segunda-feira, 23 de abril de 2007

A bolsa do ladrão

Quem mora em grandes cidades, tem paranóia de assalto. Se essa grande cidade for São Paulo ou o Rio, a paranóia cresce exponencialmente. Não que morar em São Paulo ou no Rio torne as pessoas mais paranóicas (embora torne), mas é que em lugares assim, o perigo é quase palpável. Experimente, por exemplo, perguntar a um paulistano ou carioca se ele já foi assaltado. Se der muita sorte, você encontrará um afortunado que responderá: “ainda não”. Ainda. É uma questão de tempo.

Os assaltos são tantos e tão freqüentes, que as pessoas criam categorias para o fato: “já fui assaltado, mas nunca de carro.”; “assaltado, sim, mas jamais sofri seqüestro-relâmpago”; “graças a Deus, só uma vez, no ônibus”. É assim que funciona.

Pra se defender, a gente tira cópia dos documentos, usa cartão com chip, tem mais de um celular, põe insulfilm no carro, não vai cedo, não volta tarde e segue adotando todo tipo de estratégia que possa minimizar as perdas.

De carro, já me avisaram: nunca leve laptop, nem sonhe em pôr a bolsa no banco da frente, pasta, só no porta-malas, não ostente sacolas! Mas e o insulfilm, pessoal? Ah, com insulfilm é pior ainda, porque os ladrões têm a certeza de que você tem algo a esconder. Mulher sozinha é péssimo, mulher com criança é ainda pior. E mulher acompanhada? Vixxx... mulher acompanhada, nem se fala.

Como não tem jeito mesmo, há alguns anos eu adotei uma idéia que, até agora, só me trouxe benefícios: a bolsa do ladrão. Funciona mais ou menos assim: tenho minha bolsa normal, com aqueles poucos itens básicos de subsistência que toda mulher precisa portar: dois cartões de crédito, identidade, carteira de motorista, documentos do carro, chaves de casa e do carro, celular, talão de cheques, carteirinha de doadora de sangue, da Blockbuster, do supermercado, do clube, de desconto da loja infantil, pente, batom, espelho, palm top, lenços de papel, escova e pasta de dentes, fio dental, remédio para dor de cabeça, drops de hortelã, sal (é. Sal. Eu tenho pressão baixa. É um item de subsistência para mim, por quê? Vai encarar? Um saquinho de sal pesa apenas 1g e mesmo que pesasse 1 Kg, por acaso é você que carrega minha bolsa? Não, né? Então tá!), adoçante, lenços umedecidos para limpar óculos, band-aid, lixa de unha, óculos de grau e de sol, creme para as mãos, perfume e, às vezes, até algum dinheiro.

Essa bolsa geralmente combina com a roupa que estou usando e fica num lugar secreto e discretíssimo, impossível de localizar, a menos que você seja eu. A bolsa do ladrão é preta e fica embaixo do banco do passageiro. Nada muito vistoso, nem muito visível. Afinal, eu não sou boba de dar sopa pro azar, né?

Pois bem. A bolsa do ladrão tem vários dos itens que compõem a bolsa normal, só que tudo falso. Explico-me: um celular antigo, que não funciona; dois batons velhos, rançosos, podres e de uma cor horripilante; um pente quebrado; uma escova de cabelos dura pra burro; uma carteira do Cebolinha que minha filha nunca quis, com talões de cheques de bancos onde eu não tenho mais conta, com a área do nome cortada; cartões magnéticos vencidos de outras pessoas; vitamina C que já ficou verde; balas Soft – daquelas que matam criancinhas sufocadas; um frasco de hidratante do Patrocinador Oficial da Olimpíadas de Inverno de Sarajevo, de 1984, óculos espelhados com uma perna só e dinheirinho do Banco Imobiliário (houve um tempo em que me recomendaram deixar algo entre R$ 20,00 e 50,00 de verdade, na bolsa do ladrão. Eu até coloquei o dinheiro lá, mas acabei precisando dele, usei e nunca mais repus. Até porque, se o ladrão levar meu dinheiro de verdade, que sentido faz ter uma bolsa falsa?).

