sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Mudanças

Não tem jeito. Mais cedo ou mais tarde, uma hora ou outra, todo mundo muda. Uns mudam devagar, por etapas; outros mudam de repente e tem gente que nunca chega a se fixar de verdade. Minha vida foi assim por algum tempo. Tanto, que aos 28 anos, tinha acumulado dezesseis mudanças no currículo. Felizmente, de algumas eu nem lembro, mas lembro perfeitamente que em determinada fase da vida, não cheguei a passar nem seis meses num lugar. O fato é que, de repente, tudo se estabilizou e eu passei dez anos inteirinhos em um mesmo lugar. Até essa semana. Essa semana, mais precisamente segunda-feira, foram uns moços fortes lá em casa e empacotaram absolutamente tudo o que acumulei até hoje em questão de horas. Se por um lado fiquei impressionada com a eficiência, por outro me fez pensar na impermanência da coisa.

De repente, tudo o que eu juntei, comprei, colecionei, dobrei, trabalhei, escrevi, vesti, recortei e organizei foi parar em um punhado de caixas pardas, todas iguais, firmemente fechadas com fita adesiva grossa. Para diferenciá-las, só umas letras apressadas com informações vagas como “quarto menina” ou “cozinha”.

Olhei as paredes nuas e o chão vazio e tentei, com toda força, lembrar do que a minha irmã havia dito: “parede não tem memória, Ana. Coisa boa, a gente guarda aqui, ó. No coração.” Ela tem toda razão, mas e pra pôr em prática? Fiquei ali, lembrando da minha filha pequena, do primeiro dia na escola, da primeira festa junina, da primeira amiguinha; dos aniversários, da minha festa de trinta anos; lembrei de quando fiquei grávida do meu filho, de quando chegamos da maternidade; do tempo que minha mãe passou conosco, da minha separação, de mudar todos os móveis de lugar e de refazer a vida ali, com as crianças. É verdade que paredes não guardam lembranças, mas aquelas testemunharam um bom pedaço da minha vida. Impossível ficar indiferente, pelo menos para mim. Só que, mais cedo ou mais tarde, todo mundo muda e eu também mudei. Ou estou mudando. Nos dois sentidos.

9 comentários:

Cassio disse...

Bom mudar !!!

Fico feliz pelo incio de uma nova estória :)

Parabéns !!!

Renata disse...

É como te falei por e-mail.
De repente, o que te faz sofrer agora pode te trazer novos ares, novas idéias, novos prazeres. E só de pensar nas diversas "primeiras vezes" de várias coisas que vão acontecer no novo lar, já anima um pouco mais, não?

Que vc e a criançada sejam imensamente felizes no novo lar.

Bjos.

MH disse...

Mudar é bom... exige um período de adaptação, e certas coisas sempre deixam saudades, mas a vida evolui, estão todos bem, e a mudança vai trazer muitas coisas boas e lembranças novas!
Feliz casa nova!

Lala disse...

Tchau paredes testemunhas!
Oi novas paredes testemunhas!

Que testemunhem coisas lindas!

Mulher Solteira disse...

Ana,

minha solidariedade! Também mudei faz mais ou menos um mês e meio. Nessas já perdi a minha cachorra, que entrou no elevador em um momento de distração meu. Rendeu post! Tá lá no Mulher Solteira.
Beijos.

Ana Téjo disse...

Cassio,
Eu também.

Rê,
Sem dúvida. Tudo depende da forma como a gente encara.
Obrigada.

Ana Téjo disse...

MH,
É bom sacudir tudo de vez em quando, não é?
Obrigada.

Lala,
Se Deus quiser...

Ana Téjo disse...

Mulher,
Então você sabe como é. Espero que já tenha encontrado. Vou lá visitar seu blog.

Anônimo disse...

Ana,
Passei por esses mesmos sentimentos quando eu estava fazendo a mudança - a compra da casa, a reforma com todos os sonhos da época, as brincadeiras das crianças, os amigos que passaram por lá, a separação, a tristeza, o recomeço naquele mesmo lugar, enfim...
Aí eu falei para a minha filha (que também estava bem triste em mudar de casa) uma coisa que serviu talvez mais para mim do que para ela: para nós parece importante, mas para essa casa (um sobrado construído na década de 40), nós somos só mais alguns que passarem por lá, que o importante é o que nós somos e levamos dentro de nós.
Papo meio infantil esse de como que a casa pensa, né? Mas surtiu efeito nela e em mim.
Krys.