinar os sapatos caramelo com cintos da mesma cor.

A gente se arrepiava, achava horrível, mas era moda, né? Fazer o quê? Que atire a primeira meia Dancin’Days a mulherzinha que nunca usou ombreiras ou as indefensáveis saias balonê. Afff!

Só que a moda passou, gente. Como dizia vovó, “não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe”. Passou, mas, aparentemente, esqueceram de avisar um punhado de homens por aí, que insiste em continuar usando os malditos mocassins caramelo, para nosso desespero. Transportando para uma escala feminina, era como se a gente insistisse em sair às ruas de calça semibag, só porque cismou que fica bem nelas. Só que não há mulher no mundo que fique bem num troço daqueles. Nunca houve e nunca vai haver. Assim como não há homem que se salve a bordo de um mocassim caramelo.

Ainda hoje, quando fui levar meu filho à escola, cruzei com dezenas de mães e um punhado de pais empenhados na mesma empreitada. Já no estacionamento, vejo um pai elegante, quarenta e poucos anos, cabelos bem cortados, barba bem feita, terno Armani cinza-chumbo, gravata de muito bom gosto e... sapatos caramelo! Quase tropecei de desgosto. Que estrago, Xisus. Que destruição na aparência de uma criatura com tanto potencial. Será que não há uma mulher minimamente informada na vida desse pobre para dar umas dicas? Será que todos os sapatos pretos do coitado estavam no sapateiro? Fui andando para o carro, cabisbaixa, admirando minhas pantufas de pelúcia pink. Só faltava estar de meias brancas...

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Reunião na escolinha, a Missão

Ser mãe é ter culpa. Acho que a culpa nasce no parto, junto com o bebê, se fixa na boca do estômago e fica morando lá para sempre. Mãe tem culpa de tudo: de trabalhar muito, de chegar tarde, de sair cedo, de fazer ginástica bem na hora da Maratona Backyardigans, de fazer as unhas no sábado de manhã, de sair com as amigas que não vê à dois meses, de não ir a todas as reuniões da escolinha (inclusive naquelas marcadas para as dez da manhã!)...

Às reuniões, eu sempre dou um jeito de ir. Quando é humanamente impossível, mando minha mais fiel escudeira e representante master: minha mãe.

Essa semana teve reunião na escola do meu filho. E mesmo sabendo que aquela seria rigorosamente igual a todas as outras, mesmo sabendo que não haveria nenhuma novidade e que seriam ditas exatamente as mesmas coisas, lá fui eu.

Incrível como as professoras, esgotadas depois de dois turnos de aula para anjinhos iguais ou piores que o meu, sempre têm o cuidado de avisar que aquela “é uma reunião para falar do grupo, como um todo, e que assuntos específicos de cada criança deverão ser tratados em reuniões separadas, previamente agendadas com a coordenação.” Incrível como algumas mães nunca escutam.

_ ... para esse segundo bimestre, nosso objetivo é trabalhar com mais ênfase a grafia dos números e...
_ Professora!
_ Sim, mãe do Rafinha _ responde a professora, num suspiro.
_ Eu estou tendo o maior problema com o Rafinha, sabe?
_ A senhora não gostaria de falar sobre isso depois da reunião?
_ Não, sabe o que é? É até melhor comentar porque talvez outras mães estejam com o mesmo problema...

(Lá vem! Deus, dai-me paciência porque quando chegar em casa, eu ainda tenho que mimar as crianças, tomar banho, jantar e fazer aquele roteiro freelance até uma da manhã!)

_ É que o Rafinha sempre briga comigo porque o meu “2” é sem barriguinha e ele insiste que o “2” tem que ter barriguinha!
_ Entendo...
_ E eu explico pra ele que o meu “2” é “2” do mesmo jeito, mas ele diz que não e que eu estou ensinando errado.

(E por que você não aprende a fazer um “2” com barriguinha pro pentelho do seu filho parar de encher o saco, sua anta?)

_ O “7” também é um problema porque o meu “7” não tem tracinho no meio, sabe? E ele diz que o “7” tem que ter tracinho.
_ É que aqui, na escola, nós ensinamos as crianças a fazerem o “7” com tracinho para diferenciá-lo do “1”.
_ Eu sei, mas é que quando eu estudei, aprendi a fazer o “7” sem tracinho, sabe? E agora tenho uma certa dificuldade e...