O grande segredo da bolsa do ladrão é a astúcia. Ela deve ter peso e volume parecidos com os de uma bolsa comum e itens razoavelmente consistentes, de modo que o ladrão leve algum tempo vasculhando seu conteúdo, até descobrir que foi enganado. Um dia, me sugeriram colocar um tijolo dentro da bolsa. Não daria certo. Assim que abrisse o zíper, o ladrão veria o engodo e era capaz até de me dar uma tijolada na cabeça. A bolsa do ladrão tem que ser suficiente para enganar o meliante até o farol abrir e você poder fugir em desabalada carreira.

Ainda não sei se dá certo, mas parece que dá sorte. Eu, pelo menos, tenho a minha há anos e, até agora, não precisei usar nenhuma vez!

27 comentários:

MH disse...

Meu pai tem a carteira do ladrão, também, perfeita! E eu não tive disciplina suficiente pra ter a bolsa, mas um dia vai. A idéia é boa, infelizmente!

LED disse...

Ana - um pouco conhecedor de SP e RJ, te asseguro que raríssimos amigos no Rio tiverem seus relógios subtraídos, como diz o jargão policial. (vale comentar que o poder aquisitivo do carioca sempre esteve aquém de relógios de grife). No Rio não se assalta mixaria (para êles). Vão atras de coisa grande. Mas também não tenho um amigo no Rio que nunca se assustou com bondes, arrastões e tudo mais. Lá, bandido vai atras de coisa grande, pra financiar as drogas.

Opostamente, não creio ter um amigo em SP que nunca teve seu Rolex, (suíço, italiano ou chinês), roubado. Também não conheço um que já passou por um arrastão. Bandidos aqui fazem sequestro, para financiar drogas e facções criminosas. Bandidos e ladrões são coisas distintas, mesmo os de colarinho branco. Todo ladrão é bandido mas nem todo bandido rouba.

Pssiiiu, não espalha pois nem todos (ladrões) sabem ainda, mas a maioria deles sabe há tempos da "carteira do ladrão", que dispensam e pedem a de verdade, incisivamente. Tem que ter essa carteira mas vê se poe ao menos um gloss prá ele dar prá filha ou uma caneta pro filho. Afinal, ladrão também tem familia....rs

Anna disse...

Ana,
Não moro nem no Rio nem em SP, mas aqui em Ctba nós tb sofremos com assaltos nos semáforos. Teve uma época em que eu era abordada no semáforo pelo menos umas duas vezes por semana... Nunca levaram bolsa, carteira, etc., mais por sorte do que por juízo, pois como eu sempre andava com a pasta da faculdade, eu engambelava o ladrão dizendo que só haviam livros e cadernos na pasta e que a bolsa com carteira, dinheiro e celular estavam no porta-malas.
(mentira, porque ou ela estava embaixo do banco do passageiro ou a carteira, celular etc, estavam tudo dentro da pasta da faculdade)
Sei que no desespero de perder meus caríssimos livros de engenharia eu negociava com eles, aceitaram a troca por um óculos de sol uma vez (tudo bem, ele não valorizava o formato do meu rosto), e tentaram levar a frente do rádio, mas como eu fiquei tentando fazer o cara levar um lanche do Mc Donald's que seria o meu almoço ao invés do rádio, o sinal abriu e eu saí em disparada, quase derrubando o moleque (fiquei com o lanche e com o rádio). Então, depois dessa época eu tb tenho a bolsa do ladrão... Tb acho que dá sorte, nunca mais fui abordada. Mas ainda preciso criar a disciplina de carregar a original no porta-malas, pois um dia eu ainda vou cair do cavalo e acabar dando a bolsa original ao invés da do ladrão...
Beijo
*Anna*

Ana Téjo disse...

MH,
É uma. E a danada dá tanta sorte, que nem nas vezes em que eu esqueci de tirá-la do carro e mandei o carro para lavar, ela foi levada.

LED,
PRECISO acreditar que vou ter o sangue frio necessário para relutar, hesitar e dar a bolsa do ladrão com cara de quem está entregando seu bem mais precioso, de forma que o pulha nunca vai desconfiar e pedir "a bolsa de verdade".
Gloss, eu não ponho, porque acho um horror mulher de boca babada (mesmo que seja filha de ladrão) e caneta, eu esqueci de mencionar, mas já tem. Só que está seca! Rá!

Ana Téjo disse...

