quarta-feira, 5 de março de 2008

Pomba-gira

Eu detesto pombos. Sempre detestei. Morro de nojo. Sou do tipo que compraria uma camiseta dizendo "Vá a Piazza San Marco, mas não me convide". Nem da emblemática pombinha branca, símbolo da paz, eu gosto, mas tenho meus motivos.

Minha guerra definitiva deu-se num dia causticante de verão. Na época, meu carro não tinha ar condicionado, mas eu já era tão paranóica quanto hoje. Em conseqüência disso, não abria os vidros nunca. Preferia cozinhar ao sabor do ventilador, que jogava ar quente para dentro do carro. Nesse dia em particular, era cerca de uma hora da tarde, fazia uns 40 graus e eu estava quase grudada no banco de tanto suar. O vento quente já estava baixando minha pressão e ameaçava começar a derreter os poucos neurônios remanescentes. Num gesto de desespero, fiz o impensável: abri o vidro do lado do motorista. Estava na rua Tabapuã que, para quem não conhece, é um lugar aprazível e arejado, repleto de edifícios comerciais, sem uma única árvore num raio de dez quadras, em qualquer direção.

Pois lá estava eu, parada, esperando o farol* abrir quando, do além, entra um pombo a toda velocidade DENTRO DO CARRO! O bicho veio num vôo suicida, da esquerda para a direita, passou pelo vidro aberto do motorista, cruzou o espaço interno do carro, roçando as asas entre o meu rosto e o vidro da frente e bateu, com tudo, no vidro fechado do outro lado. Com a cabeçada, caiu no chão do lado do passageiro e ficou ali, estrebuchado. Não sei se a intenção do pombo era pegar um atalho, mas o fato é que depois de alguns segundos de puro estado de choque, comecei a gritar dentro do carro,
em pânico. Só de pensar que aquele animal havia "tocado" em mim, me deu vontade de fazer um peeling cirúrgico. Na calçada, uma ou duas pessoas que tinham presenciado a cena pra lá de insólita, riam às gargalhadas. Em desespero, saí do carro, dei a volta, abri a porta do passageiro e comecei a gritar "xô, xô!" para o bicho semi consciente. Para reforçar meu ponto de vista, batia com os pés no chão com toda força. Eu, não o pombo. O farol abriu e os motoristas de trás começaram a buzinar. Mas seria mais fácil um boi voar SP-LA non-stop do que eu sair dali, com aquela criatura se contorcendo dentro do carro. Pegar nele, nem pensar. Fiquei ali, gritando: "fora, pombo! Fooooooora! Saaaaaaaaaaaaai daqui! Vai embooooora do meu carro, meleca! Sai! Agooooooorraaaaaaa!" e as pessoas da calçada rindo cada vez mais (em vez de virem me ajudar, os vermes). Droga de bicho irracional, pensei, revoltada. Cheguei a pensar na possibilidade de pegar o troço com o tapete de borracha, mas e o medo dele sair voando pelo carro? E o medo de que reagisse e me atacasse de novo? Porque aquilo foi um ataque pessoal, não há como me convencer do contrário. Atrás de mim, as buzinas aumentavam. Evidentemente, os outros motoristas não sabiam da minha situação crítica, ou teriam chamado os bombeiros, o resgate, o nine-one-one... alguma coisa. Depois do que pareceu ser uma eternidade, o pombo deve ter ficado surdo ou desistido de me ouvir gritando e saiu do carro, cambaleando. Mais que depressa, fechei a porta do passageiro, entrei no carro, fui até o posto mais próximo e pedi uma lavagem completa, com especial atenção para a aspiração na parte interna. Na seqüência, fui para casa tremendo e tomei um banho caprichado. Cheguei atrasada na agência e levei algum tempo para me recuperar. Mas aprendi a lição: nunca mais abro a janela do carro. Com ou sem ar condicionado.

*sinal, semáforo, sinaleiro.

11 comentários:

Dani disse...

Também tenho verdadeiro horror a pombos. Segundo meu noivo, eles são verdadeiros 'ratos com asas'. Odeio quando estou numa praça e aquelas criancinhas saem correndo atrás de uma legião de pombos, que saem voando espavoridos e sem direção e tirando 'finos' apavorantes da gente. Sem falar que eles adoram se encarapitar em fios e postes, para mirar suas necessidades bem nas nossas cabeças, blusas, blazers, etc.
Enfim... é um bicho pestilento mesmo. Detestável.