(Ai, Xisus, apaga a luz! Vamos fazer uma vaquinha e comprar um caderno de caligrafia pra essa ostra aprender a fazer “2” com barriguinha e “7” com tracinho e ensinar o filho dela DIREITO?)

Quando finalmente a mãe do Rafinha se satisfaz e eu penso que a coisa voltará a evoluir, a mãe do Tomás levanta a mão. A professora suspira discretamente.

_ Pois não.
_ Então, o Tomás não tem problema com os números, mas eu queria saber se ele tem feito cocô aqui.
_ Eu não tenho essa informação, senhora. Mas posso perguntar às auxiliares, se elas têm visto o Tomás no banheiro.
_ É, porque em casa, ele nunca faz cocô e quando eu digo que ele só vai levantar da privada quando fizer, ele diz que já fez na escola, e eu fico preocupada porque o médico disse que é muito importante ir ao banheiro todo dia e...

(E eu lá, tentando me equilibrar naquela cadeira minúscula e me perguntando o quê, em nome de Deus, tenho a ver com o cocô do Tomás.)

Lá pelas tantas, digo a professora que ainda tenho outro compromisso e pergunto se posso olhar as pastas com os trabalhos do meu filho. Resignada, ela faz sinal afirmativo com a cabeça. Disparo para a mesa, abro todas as pastas, mio baixinho com o talento do infante e dou a missão por concluída. Discretamente, pego a bolsa e aceno silenciosamente para a professora, que ergue as sobrancelhas em resposta.

Enquanto me afasto, ouço a mãe da Lia em uma discussão acalorada com o pai do Robert e a professora. Afinal de contas, o Power Ranger amarelo é menino ou menina?

Bolo na Bolsa

Hoje tem chá com bolo e histórias da vovó no Bolsa de Mulher.
Por volta das cinco horas, pode ser uma boa pedida.

terça-feira, 10 de abril de 2007

A razão do meu (des)afeto

Antes que chovam pedras de fãs fervorosos, me chamando de fútil e preconceituosa, deixa eu mencionar que o texto abaixo refere-se a uma implicância minha, pessoal e intransferível e que não tenho a menor dúvida de que há quem veja nela uma artista espetacular, com dezenas de atributos e adjetivos dos mais positivos.

Posto isso, queria dizer que hoje é um dia muito importante. Histórico, até. Porque hoje, exatamente nesta data, eu descobri que há uma cantora que odeio MAIS que a Paula Toller. Para aqueles que liam meus falecidos blogs, não é novidade que acho a moça do Q.I. de Abelha uma coisinha boba, sem voz, sem carisma e sem graça e que tinha vontade de morrer quando ela fazia dueto com Jorge Ben (sou de antes dele virar BenJor, lamento), cantando:

Estchi chamba, que é mixtchu de maracatchu...
É chamba de pretchu velhu, samba de pretchu-tchu...

Por que eu tinha vontade de morrer? Ora, por vários motivos. Primeiro, porque já não vou com a cara dela cantando nada. Segundo, porque eu não suporto adultos cantando tchinémneném.

O novo alvo do meu desprazer é Mart’nalia. Segundo biografia da própria, o nome é uma trombada do nome do pai – Martinho (da Vila), com a mãe, Anália. Santa imaginação, Batman...

Mais uma vez, voltando para casa, do almoço, sintonizada na rádio habitual, começo a ouvir coisas como:

É que eu chambo djireitchinho, assim bem miudjinho, chê não chabe acompanhar
Vou arrancar chua chaia e pôr no meu cabide chó
pra pendurar.
Quero ver chi vochê tem atjitudje e chi vai encarar

Comecei a estremecer. Cospe logo essa pitomba, caramba! Fala direito mulher! Alguém arruma uma fonoaudióloga pra ela! Em vão. Quase bati o carro no ímpeto de mudar de estação. Infelizmente, voltei rápido demais para a estação habitual, a tempo de ouvir os últimos acordes: “Quero ver chi vochê tem atjitudje e che vai encaraaaaar”.

Pelamordedeus! Xisus, apaga a luz, que ninguém merece.

E já que o momento é de implicância explícita, alguém pode me explicar como é que aquilo lava o cabelo? Se descobrir, favor passar a receita para o Djavan, sim? Aff!

A lasca do rebotalho*

Há cerca de uma semana, minha casa estava uma verdadeira enfermaria, com vários soldados abatidos por uma virose perniciosa. Sabendo da situação, uma amiga desejou melhoras aos combalidos e me deu os parabéns pela sorte de ter resistido ao surto.

