terça-feira, 28 de agosto de 2007

Uma perdida numa noite suja

Eu sou perdida. Nasci assim. Não tenho o menor senso de localização espacial.

Durante toda a minha infância e boa parte da adolescência, meu pai, que deve ter engolido uma bússola quando ainda usava fraldas, adorava comentar sempre que podia como a minha mãe e eu éramos perdidas e como ele e a minha irmã eram incrivelmente bem orientados. De fato eram, mas precisava jogar na cara?

Perdida ou não, sempre consegui ir & voltar a todos os lugares que precisei. A maior prova disso é que estou escrevendo neste momento, do lugar onde sempre costumo estar a essa hora do dia..

Para piorar minha situação, sou orgulhosa como um homem, ou seja, "detesto" pedir informações na rua, em postos de gasolina, a transeuntes ou a quem quer que seja. Perco o rumo, perco a hora, mas não perco a pose.

Em minha defesa, tenho sempre no carro um Guia atualizadíssimo, com mão de direção e os últimos delírios urbanísticos do prefeito em gestão, apesar de sempre achar que o bendito está de cabeça para baixo em relação ao caminho que eu preciso. Parêntese: por que os moços sempre fazem os mapas de cabeça pra baixo? Deve ser pegadinha, né? Só pode ser. Pois eu sei ler de cabeça pra baixo. Rá! Fecha parêntese.

Sou do tipo que já deu ré em Marginais, em estradas, já peguei a 23 de Maio para o lado errado (várias vezes), enfim, um vexame completo. Isso tudo me rendeu algumas histórias de "perdição".

Uma vez, indo com uma amiga do trabalho a uma reunião em uma fábrica nos cafundós da Raposo Tavares, quase morri de vergonha. Ela não dirigia (siiim! Ainda há mulheres na sociedade ocidental contemporânea, em pleno século XXI, que não dirigem!) e coube a mim a honra de nos conduzir até lá. Alguém sabe onde ficam os cafundós da Raposo Tavares Longe. Muito longe, mas até aí, tudo bem. Eu, precavida, ciente das minhas limitações, peguei meu super Guia atualizadíssimo e pacientemente contei quantos viadutos deveriam ser cruzados até o momento M. O problema é que na prática, a teoria é outra. Uma vez lá, a dúvida: passarela conta como viaduto? Não conta? Para piorar ainda mais, por um capricho do traçado da estrada, só se vê a maldita fábrica DEPOIS de passar pelo acesso. Aí, são 7 quilômetros pra ir, retorno, 14 quilômetros pra voltar, outro retorno, o tempo comendo, o cliente ligando e novamente o bendito acesso oculto... Em desespero, encostei no primeiro trecho não-carroçável da via, saquei o celular e liguei para o dono da agência (isso mesmo! Ele quem tinha me colocado naquela situação, ele que me tirasse) pedindo socorro. Antes da ligação se completar, minha amiga virou-se, me olhou com olhos arregalados e disse:


_ Ó, Ana, na boa, eu gosto de você e tudo, a gente se dá bem... mas eu sou hetero.
_ Pô, amiga! Eu também. Você até conhece meus filho, meu ex-marido... eu conheço os seus!!!
_ Então por que você parou aqui, nessa entrada de motel?...

Outra vez, fiz o maior escândalo num shopping. Cheguei ao local onde havia parado o carro e deparei com aquela terrível sensação de vazio. Primeiro, um calafrio daqueles que arrepiam os cabelos da nuca. Depois, uma onda de calor. "Calma, Ana, você tem seguro", disse o lado racional. "Eu sei, mas roubaram meu carro em pleno estacionamento do shopping, meleca!", disse todo o resto. Horrorizada, chamei um segurança, declarei o ocorrido, disse que ia chamar a polícia e que depois iria à delegacia e fazer B.O. O segurança, com aquele famoso risinho de escárnio no rosto, foi logo perguntando:

_ A madame tem certeza que não parou em outro piso?
Eu, indignada: _ Claro que tenho! Eu sempre anoto meticulosamente o local onde deixei o carro!