*Anna*,
Não me diga que a aprazível localidade de Curitiba, que eu tanto amo já está no rol das cidades potencialmente violentas. Que horror!
Agora, você é quase uma enguia de tanto sangue frio, hein, menina? Benza, Deus e parabéns!

Cassio disse...

Sei que os assaltos e etc são uma realidade.
Mas não acho que devemos mudar a nossa vida por causa deles ou estar preparado para o dia que ocorrer...

Temos que "contabilizar" as coisas boas da vida. e não ficar preparado para um "assalto" que talvez nunca venha a ocorrer...

Morg disse...

olha que eu amei essa de colocar tralhas que não te servem mais. vou adotar hehehehehe

um celular velho, uma carteira detonada muito bom isso

Ana Téjo disse...

Cassio,
Não é mudança; é adaptação.

Morg,
Você vai se divertir montando sua "bolsa do ladrão". Até algum tempo atrás, minha filha sempre pedia pra olhar a minha. Achava a maior graça.

Anônimo disse...

Eu que moro em Vitória,que não é nada grande e nem tãoooooo perigosa assim,já fui assaltada 3 vezes, é mole???
Isso pq tbm ando com documentos xerocados e etc...E ainda, levaram meu celular novinhoooooooooooooooooooooo DENTRO da faculdade....
Ahhhhhhhhhhhhhh!!!!
Minha irmã perdeu o dela na praia,aí em Sampa no Ano Novo (se eu não me engano) e ligaram para devolver....
Mas é assim....

Boa Sorte!!!!

Mary

Re disse...

Tinha uma amiga que mesmo quando não tinha nem um centavo para tomar chope, deixava R$50 para o ladrão, pois segundo ela se fosse assaltada e não tivesse dinheiro, eles podiam bater nela.... olha a neurose!
Boa dica a sua bolsa... mas posso usar as notas de 1 dinheirinho do banco imobiliário, pois são as que tem mais? bjs Re

Ana Téjo disse...

Mary,
É que esse seu arzinho de menininha desamparada torna você um alvo fácil para bandidos de péssimo coração. Experimente fazer umas caretas de vez em quando.
Sobre o telefone da sua irmã, ela deu MUITA SORTE mesmo, né?

Rê,
Um absurdo.
E, ó: vou ver se tem mais umas notas de dinheirinho falso que as crianças não usam mais e dou pra você, tá?

Anônimo disse...

Carteira do Cebolinha??? Tsk, tsk, esse item pode pôr tudo a perder...

Bjs Rosana.

Anônimo disse...

Ana, onde deixamos sempre a bolsa do ladrão? No pé, abaixo do banco do passageiro, bem visível!?

Eu, infelizmente, também tenho receio de assaltos e coisas afins. Já fui assaltada e hoje, por outros motivos piores, há alguns soldados que me protegem. Coisas da vida na cidade.

Quando estiver 'livre' deles, não terei que dar mais satisfação pra ninguém, mas, em compensação, a sensação de falta de proteção estará de volta...

Providenciarei uma; pode deixar!

Beijinhos,
vi

Dri disse...

Eu me vi forçada a adotar a carteira do ladrão, como o pai da(o?) mh, depois que quebrei inúmeros cartões - sim, inúmeros. Eu sou dramática, mas não estou exagerando - e tive notas de dinheiro rasgadas. Como? Elementar, meu caro Watson: Colocava o 'grosso' da carteira no bolso das calças. Two Thumbs up, não?
Adorei a idéia da bolsa do ladrão, mas sei que não sou organizada o suficiente para manter uma. *suspiro* Espero que minha carteira também possa me trazer sorte! *rs*

Ana disse...

Ana,
amei esse post! :) Eu nao tenho a bolsa do ladrão pq infelizmente nem tenho mais carro, sou uma pessoa que anda de "coletivo". mas a dica é boa.
Agora, fala sério, só a gente mesmo para andar com esse monte de coisas ne...aposto que, para um homem, os itens seriam:
celular, chave do carro, carteira.
Só. :)

Anna disse...

Estou te falando que naquela época eu já andava escolada com os molequinhos que vinham tentar me assaltar nos semáforos... Mas eu só tentava negociar com eles quando tinha certeza de que não estavam armados...´
Beijo
*Anna*

Lana disse...