_ Ora _ disse eu, poderosa. _ Foi fácil! Doença de filho não pega em mãe!

Ela me olhou, entre incrédula e perplexa.
_ Ah, é?
_ Claro que é, menina. Você não sabia?

Acabo de descobrir que minha crença era falsa. Mãe pega, sim, doença de filho. Só não pega ao mesmo tempo, para poder cuidar das crias. Aaaaaaaiiii!

* O título do post é em homenagem à minha avó, não aquela, a outra, que sempre usava essa expressão. Rebotalho, pelo dicionário, é "o que sobra depois de escolhido e retirado o melhor e o mais aproveitável"; "refugo"; "qualquer coisa inútil e sem valor".
Se o rebotalho sozinho já é isso, imagine a lasca!

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Lição

Minha vovó suíça já dizia:
"Uma verdadeira dama deve saber sempre a hora de se retirar" e
"as pessoas devem deixar saudade e não alívio."
Acho que, finalmente, estou aprendendo.

Páscoa: uma nova abordagem

Este ano eu não fiz pegadas de coelho pela casa e nem escondi ovinhos.

_ Mamãe?
_ Sim, meu anjinho...
_ É hoje que é a Páscoa?
_ Quase. Hoje é Sexta-feira Santa. A Páscoa é daqui a dois dias.
_ E quando é que o coelho vai esconder os ovinhos?
_ Filho, o dia oficial de esconder os ovinhos é domingo, mas entenda que o coelho pode ter algo novo em mente para este ano...
_ Comassim?
_ Bem, é porque este ano, a gente viajou. Aqui, onde estamos, é longe, tem estrada de terra, o coelho pode se perder ou pode ficar com medo de sujar as patinhas de lama.
_ Dããããns!
_ “Dãns” por que, meu filho?
_ Porque coelho da Páscoa é que nem Papai Noel, né, mamãe? Ele não se perde NUNCA.
_ É. Eu sei, mas digamos que talvez o coelho prefira uma abordagem mais genérica da Páscoa para este ano.
_ O que é “abordagem genérica”?
_ É. Talvez ele prefira te dar um ovão grandão em vez de muuuuitos ovinhos pequenininhos.
_ Mas eu sou pequeno! Eu não quero um ovão grandão!
_ Você não é pequeno, não. Você é o Montanha da mamãe.
_ Então, quanto maior a pessoa, maior o ovo?
_ Teoricamente, sim.
_ E por que é que você nunca ganha um ovão imenso?
_ Primeiro, porque a mamãe não é tãããão grande assim. Depois, porque não quero engordar.
...
_ Mas o coelho VAI esconder os ovinhos no domingo, né, mamãe?
_ Bem, filho, eu não sei. É que aqui tem cachorro, sabe? Talvez o coelho tenha medo que os cachorros comam os seus ovos.
_ Eles não iam fazer uma coisa dessas.
_ E por que não?
_ Porque até os cachorros sabem que os ovos de Páscoa são das crianças! Os cachorros vão comer os “ossos” de Páscoa e não os ovos!
_ Filho, a mamãe não quer que você fique triste se, excepcionalmente, o coelho não esconder ovos, tá?
_ Tá
...

Ele ganhou mais de uma dezena de ovos de várias pessoas da família. Ovos de todos os tamanhos e uns cinqüenta ovinhos pequenos, todos arrumados em um ninho, mas não escondidos. Quando viu os ovos pequenos, disse:

_ Olha aqui! Olha os ovos de esconder!
_ Não falei, filho? O coelho não é nem louco de esquecer de você. Ele só não teve tempo de esconder os ovinhos.
_ Hmmmm... e as pegadas?
_ O coelho também não deixou pegadas este ano, meu amor. É um coelho educado, deve ter limpado os pés antes de entrar.
_ Mamãe...
_ Sim, filho.
_ Muito preguiçoso, esse coelho, hein? Muito mesmo.

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Se eu quiser falar com Deus...

Para os novos, os esquecidos ou os menos fanáticos, eu gosto de falar com Ele assim, sem intermediários. Para quem já conhece, continua tudo igual.

