sexta-feira, 4 de maio de 2007

O Molho do Vovô

O vovô em questão não era pai do meu pai, nem da minha mãe. Era um vovô emprestado das minhas primas. Italiano de nascença, veio jovem para o Brasil, mas nunca perdeu o sotaque. Teve dois filhos, seis netas e uma mulher formal e seriíssima que amou até o último dia da sua vida.

Mas não é sobre nada disso que vou falar hoje.Hoje, o assunto é o MOLHO de tomates inesquecível, antológico e impossível de reproduzir que ele fazia todos os domingos, para o almoço.

O processo todo começava em uma sexta-feira como hoje, quando ele ia pessoalmente à feira e escolhia um a um, cinco ou seis quilos de tomates italianos, perfeitamente simétricos e maduros. Já vou adiantando que não tenho a receita do MOLHO, de forma que se alguém acha que corre o risco de ficar com vontade, é melhor parar de ler agora mesmo.

Mas voltemos aos tomates, que assim que chegavam em casa, eram cirurgicamente desprovidos de suas peles e sementes, antes de qualquer outra coisa. Reza a lenda que pele e sementes cozinhavam em separado, por um tempo x, para serem depois peneirados com extremo zelo. Seu futuro estava traçado: no momento oportuno (qualquer que fosse ele), esse suco rico estava fadado a incorporar-se ao restante do MOLHO, como uma oferenda aos Deuses.

As polpas dos tomates eram cortadas grosseiramente (grosseiramente, no sentido de que não eram pedaços muito pequenos. Porque nada, nada mesmo nesse MOLHO, era grosseiro. Muito pelo contrário), ganhavam a companhia de cebolas, essas sim, picadas milimetricamente, alho (acho, mas não apostaria meus filhos na presença do alho), sal, uma pitada secreta de açúcar para cortar a acidez (nessa, eu aposto meus filhos), uma dose honesta de vinho tinto de ótima procedência e outros mistérios alquímicos da cozinha que nunca consegui decifrar, e iam para a panela numa ordem secreta, por um tempo infinito. Por infinito, entenda-se horas e horas - tipo uma hora para cada quilo original de tomate - o que estendia a preparação do MOLHO a uma meia dúzia de horas, ou mais.

Também há boatos relatando que lá pelas tantas (e nem um minuto a mais), o suco rico extraído das cascas e sementes era incorporado à mistura da panela, que cozinhava mais uma eternidade. Às vezes, o vovô colocava lingüiças de lombo ou de pernil no MOLHO, mas não era sempre.

O resultado era algo que, por mais que me esforce, não serei capaz de descrever. Ainda não inventaram palavras para tanto.

Tratava-se de uma experiência cármica, tântrica, sensorial, que tomava o paladar de assalto, invadia as papilas sem pedir licença, dominando a língua por inteiro, possuindo-a, fazendo sexo com ela, lançando um festival inesquecível de sabores e sensações ricas e complexas para o cérebro, provocando sucessivos espasmos de prazer gastronômico.

Um MOLHO sensacional, rico, de um vermelho escuro e profundo como catchup (perdoe-me, vovô, por cometer a heresia de citar uma coisa mundana como catchup para dar uma referência de cor do seu MOLHO), denso, encorpado, homogeneamente pedaçudo, servido fumegante sobre uma boa porção de massa Barila ou Divella, cozida com precisão de milésimos de segundos.

Esse MOLHO, como os braços da Vênus de Milo, como o nariz da Esfinge, como o telhado do Parthenon perdeu-se no tempo. Algumas pessoas da família, já alegaram ter a receita. Mas nem mesmo meu pai, o Homem do Croquembuche, com seu onipresente "eu faço", conseguiu reproduzir a riqueza, a opulência do MOLHO do vovô.

A mim, coube a nostalgia de saber que, assim como a presença do vovô, o MOLHO jamais será reproduzido, e a satisfação de ter estado entre o seleto grupo de privilegiados que desfrutou de uma coisa tão incrivelmente boa.

P.S.: Às vezes, eu invejo os camelos, que conseguem armazenar imensas quantidades de nutrientes no corpo, para consumi-los lentamente, com todo bom senso do mundo.

14 comentários:

Daniele disse...

Putz, deu MUITA água na boca! Não tem prato mais delicioso do que uma bela macarronada com um molho como esse...