Há 3 anos minha mãe ficou gravemente doente (teraplégica e em coma). Resolvemos que ela seria tratada em casa. Montamos uma CTI e quando ela estava chegando de ambulancia dois assaltantes entraram e nos tornaram refens por 4 horas. No final, não contentes com o terror com que nos trataram deram 5 tiros no quarto onde estava minha mãe antes de evadirem-se. Minha mãe mesmo em coma passou a urinar sangue (literalmente!)e teve que retornar ao hospital por mais uns dias. Minha mãe faleceu há 10 meses atras. De tudo, o que não esqueço e me tortura é pensar no desespero que ela sentiu naquele instante. Desde este dia tenho uma visão muito pouca romantica destes "bichos ferozes armados até os dentes". Queria ve-los frente a frente sem armas nas mãos pra ver se eles não falam fino!
Obrigado pelo espaço e desculpe o desabafo

Rodolfo disse...

Quem foi assaltado, levante o braço.
Opa, eu já. Sou mais um para as estatísticas.

Não uso bolsa que combina com a minha roupa, mas assim como Papai Noel eu também não esqueci do ladrão e sempre deixo no carro um celular falso pra ele.

- Você foi um mal menino?
- Sim, senhor.
- Então toma aqui um celular de brinquedo. E nem precisa sentar no colinho.

Ana Téjo disse...

Rosana,
Vou repensar a parte da carteira. Alguma sugestão acima de qualquer suspeita?

Vivi,
Meniiina, que coisa chique. Você tem escolta e tudo!
Não, a minha bolsa do ladrão não fica visível, não, justamente para não parecer que está fácil demais, dando sopa. Fica embaixo do banco do passageiro, bem escondidinha. E que Deus nos ajude.

Ana Téjo disse...

Dri,
Se você não tiver mais de um carro, não requer prática, nem tampouco organização. É só fazer uma bolsa uminha apena e uma vez só e deixar ela lá, disfarçada, esperando (com sorte, esperando eternamente), pela oportunidade de ser usada.

Ana,
E olha que quando fui reler o que havia escrito, percebi que tinha esquecido uns itens importantíssimos, como soro fisiológico, cartões de visita, lenços para remover a oleosidade da pele sem remover a maquiagem, bloco para anotações emergenciais (você não achou que em emergências em teria as manhas de albrir, ligar & usar o Palm, achou?) e outras coisitas mais...

Ana Téjo disse...

*Anna*,
Quando eu crescer, quero ser corajosa como você.

Lana,
Caramba, menina! Que horror! Não tenho nem o que dizer. Gente assim merece... eu nem sei se isso é gente.

Ana Téjo disse...

Rods,
O celular falso acende luzinhas? Eu tinha um, do meu filho, que acendia. Até pensei em colocá-lo na bolsa do ladrão, mas achei que ele não merecia tanto (o ladrão, naturalmente).

Anônimo disse...

Chique nada, Ana...
Imagine você: não pode soltar um mísero peido silencioso que lá vão eles atrás...
Namorar, então...tenho que fazer reviravoltas no trânsito...
Fora o mau humor e achar que eles já fazem parte da sua vida íntima...tsc, tsc, tsc.
beijinhos,
v

Ana Téjo disse...

Vivi,
Você supera.

Mary disse...

Eu??? Com arzinho de menininha desamparada ???
Aiaiaiaia...vc não teve a oportunidade de ver tamanha "grosseria" que esse ser aqui possue...rs
Tente se informar...principalemnte com minha irmã...rs

Ah!!!Ela teve muita sorte....Essa menina nasceu já com a tal da sorte...ter conseguido sobreviver ao bafo de cachaça da médica que fez o parto dela e ainda, encarnada...rs.É muita sorte, não???Isso mesmo...a medica que deu um tapinha na bunda dela, ou melhor, uma baforada, estava com o talo cheio e com uma "coisa" lá...ela era espírita!!!uahuauahauhaua

beijosssss

Ana Téjo disse...

Mary,
De quem você está falando?

Anônimo disse...

Uai...de grosseria....to falando de mim...

E a que teve sorte, da minha irma, uai!!!Vc disse q ela teve muita sorte de ter achado o celular, lembra??????

beijos

Mary