_ Deus?
_ Sim, Ana.
_ Tudo bem aí?
_ Tudo, Ana. Fala, que Eu estou ocupado, preparando a festinha da ressurreição do Meu filho.
_ Pôxa! Você é bacana mesmo, hein? Todo mundo preocupado com festinha de aniversário e Você preparando uma festa de ressurreição... não é à toa que te chamam de Todo Poderoso.
_ Não Me adula, Ana. Eu sei que você só Me procura quando quer alguma coisa. Manda!
_ Então... sabe o que é?
_ Claro que sei. Eu sou onisciente, lembra?
_ Então, nem preciso pedir?
_ Claro que precisa. É sempre bom formalizar as coisas, né?
_ É que eu queria reiterar aquele meu pedido para ser feliz, sabe?
_ Sei...
_ Então... dá pra ser?
_ Pô, Ana! Você é tãããão exigente. Essa eterna insatisfação humana Me cansa um pouco, sabe? Estou fazendo o possível! Você é saudável, tem dois filhos espetaculares, trabalha num lugar legal, tem seus freelas, tem sua mãe pertinho de você... o que MAIS você quer?
_ Ué, Deus, Você não era onisciente?
_ Eu SOU onisciente, mocinha! Olha o respeito! Essa pergunta é retórica, entende? Meramente retórica!
_ Então tá. Desculpa... mas, voltando ao assunto, eu queria ser “loucamente” feliz, lembra?
_ É aquele moço, né?
_ O próprio!
_ Aquele, que você dizia que tinha que ser “"inteligente & culto & educado & maduro & articulado & sedutor & paciente & carinhoso & atencioso & fiel & adorar te mimar & morrer de paixão por você..." e que concluía dizendo que "não é ‘ou’. É ‘&’"?

_ Caramba! Que memória de elefante, hein?
_ Ana, mais uma gracinha e a gente encerra a conversa.
_ Puxa... desculpa de novo.
_ Então... Eu estou trabalhando no moço. Tenha paciência.
_ Mas, Deus...
_ Paciência, Ana. Você é muito ansiosa.
_ É... eu sei. Mas, ele gosta de mim?
_ Você sabe que sim.
_ E ele sabe que eu gosto dele, né?
_ Sabe, Ana. Ele sabe, seus leitores sabem e toda a torcida do Mengão sabe. Você faz questão de deixar isso claro todos os dias da sua vida. Só se o moço fosse louco & cego & surdo para não perceber. E não é “ou”; é “&”!
_ Então POR QUE A GENTE NÃO CONSEGUE SER LOUCAMENTE FELIZ?
_ Porque o conceito de felicidade é algo muito mais complexo que isso. Felicidade é uma sensação de plenitude que demanda equilíbrio em diversos setores da vida e você sabe que não é o que está acontecendo, no momento.
_ Eu sei, Deus. Mas não é mais fácil “equilibrar” esses setores ao lado de alguém que a gente gosta, em vez de sozinho? Não é infinitamente mais fácil junto do que separado?
_ Essa é a SUA forma de ver, Ana. Talvez ele pense diferente.
_ Mas Você bem que podia me dar uma forcinha, né? Sei lá... aproveita o espírito de Páscoa, pega o gancho nesse mote da Ressurreição e põe o moço de novo no meu caminho...
_ Tá bom, Ana. Eu vou ver o que posso fazer.
_ Mas Você não é onipotente?
_ E você é insistente! Afff... ninguém merece uma mulher obstinada assim. Façamos o seguinte: Eu vou jogar uns raios de luz na cabeça do moço nesses dias, tá? Vou fazê-lo ver que ninguém será capaz de fazê-lo tão feliz quanto você e vice versa. "Loucamente" feliz, como você fala. Só assim, você me dá sossego.
_ Tá, mas... e depois?
_ Depois, é com vocês.
...
_ Deus?
_ O que foi agora, Ana? Desse jeito, a festa de ressurreição do moleque não fica pronta!
_ Obrigada.
_ De nada, mocinha. Você sabe o que tem que fazer, né?
_ Sei, sim. Tenho que fazer por merecer.

No meio do caminho havia uma cadeira...

O lugar onde eu trabalho é charmoso, meu computador é novo, minha mesa é ampla e minha cadeira é confortável. Só que ela fica na passagem. Por mais que eu puxe a danada para perto da mesa, continua meio na passagem. E como algumas pessoas parecem não ter noção dos limites do próprio corpo, levo cutucões o dia inteiro. E ninguém NUNCA parece perceber. Nunca, nem por uma vez, viraram para falar,"pô, Ana, desculpa aí, foi mal!"

