segunda-feira, 6 de agosto de 2007

A poeira do jardim

Era sempre assim. Quando viajava, ela acabava encontrando um lugar para chamar de seu. Naquela cidade, enquanto todos escolhiam a torre, o museu, a igreja ou o rio, encantou-se com o jardim. Adorava andar sobre aquela areia branca e fina, que empoeirava os sapatos. Adorava aquela estética rigorosa, tão perfeita, tão simétrica, de domar a natureza para o mero prazer dos olhos. E passar perto das fontes para sentir os borrifos d’água no rosto nos dias mais quentes. E se sentar numa cadeira, no limite da sombra das árvores, para se perder nas páginas de um livro. Sempre que podia (ou que precisava cortar caminho), ia pelo jardim, de um museu ao outro. Divertia-se contando os amantes pelas alamedas. O recorde havia sido quatorze. Quatorze casais se beijando apaixonadamente, em plena luz do dia.

E os sapatos... ah, os sapatos, em um lugar com tanta coisa para ver, divertia-se olhando os sapatos alheios, só para descobrir quem havia escapulido para o jardim. Um dia, flagrou um mensageiro de hotel chique, todo elegante em seu uniforme, com os sapatos empoeirados de areia branca. Certamente ia responder pelo desleixo, o pobre. No metrô, sorria com os olhos baixos, pensando: almoçou no jardim, hein? Será que foi se encontrar com alguém? Será um amigo de muito tempo, um amor secreto, um pai, um filho?

Ela própria fazia questão de não limpar os seus. Deixava-os assim, com a fina camada branca, como lembrança dos bons momentos.

Quando voltou para sua terra, desempacotou malas e recordações, abriu presentes, deu outros, separou a roupa para lavar e guardou tudo com muito cuidado. Com as estações trocadas, demoraria algum tempo até usar tudo aquilo novamente. Esse ano, quando o primeiro frio se insinuou, pegou as botas marrons no fundo do armário e as viu, recobertas pela poeira branca do jardim. Em vez de limpá-las, calçou-as e manteve-as como estavam. E daquele dia em diante, sempre que as calçava, sorria baixinho como se comentasse: “estivemos lá juntas, não foi? Vocês se lembram...”

14 comentários:

Fabi disse...

Lindo Ana.
Eu guardo algumas recordações também. Um par de tenis que correu em companhia de outro que já não o acompanha mais, mas que teve um dia lindo.
Uma camisa que teima em manter o cheiro a anos.
Tudo resolvido, mas ótimas lembranças.
bjk

Isa disse...

Ana,

acabei de chegar de lá e ainda ontem tava olhando a poeira nas minhas sandálias e decidindo se tirava ou deixava lá...boa idéia, vou deixar até o nosso próximo verão pra matar saudade...rsrs...

Renata disse...

Lindo texto, Ana!
Gostaria de caminhar nesse jardim tb.

Recordações são tão reconfortantes às vezes...

Bjos.

LED disse...

Ana - bárbaro. Parabéns pelo lindo texto. É o retrato perfeito da visão e sensibilidade de quem sabe viajar.
LED

lucrecia disse...

Ai, que saudade do Palais Royal... porque só pode ser lá, né?

Ana Téjo disse...

Fabi,
Bom guardar lembranças... Melhor ainda quando guardamos na cabeça, mas na gaveta também vale!

Isa,
Tira não...

Ana Téjo disse...

Rê,
Obrigada.
Quem não gostaria?

LED,
Obrigada. Saber, a gente até sabe. O que nem sempre sobra, é dinheiro para tanto... mas vamos em frente.

Ana Téjo disse...

Lucrécia,
Jardin des Tuileries.
Ai, ai...

lucrecia disse...

verdade, não liguei a foto à crônica. "Meus" momentos foram passados no jardim do Palais Royal, também coberto de poeira branca, atravessando da Biblioteca Nacional para o Louvre... Até doeu agora.

vivi disse...

Quando eu li o texto, lembrei-me imediatamente do Jardin des Tulleries...Ai, ai, ai. E sua poeira branca. E as pessoas tentando se refrescar com uma bola de sorvete ou na beira dos chafarizes...
Que saudades.
Outro dia, ao arrumar minhas bolsas, achei, em uma delas, um passe usado do metrô de Paris...
Boas estas lembrancinhas, não, querida! Mil beijos, saudades
(Ah, agora só comento de casa; no escritório esta´bloqueado. saco!)

Ana Téjo disse...

Lucrecia,
Nem me fale...

Vivi,
Vou vasculhar hoje mesmo todas as minhas bolsas, assim que chegar em casa.
Como é bom, né?

Rodolfo Barreto disse...

Se você veio aqui e, como eu, ficou com os olhos marejados, diga apenas que foi a poeira do jardim ;)

Bia disse...

Ana, que delícia ler isto!
Quanta poesia nas suas palavras - e na poeira branca das botas marrons. Lindo!

Ana Téjo disse...

ô, Rods... que bonito. Obrigada.

Bia,
Poesia é ter o privilégio de estar, nem que seja uma vez na vida, num lugar desses.