Ele, irônico, pegou o maldito walkie-talkie e disse algo como:

_ Ô, Gouveia, procura um carro aí, igual ao da madame, nas coordenadas XPTO dos pisos Y e Z.

O bólido foi encontrado algum tempo depois, pelo "Gouveia", numa vaga na mesma posição, dois andares abaixo.

Um dia, fui ao Shopping Villa Lobos (nunca mais voltei lá) e não conseguia voltar porque não achava retorno naquela bendita Marginal. Entrei dentro de uma favela e segui por ela até o ponto onde não passavam mais carros. Voltei de ré, favela abaixo e quase fui parar no Rio, ou em Campinas, ou sei lá aonde!

Em outro, liguei para meu ex-marido (que, na época, ainda era marido) porque havia me perdido voltando de uma reunião no Cambuci.

_ Onde você está?
_ Sei lá, né? Se soubesse, não estava ligando!
_ Mas me diga o que você vê.
(Comecei a ler as placas)
_ Ana! Você vai parar em Cubatão!

Ééééé, torcida brasileira. Cubatão. Aquela cidade da refinaria, pertinho do Guarujá. Como consegui, eu não sei e certamente não saberia reproduzir o feito. Ele (que também engoliu uma bússola na infância) conseguiu me guiar, remotamente, até um ponto moderadamente conhecido, quando a bateria do celular acabou. De lá, sabe-se como, voltei. Hooooras depois.

Quando preciso ir a algum lugar, sempre peço para me ensinarem o caminho “mais burro”. Aquele que você ensinaria ao seu filho ou sobrinho de três anos de idade, caso ele precisasse se locomover até lá.

_ Está bem (e o interlocutor inspira, pacientemente.). Ana, sabe a Marginal?
_ Depende. Qual?
_ A Pinheiros.
_ Depende. De que lado?
_ Sentido Interlagos.
_ Mas Interlagos pra quem vai? Ou de quem vem?

Eu sou assim. Às vezes, o interlocutor desiste e se oferece para me buscar. É evidente que aceito. Não quero nem nunca quis saber de caminhos espertos, cheios de quebradinhas porque fatalmente me perco. Recentemente, meu namorado disse que queria me dar um GPS de presente. Agradeci, emocionada, mas concluímos que não seria uma boa idéia. O vexame de me perder COM GPS vai ser muito maior. Há não muito tempo, lembro de ter andado em um carro bacana com um GPS importado. O problema era que a mulherzinha só sabia dizer “tourner à la droite, tourner à la droite”. Depois de virar à direita até quase vomitar, desligamos o maldito GPS e desistimos. Não ia funcionar mesmo.

Como diz um grande amigo, "de zero a dez, minha orientação espacial é zero. Engraçado... de zero a cem, também."
Mas estou aqui, não estou? Então pronto!

22 comentários:

Ana disse...

Ana,
eu tenho problemas em ligar pontos. Por ex: "sabe a Marginal Tietê?" "Sei sim." "Sabe a 25 de março?" "Sei sim." "Então, da pra ir na 25 pela Marginal." "AI JESUS!!" Na minha cabeça os lugares são isolados, em direções completamente opostas uns dos outros...
Mas eu não tenho vergonha não, páro e pergunto milhares de vezes se precisar!
Beijos.

Mary disse...

Nosssaa!!!Sou assim tbm...Esquecida mais q tudo nesse mundo!!!
Os mais recentes:

1) Sábado coloquei suco de caju dentro da caneca com leite. A caneca com leite estava em cima da pia esfriando e eu por um momento pensei que estava Vazia, mesmo antes sabendo que tinha leite ali.

