quinta-feira, 3 de abril de 2008

Percalços no cume, parte 1

Segunda-feira, primeiro de abril, 18h10.

Trim, trim, triiiiim!

_ Alô?
_ Alô, filha?
_ Oi, mãe.
_ Olha, tá tudo bem, viu? Fica calma.

Pausa para comentário:
Até hoje não entendi porque, em nome de Deus, sempre que alguma coisa não está bem, as pessoas dizem: “ó, tá tudo bem, viu? Fica calma.” Como se a gente se enganasse... Essa frase é uma senha para o coração disparar, a boca ficar seca e a gente começar a hiperventilar quase instantaneamente.

_ Mãe, o que aconteceu?
_ Então... o Montanha caiu.
_ Caiu? De onde?
_ Do chão mesmo.
_ Mas ele tá bem?
_ Er... tá. Quer dizer... tá.
_ Mãe, o que foi?
_ É que ele está chorando muito e querendo você. E o nariz dele tá sangrando.

Fui pra casa correndo o que, em São Paulo e na hora do rush, significa pelo menos 45 minutos de demora. Quando cheguei, o moleque já tinha desistido até de chorar, mas o sangue não tinha desistido de escorrer. Sair para o hospital naquela hora significaria um deslocamento de 1,5 Km em cerca de 40 minutos. Esperamos dar oito horas e fomos para o pronto-socorro. Chegando lá, fila, gente e muita espera.

_ Tem algum paciente sangrando?
_ Tem, sim, o Montanha aqui!

Furamos a fila do atendimento, mas não a da tomografia. Duas horas depois, finalmente um enfermeiro veio buscar uma criança cansada, inchada e levemente sanguinolenta. De cadeira de rodas.

_ Uhúúúú! Radical! Olha, mamãe, eu na cadeira de rodas!
_ Tô vendo, filho.
_ Dá até pra fazer umas manobras, olha só!
_ É melhor a senhora pedir pra ele descer. Se a cadeira cair, ele pode se machucar... mais.
_ Filho, escuta o enfermeiro.
_ Hein?
_ Desce já daí, menino, não é porque a gente tá no pronto-socorro que você vai querer fazer um tour pelas especialidades, né?

_ O que é tour? O que são especialidades?

Na sala da tomografia:

_ Caramba!!! Radical, sensacional, um portal dimensional, mamãe, olha só!
_ Tô vendo filho.
_ É aqui que eu vou fazer o exame?
_ É.
_ E o que é que eu vou fazer?
_ Você vai deitar aí, ficar feito uma estátua e aquele moço que você não está vendo ali, atrás daquele vidro, vai ligar o portal dimensional para olhar dentro da sua cabeça.
_ No meu cérebro?
_ É.
_ Uaaaaauuu! Radical! Ele vai ler meus pensamentos, mamãe?

_ Eu espero que não, filho. Sinceramente, eu espero que não.

2 comentários:

Dedinhos Nervosos disse...

hahahaha
Muito legal!!!

Virgínia disse...

TADINHO! Ainda bem que criança encara tudo da melhor forma possível! Já entrei no portal, também... 2 vezes. Um pouco sufocante, eu diria, melhor não abrir os olhos, porque a sensação da esmagamento é horrível. E olha que nem tenho claustrofobia!
Espero que esteja tudo bem com o Montanha!