Cláudia disse...

Ana
uma vizinha minha faz molho de tomate assim: cozinhando por uma tarde inteirinha, receita secreta também.
Só que além disso ela faz TAMBÉM a massa.
Divina a comida, claro!

Sobre o molho do seu avô, mesmo que ele desse a receita, não ficaria tão bom quanto o feito por ele.

beijo

Segredos da Esfinge disse...

Nossasenhoradaperdição!!
Não sei se fiquei com água na boca ou é um misto de fantásia sexual quando vc diz:
"fazendo sexo com ela"
Que se vovô me perdoe, mas que um molho desse dá pra imaginar mil loucuras, lá isso dá.
Até no meu nariz você tocou:
"como os braços da Vênus de Milo, como o nariz da Esfinge, como o telhado do Parthenon perdeu-se no tempo."

Ai!!! cadê os braços de vênus, para me carregar no colinho depois de saborear um bela macarronada desta e me jogar no telhado do Parthenon???

Eita que vc tem um talento danado pra escrever.
Beijos

Anna disse...

Nada como um belo molhho para uma boa massa!!!
Acompanhado de uma taça de vinho, claro...
Beijo
*Anna*

Luci disse...

se eu fosse camelo não estaria na agonia de ver o que eu gosto e não poder comer!

amirgã disse...

Soube muito bem esse molho servido com tanta especiaria.
Não sei se é do Tejo, se do tomate, se desse refinamento da espera, que também produz o "Porto" e os bagos de amirgã, só sei que fiquei com a alma cheia de gula!

amirgã

Adauto disse...

Desculpe, mas me perdi e não consegui prestar atenção em todo o resto da leitura, logo depois daquele comentário bem lá no começo do texto: "(...) uma mulher formal e seriíssima que amou até o último dia da sua vida."

Lindo isso...

Dani disse...

Receitas secretas são sempre mais saborosas. Imagina um molho desses sendo industrializado e vendido em latinhas! Não teria nem o mesmo sabor, nem o mesmo encanto...

Esse texto me deixou com água na boca. Sou tarada por massas, por molhos suculentos e por receitas cheias de segredos! :-)

Bjs.

Ana Téjo disse...

Dani,
Nem me fale...

Clau,
Deve ser torturante para os vizinhos, ficar sentindo o cheiro, né? Deve dar uma vontade de tocar a campainha, fazendo cara de cachorro etíope, pra ver se descola um teco...
Sobre o molho do vovô, você tem razão. Nada no mundo supera uma lembrança assim.

Ana Téjo disse...

Esfinge,
Ah, menina... você nem imagina. Era um sonho, um espetáculo, um, um... bem, deixa pra lá!
Obrigada.

*Anna*,
O vinho é indispensável. Tanto no molho, quanto no copo (e fora dele, naturalmente).

Ana Téjo disse...

Luci,
Sei como é.

Amirgã,
A alma cheia de gula é o que me resta.

Ana Téjo disse...

Adauto,
Um dia, com a licença das minhas primas, ainda vou escrever sobre ela. Uma senhorinha pequena e incrivelmente sóbria, de cabelos sempre perfeitamente presos num coque irretocável.
As crianças morriam de medo dela, mas era uma pessoa de cultura ímpar. Sofisticadíssima, entendia de quadros, tapetes e antiguidades como poucas que conheci.
E ele, o vovô, manteve a última camisola que ela usou embaixo do travesseiro dela, ao seu lado, na cama, até o dia em que ele próprio morreu.

Dani,
Acho que um molho desses não compensa, comercialmente. Teriam que cobrar uma pequena fortuna por ele e ninguém ia querer pagar. Molhos industriais levam os tomates, as sementes, as peles, as folhas e caule do tomateiro, as lagartas, a madeira das caixas de transporte e o que mais passar pelo processo de fabricação.
Também sou louca por massas, molhos e segredos.

J@de disse...

Nossa eu fiquei com muita água na boca!! Sou ótima cozinheira, e sempre quis fazer um molho desses e acho que não consigo... acho que esse post me deu estímulo prá tentar!!
Que coisa linda o modo como vc falou da esposa!!
Beijos!!

Ana Téjo disse...

Jade,
Se você conseguir, me conta como foi, pelamor...
Como disse ao Adauto, um dia ainda falo nela aqui.