2) No mesmo sábado a noite fui ao shopping retirar dinheiro e voltei sem tirar dinheiro. E aí vc me pergunta o que eu fiz entao, neh?
Não sei...me distrair com as vitrines, dei um rolé e sair...
Saí de casa só para fazer isso. Era noite e estava com uma preguiça só, mas como é mais seguro fui lá e precisava retirar dim dim, pois ia sair e coisa e tal. Qdo já estava em frente de casa, que lembrei, pois fui pegar a chave do portao no bolso e sentir o cartao..rs

3)Nesse mesmo sábado a noite já no rock...Me acontece uma coisa...rs
Pedimos a conta. A conta veio naquela linda cadernetinha de couro preta. Coloquei o dim dim dentro. O garçom levou. Só que tinha troco. Ele trouxe de volta e ai eu sair do boteco com a parada na mão...depois q me dei conta q tinha que devolver...rs.Mas já era tarde e aí levei para casa...rs

4) Aula de campo no Norte do Estado ES.rs
Estrada de chão para mais de quilometros...Tbm com mapinha na mão...estávamos (eu e uma amiga)indo para uma Reserva Biologica...o mapa indicava que depois de milhoes de metros depois da tal curva, era para entrar a segunda direita...Mas alguns individuos abriram uma trilha ilegal e a gente entrou ali, só que aí percebemos que algo estava errado. Nos deparamos com uma tribo de indios "canibais"...Na verdade eles odeiam "ambientalistas"...Ligamos para um amigo que ja estagiou por la e ele ficou desesperado...Mas deu tudo certo!rs

P.S. Ah! Em relação essa parada de GPS, eu nunca sei direito como é isso, sabe? Em aulas de campo sempre temos que usar...mas eu nunca me oriento certamente...rs

Entre outros Ana...rs

beijos

Renata disse...

Eu já sou do tipo que engoliu a bússula. Minha irmã me liga querendo saber caminhos sempre torcendo, mentalmente, pra que eu não saiba e ela finalmente possa se sentir menos perdida. Mas daí eu explico dando até nomes de padarias e mercadinhos do caminho e ela fica louca da vida comigo....rs

Bjo.

Diz disse...

Como sempre boa crônica. Não tenho tido tempo de vir, mas é sempre bom qdo venho. bjs Laura
Tem um vídeo lá que vc vai gostar.

Nana disse...

Haha, muito boa a história do GPS francês! Eu sou do time dos perdidos, também. Já até escrevi um post sobre isso lá no blogue: http://naoautorizada.blogspot.com/2007/05/mais-perdida-que-cego-em-tiroteio.html
Beijo

mc disse...

hahahah muito bom.
Sinto muito, mas eu também tenho o GPS interno...
E quando não funciona, não tenho a menor vergonha de pedir indicação!

Emilia disse...

Ai Ana, que maravilha de cronica! Eu não tenho tido muito tempo para vir mas adoro quando venho.
Eu tb sou dos perdidos, sabe,e ler as suas desventuras nessa área me deu um alento.Aqui na ilha não me perco muito porque não tem muito por onde andar, mas fora daqui, vou-te contar, não acerto uma.Pergunto vezes sem conta.
Bjos

Adauto disse...

Heh... A mais "recente" que tenho é quando, saindo de uma festa da casa de meu tio, resolvi (a contra gosto da Dona Patroa) levar uma prima e sua prole para casa. Dela. Detalhe: ela mora em Igaratá; nós em São José dos Campos. Não bastasse tê-la levado, na volta fiz o zigue em vez do zague. Quando resolvi descer do pedestal e perguntar pra alguém qual era nossa localização (já num pedágio), descobri que estávamos a meio caminho de Campinas...

angela disse...

eu sou a mais perdida tb, aff, ainda bem q meu marido e meu pai engoliram bússolas, pq senão, nem sei, haha, já me perdi até na 25, imagine, qdo ligo pro meu pai, ele até já sabe, e antes de explicar dá muita risada da minha cara....

Cassio disse...

Eu engoli um GPS muito antes deles serem fabricados...

tenho muita facilidade com fisionomias também...