Um dia, vou me rebelar. Um dia, hei de me levantar, pegar o distraído pelo pescoço, dar um ippon nele e gritar, docemente:
_ Você não notou que esbarrou na minha cadeira, caramba? Não deu pra perceber que me deu um teco daqueles? Que quase me derruba em cima do teclado?

Meleca, viu? Ainda bem que eu sou essa pessoinha doce e bem humorada...

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Páscoa na Bolsa

Hoje tem coluna minha com aventuras e desventuras familiares ocorridas na Páscoa, no Bolsa de Mulher. Apareçam.

Entendimento

Eu não entendo seu prazos, nem seus tempos.
Não entendo seus humores, nem seu silêncio.
Não entendo seus motivos e raramente entendo seus argumentos.
Não entendo suas faltas, nem suas carências.
Não entendo suas demandas e muito menos os seus ciúmes.
E mesmo entendendo quase nada, eu gosto tanto de você.
Vai entender...

terça-feira, 3 de abril de 2007

A Gordinha de Óculos e a Gordinha de Camisola

Aí, eu fui ao cinema ver Scoop, o novo filme do Woody Allen. Estava empenhada na missão, focada, atenta, dei o melhor de mim, mas na hora H, não senti nada. Ou pior, senti. Senti que já tinha visto aquele filme antes. Se não me engano, do próprio Woody Allen, alguns anos atrás. Se não me engano, o embuste anterior se chamava O Escorpião de Jade. Mas esse post não é para discutir Woody Allen, até porque todos nós temos mais o que fazer e não vamos mudar de opinião, por mais que outros tentem nos persuadir do contrário, certo? Aliás, isso vale para quase tudo na vida, inclusive para o que vou dizer em seguida.

O tema deste post são as loiras gordinhas que os homens amam. Alguém já parou para pensar? A gente se mata, passa fome, se priva de chocolate, nada até a África ida e volta, faz ioga, ginástica localizada, pilates, lipoaspiração, drenagem linfática, toma chá verde até mudar de cor, toma sol, tudo para ficar com o corpinho remotamente parecido com o da Gisele Bundchen e no fim, o que eles gostam mesmo é das roliças, de carnes macias. O primeiro exemplo é ela, justamente a protagonista do filme do Woody Allen: a maravilhosa, saborosa, voluptuosa, o sonho erótico de dez entre dez homens contemporâneos, Scarlett Johansson. Fui ver “tudo aquilo” no filme e confesso que saí sem entender. Na tela, de todos os ângulos para quem quisesse reparar, nada mais que uma loirinha gorducha, usando os piores óculos e as piores roupas do mundo. Cheguei ao trabalho e, inocentemente, comentei minhas impressões. Quase fui morta.

_ Ana, você está louca? Está fora de si? A Scarlett Johansson é espetacular! Es-pe-ta-cu-lar, entendeu?
_ É? Então não devo ter entendido, porque não achei nada disso.
_ Ana, rélôu! Ela foi eleita simplesmente “A Mulher Mais Sexy do Mundo”. Você sabe o que é isso?
_ Porque ela é peituda?
_ Não, Ana. Porque ela é sensacional. O mundo inteiro acha!
_ O mundo inteiro, é? E que “mundo” é esse? Quem fez essa eleição? Qual foi a amostra?
_ Ana, você não tem o “direito” de achar a Scarlett Johansson feia.
_ Eu não disse que ela é feia. Falei que é sem graça, bocuda e gordinha.
_ Gordinha?????????? Ela é gostosérrima! _ disse ele, girando sobre os calcanhares e pisando fundo em sinal de protesto.

Outro exemplo emblemático é aquela inglesinha, a Dido. Tem voz boa, sem dúvida. É boa intérprete, canta direitinho, mas está longe de ser um símbolo sexual. Pois não é que eu tive que agüentar meu namorado suspirando insistentemente enquanto a gordinha, de bracinho flácido em riste, cantava: “Oh, I am what I am; I do what I want, but IIIIIIIIIII can't hiiiii-iiiiiide; And I won't go, I won't sleep, I can't breathe until you're resting here with me!” E quando pressionei:

_ Que baba é essa, escorrendo do cantinho da sua boca?
_ Ahn? Baba?
_ É. Essa babinha aí.
_ Ah, é que a Dido é uma gracinha, né?
_ Gracinha? Essa gordinha de camisola?
_ Ô, Ana, deixa de ser implicante. Olha como a moça canta bem.
_ Canta, sem dúvida, mas não é disso que a gente está falando, é?
_ Ela não é gordinha.
_ É.
_ Não é, Ana. É que a definição do vídeo está em “wide screen”. Isso distorce a imagem. Deixa eu colocar em normal pra você ver. Pronto. Viu?
_ Vi.
_ E?
_ Gordinha.
_ Ah, Ana, francamente. Você está com inveja porque ela é uma gracinha.
_ Inveja? Inveja, eu? Meu cabelo até é parecido com o dela (só que eu não uso franjinha porque já passei da idade)! Por que eu teria inveja de uma gordinha de camisola? Só porque você está babando? Eu posso facilmente engordar dez quilos, comprar uma camisolinha pink e ficar gritando de bracinho pra cima.

Em vão. Tudo em vão. Basta uma loira gordinha aparecer para eles caírem de quatro. Para que não digam que estou implicando, entrei hoje no site da Dido para pegar uma foto e vejam o que achei:

Gordinha. Humpf!

Dilema

Faz quase três semanas que preciso colocar cerca de dez libras de ar no pneu dianteiro direito do meu carro, duas vezes por semana. Começo a suspeitar de que talvez haja algo errado. Será? Da última vez, por segurança, coloquei cinco libras além da calibragem normal, só para garantir. Rá! Esse pneu traiçoeiro não contava com a minha astúcia!

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Test-Drive

É, torcida brasileira. Subi na vida.

Agora, minha glamourosa rotina envolve visitar os headquarters de uma montadora de veículos que são objetos de desejo de grande parte dos machos 4x4 de plantão (e daqueles que não são tããããão 4x4 assim, mas que compram lama sintética e colam adesivos no carro só pra dar aquele ar sensualmente selvagem de aventureiro off-road).

O mundo dos rallys é um universo paralelo; uma realidade tão distante quanto a Lua. Um mundo cheio de suor, adrenalina, pernilongos e aventura. Quem gosta, não sabe viver sem. Quem não gosta... bem, isso não vem ao caso.

Quanto a mim, adoro ver as fotos, mas não me identifico. Apesar de admirar
a Flora, a Fauna e a Primavera, meu espírito aventureiro se resume a uma ida ao zoológico, de preferência no Central Park. Sou um bicho de cidade, que aprecia cinema, esmalte, vodca, usa lente de contato e saltos altos.

Chego à reunião, acompanhada da mocinha do atendimento, que se apressa em me apresentar:
_ Oi, cliente. Essa é a Ana Téjo. É ela quem vai escrever seus textos daqui pra frente.

Ele me olha de cima a baixo e ergue a sobrancelha direita.
_ Ela?
_ É!
_ Mas... quais textos?
_ Todo o conteúdo de manutenção do seu site daqui para a frente, será criação dela.
_ Dela?
_ É _ insiste a mocinha, meio exasperada.

O cliente se vira para mim, determinado a me desmascarar.
_ Você já trabalhou com automóveis, Ana?
_ Ôôô _ respondi, profissional.
_ De que tipo?
_ Dos mais diversos. Estou há algum tempo nessa área, sabe? Não sei se devia dizer isso, mas eu participei do lançamento do Fiat Tempra, lembra? Aqueeeele, cuja trilha era uma música do Ivan Lins... Ah, quando você nasceu o Tempra já tinha saído de linha? Entendo... Eu também já fiz campanha de caminhões para Mercedes Cabina Avançada; trabalhei no lançamento do Classe A, fiz campanha para Harley-Davidson...
_ Você fez campanha para a Harley?
_ Fiz! Sei tudo sobre Fat Boy, Road King, Electra, Night Train...

Percebi que ele começou a me olhar diferente, meio incrédulo, talvez.
_ E... quando se envolveu com esses "produtos", você... chegou a testá-los?
_ "Testá-los"... em que sentido? _ perguntei, estremecendo.
_ Você guiou algum deles?
_ O Tempra! _ respondi, triunfante. _ Lembro que os primeiros modelos tinham um catalisador que exalava um cheiro de enxofre que era o fim! Êta, carrinho fedido! E o Classe A também! Aliás, pude até dar um chutão num Classe A para testar a capacidade da lataria de se recompor depois de colisões causadas a até 15 Km/h.
_ E os caminhões... as Harley?
_ Os caminhões, não! Eu nem sou habilitada para isso. As motos... bem, eu andei na garupa de uma, serve?
_ Dona Ana, você já participou de um rally? _ perguntou ele, finalmente.
_ Rally? Eu... er... não. Uma vez, recebi um convite para participar de um rally universitário, mas declinei. Faz teeempo...
_ E você toparia participar de um rally, como Zequinha, para conhecer os carros mais profundamente?
_ Ze... Zequinha?
_ É! Como acompanhante. No banco de trás!
_ Ahnnnn...