Beijos. :-)

Paloma disse...

Bom, eu sou obrigada a concordar que o animal não é nada simpático. Mas eu tenho que ter algo a favor, afinal meu nome é Paloma! rsrs
Gosto das representações de pombas nas pinturas, nas anunciações, etc.
No mais, que experiência louca essa sua, viu!! Vou confessar que morri de rir, mas também de dó! Beijos!

vivi disse...

Como dizem por aí, eles são ratos de asas né, Ana...
Cruz credo.
Fora o barulho que fazem. Um nojo...
Agora, o fato foi ESPETACULAR, hein!?
hehe
beijão

Re disse...

Ana,
E sabia que o pombo passa piolho?
Nojento... é o rato dos céus....
ótima história, só acontece com quem tem MUITO medo de pombo... rsrsrsr
bjs
Re

Cláudia disse...

ana
minha irmã criava um pombo no parapeito da janela dela, mas levando em conta que ela desvirava todos os besouros cascudos pretos quando chegava de manhã na UnB, a gente até releva.

Já dei muito milho a pombo na Cinelândia (não, não é sentido figurado, meu pai levava a mim e à minha irmã).

beijo

Virgínia disse...

Eu tb já fui atacada por um pombo desvairado! Estava indo a pé para PUC/SP, já na calçada da Min. Godoy vejo um pombo cinza vindo em minha direção. Resolvo abaixar para não ser atingida... ele não se dá por vencido, muda o plano de vôo e me acerta em cheio na cabeça!
Foi horrível! Cena tosca! Ainda bem que era de manhã bem cedo e tive poucas testemunhas... me solidariedade"

Ramon Silva disse...

Coitado dos pobrezinhos! Tá certo, eles são asquerosos, mas alguns são so cute!
Eu quase morri uma vez com um pombo na cabeça. Estava eu voltando do meu almoço e regressando à empresa, quando não mais que de repente, viro à direita na rua que me era de praxe e ouve-se um barulho a dois centímetros do meu pé BOOOOM! Morri, pensei. Olho pra baixo pra ver se eu estava volitando... ufa! Graças a Deus estava tudo certo. Era apenas um pombo que caiu feito uma pedra do telhado de uma loja... Detalhe, o pombicida do lojista colocou veneno para matá-los, coitadinhos. Olhei à minha volta e parecia que tinha chovido pombos na cidade... Pelo menos eu ainda estou vivo! Imagina se o camarada cai em cima da minha cabeça? Eu estava à essa hora ditando mensagens para o Divaldo Franco lá do plano espiritual! ;-)

Aproveitando o ensejo, sinto-me na obrigação de agradecê-la por uma ajuda, ajuda não, um SOS, que voce me deu! Sim! Sabe como? Assim:
www.bolsademulher.com/familia/materia/o_bife/6120/1

Adorei a explicação. Adorei tanto seu jeito de escrever que resolvi Googlar atrás de você! Achei seu blog e cá estou para render graças à diva que me ajudou a fritar um bife na ausência da minha querida e amada cozinheira! Ops! Digo... Esposa!

Um Abraço!

Ana Téjo disse...

Dani,
Você me entende.

Paloma,
Ok. Pombas, só nas pinturas.
Sobre a minha desventura, nem me fale.

Ana Téjo disse...

Vivi,
Espetacular???
Foi trágico. Credo em cruz!

Re,
Infelizmente, eu sabia dos piolhos. Há uma amiga da minha tia que passou anos indo a dezenas de médicos só para descobrir, muito mais tarde, que os piolhos que ela tinha vinham das pombas que haviam feito uma colônia de férias em cima do ar condicionado dela. Pode?

Ana Téjo disse...

Clau,
Irk!

Virgínia,
A sua, sem dúvida, também é uma história de terror. Affff!

Ana Téjo disse...

Ramon,
Bichos abusados, confiados, barulhentos, atentaram contra a SUA vida... e você ainda acha cute?!

Sobre o outro assunto, que legal que você veio parar aqui. Fico muito feliz em ter colaborado para o seu progresso culinário. Espero que a sua cozinheira... digo, esposa, também tenha se beneficiado do seu novo talento.
Seja muito bem vindo.