Mas com nomes... Esqueco o nome de todo mundo...

Pois é.

Sei ir a qualquer lugar (SP, RIO, Madri, LA, e muitas outras cidades, mas não lembro o nome de nenhuma rua. :)

morg disse...

hahahaha e eu nem posso rir tanto assim porque sou perdidinha


só que meu marido que ainda não é ex hehehehe não tem essa santa paciência toda não


e eu perco a pose pergunto até pro bêbado da esquina


beijo

Thales disse...

Eu até que tenho algum senso de direção e de onde as coisas estão, mas sou péssimo para lembrar nome de rua.

Mulher Solteira disse...

Me identifiquei totalmente :)

Escrevi um post sobre a minha ida à Praça Roosevelt de metrô (duas baldeações e doze estações) porque eu sabia que o perto ia ficar longe com a minha falta de bússola interna (e olha que eu moro no Sumaré).

Minha última "perdida" foi a caminha da casa do nosso querido amigo Gastón... mas deu pra recuperar a pose e o atraso nem foi tão grande!

Beijão!

Ana Téjo disse...

Ana,
O que mais me impressiona em uma pessoa é estar em uma sala e, de repente, alguém pergunta:
_ Pra onde fica a Paulista?
E a pessoa aponta.
_ Pra lá.
_ E a Bandeirantes?
_ Pra lá.
Deve ser tudo de mentirinha, é? Só pra impressionar a gente.


Mary,
Lendo seu comentário, lembrei daquele desenho do Pica-Pau em que o jacaré tenta comê-lo à moda dos canibais. "Sopa de nabo, comida de nababo! Sopa de nabo, comida de nababo!"

Ana Téjo disse...

Re,
Eu não me conformo com gente como você. Aposto que vocês ficam estudando o mapa a noite inteira e na hora em que gente pergunta, respondem assim, como quem não quer nada, só para os perdidos como eu ficarem perplexos.

Laura,
Obrigada e eba! Vou lá. Também faz tempo que não "passeio" pelos blogs queridos.

Ana Téjo disse...

Nana,
Vou lá conferir.

MC,
Pios eu vou parar no Tocantins e não pergunto. Sou meio "homem" pra essas coisas.

Ana Téjo disse...

Emilia,
Aaaaaiii, que saudade de você!
Perdida, ou não, quando encontrar o caminho daqui, venha , porque você é sempre muitíssimo bem vinda.
Como vão Martim e Pedro?
E a Joana? Vou lá no seu espaço, buscar notícias.

Adauto,
Mas Campinas é uma cidade tão aprazível... eu, no seu lugar, teria dito à Dona Patroa que havia feito de propósito, para esticar um pouquinho o programa e mostrar às crianças as praias de Campinas. Ah, Campinas não tem praia, é? Ups! Devo ter ido na direção errada!
E obrigada pelo alerta! ;)

Ana Téjo disse...

Angela,
Deveria haver uma espécie de GPS telefônico; um número para onde a gente pudesse ligar e alguém do outro lado iria nos explicando pacientemente como chegar 'lá, aonde quer que "lá" fosse.

Cassio,
Vamos combinar que você está reclamando de barriga cheia?

Ana Téjo disse...

Morg,
Pode rir, sim. Mesmo sendo perdida.

Thales,
O nome da rua é o de menos. O importante é "chegar lá".

Ana Téjo disse...

Cris Comprida,
Eu não sei ir à casa do Gastón até hoje. Ele já me explicou infinitas vezes, mas sempre que vou, preciso de escolta.

Mary disse...

Vc tbm chegou a imaginar a situação??? Eu dentro de um caldeirão e aqueles indios todos malhadinhos, lisinhos e pintados em volta...gritando: oba oba oba????

rs
Ngm merece!!!

beijos

Ana Téjo disse...

Mary,
Sim, jogando caldo na sua cabeça com uma concha, para "amaciar" sua carne durante o cozimento.