Eu SEI que agora vou ser execrada por uma porção de homenzinhos cheios de testosterona. Sei que muitos dirão que estou prestes a perder a oportunidade da minha vida, que farão voodoo de mim e espalharão aos quatro ventos que eu não sou de nada e só como marmelada. Pode ser mas, creiam-me: eu tenho meus motivos.

_ Eu... er... será que você não poderia me dar um mooonte de folhetos, catálogos e manuais para eu ir estudando? _ tentei. _ É que eu sou ótima em aprendizado remoto, sabe? Aprendo que é uma beleza, lendo.
_ Mas como é que você vai escrever sobre uma coisa que não conhece?
_ Mas eu vou conhecer! Eu vivo disso, sabe? E esteja certo de que não vivenciei nem a metade dos assuntos sobre os quais escrevo. Eu tenho esse poder de abstração, graças a Deus e...

Diante a impassividade dele com a minha prosopopéia, suspirei e resolvi propor um desafio.
_ Quando é o próximo rally?
_ Em abril, logo depois da Páscoa.
_ Então, façamos o seguinte: você me dá todo o material técnico que julgar necessário. Uma semana antes do rally, nos falamos por telefone e você me pergunta tuuuuudo o que gostaria que eu soubesse. Se eu responder certo, fico desculpada de ir - embora tenha a certeza de que será um espetáculo - se errar alguma coisa, irei.

Ele deu de ombros.
_ Tá.

Um simples "tá" e pronto. Duas letrinhas e cerca de duzentas páginas de conteúdo que selariam meu destino. Agora é isso: vou ali, aprender tudo o que puder sobre lama, buracos, cobras, lagartos, entre-eixos, ângulo de saída, bitola dianteira e traseira e sistemas de freios auxiliares e já volto. Ou não.

Berreiro

Sábado passado, choveu em São Paulo. Um dilúvio de proporções apocalípticas, do tipo que paralisa aeroportos (se bem que hoje em dia, qualquer garoazinha está paralisando aeroportos), transforma o dia em noite, derruba postes e árvores, alaga marginais e transforma bocas-de-lobo em chafarizes gigantes a céu aberto. Choveu granizo também. Pedras grandes, pesadas, que deixam a gente com a sensação de que não vai sobrar nada do carro. Porque, evidentemente, eu não estava no aconchego do meu lar quando essa tormenta aconteceu. Não! Estava dentro do carro, com filhos, em plena marginal Pinheiros. Mas eu não tenho medo de chuva. Graças ao meu pai e ao meu ex-marido, aprendi todos os truques que um macho viril e destemido precisa saber para se dar bem debaixo d’água e aplico-os sem o menor pudor, sempre que necessário, com resultados altamente satisfatórios.

Lá pelas tantas, meu filho de cinco anos, assustado com o barulho do vento e do granizo na lataria, disse:
_ Puxa! Que berreiro! Papai do Céu está dando um escândalo, não é, mamãe?

Fiquei pensando naquilo. Porque um toró daqueles lembra mesmo uma crise de choro, escandalosa e compulsiva, do tipo que sacode o corpo todo, faz jorrar água dos olhos, faz suar, dá taquicardia e falta de ar, deixa a gente prostrado. Dura um tempo assim, como uma convulsão, para então ir serenando lentamente. Aos poucos, o ar vai voltando, a gente pára de tremer, o suor abranda, o coração se acalma, os olhos secam e os soluços – sempre os últimos a ir embora – vão espaçando. No fim, como na chuva, sobra o alívio da alma lavada. É verdade que fica uma bagunça danada em volta, mas o tempo, o movimento normal das ruas e a própria água se encarregam de limpar tudo.

Eu prefiro assim. Um temporal digno do final dos tempos, que lava tudo de uma vez, derruba o que tem que derrubar e quita a fatura. E não se fala mais nisso.