sexta-feira, 20 de julho de 2007

Marcondes, o porteiro brejeiro

Meu prédio tem um porteiro assim: malemolente. Mulato, socado, dentes perfeitos, sorriso bonito, já foi mais magro, mas a vida boa na portaria contribuiu para os centímetros a mais no abdômen. Entenda-se que por “boa”, eu não quero dizer fácil. Ninguém questiona a dureza de permanecer sentado naquela salinha de 3 metros quadrados, dia e noite, de inverno a verão, alerta e operante. Mas o Marcondes de defende. Ah, isso ele faz.

Sabido, tem televisão – pra distrair, sabe? Ficar só olhando o movimento, cansa – aparelho de som, revistas – engraçado como todas as assinaturas chegam atrasadas lá no prédio.”È problema da editora”, explica ele, solícito. – um banheiro que deve ser o máximo porque é raro chegar alguém na portaria e encontrá-lo em seu assento. No da portaria, digo. Geralmente, depois de tocar a campainha duas ou três vezes, lá vem o Marcondes, procedente de outro assento, sorrindo, apressado.


_ Desculpe, Don’Ana. É que eu estava aqui, no...
_ Tudo bem, Marcondes. Dá pra abrir a porta que eu estou na chuva há quase dez minutos?

Ele é assim, sociável. Sabe priorizar as coisas como ninguém: pode até deixar um morador esperando, com oito pacotes, dois filhos e um cachorro do lado de fora, mas não deixa passar uma morena bonita de jeito nenhum. Conhece todas as empregadas, babás e manicures do bairro pelo nome e sempre que elas passam – e como passam! –,faz questão de cumprimentar, perguntar da vida, saber da família e principalmente dos amores em horas intermináveis de conversa através do portão.

Tem quatro filhos: três meninas com a mulher e um menino – justo o menino-homem – “por fora”, com a Diolinda. “A senhora sabe come, né, Don’Ana?”

Democrático, não tem preconceito nem biótipo preferido. Valem loiras, morenas, mulatas, altas, baixas, gordas, magras... se der bola, ele está no jogo.

Filósofo, quando não está analisando algum contorno do entorno, fica com os olhos distantes, pensativo.

_ Marcondes? Marcondeeeeees? Dá pra abrir a porta, por favor?
_ Ah, claro, Don’Ana. É que eu...
_ Eu sei, Marcondes. Eu sei.

Elegante, está sempre bem apanhado no terno azul de porteiro, com os sapatos brilhando de graxa. Capricha na gravata e quando está frio, empertiga-se todo no mantô azul-marinho que o deixa com um ar levemente exótico.

Econômico, evita se cansar. Não se oferece para carregar um pacote que seja, a menos que a mão que segura o embrulho pertença a alguém do público-alvo. Quando é assim, se desdobra em dez, em mil, se necessário.

Focado, é incapaz de dizer se o correio já passou ou se a vizinha do andar de cima está em casa, mas sabe de cor os períodos de férias das prestadoras de serviço do prédio. De todas elas.

Ele é assim, mantém o emprego a inacreditáveis cinco anos e quem não gostar... que se mude!

13 comentários:

Isabella Kantek disse...

Gostei muito do post. Fiquei tentando imaginar o Marcondes ...
Quantas histórias não temos pra contar sobre essas figuras!

Beijos

MH disse...

um dia escrevo sobre a "equipe" do meu prédio... 3 Severinos e 1 Zé. Só um é simpático e educado, tadinho, solícito, até. O resto é tão econômico e focado quanto o seu Marcondes...

Cassio disse...

Resumindo....
Um homem normal :)

Gosto dele desde os outros posts.

Lembra daquele dia que ele não queria deixar um amigo seu subir (Porque tinha já tinha outro ai)? :)

vivi disse...

Ana, no meu prédio tem o Zé, o Zé Galdino e agora, o Souza que entrou no lugar do Zé. O Zé estava muito focado, sabe!? E deve ter resolvido procurar outro emprego melhor, com mais infraestrutura...
bj

Anna disse...

Desse mal eu nao sofro, meu prédio não tem portaria!
Mas como trabalho numa construtora, cujo foco é conjunto residencial, conheço váááários desses porteiros, eles sempre ligam pra construtora fazendo perguntas que deveriam ser respondidas pelos síndicos ou pela administradoras de condomínio. Mas não... eles acham que porque nós construímos o prédio, temos que dar conta de tudo o que acontece lá dentro depois que entregamos a obra. Até de quem paga ou não paga o condomínio.
Ouso dizer que são quase todos iguais!
Beijo

Greice disse...

Ana, não vou falar do Marcondes, figurinha comum na nossa vida. E sim da maneira como você o descreveu. Adorei o texto, e até a última linha eu fiquei na dúvida se ele lhe agrada ou não. Parabéns, gostei muito!
bjs e bom final de semana!

Rubina disse...

Tou a ver. Ana, não gostei muito desse porteiro não...lol...

Ana Téjo disse...

Isabella,
Nem imagine.
E histórias não faltam. Daria para escrever um blog só sobre eles.

MH,
Affff!
Só não entendi uma coisa: por que, justo o que é simpático, educado e solícito, é "tadinho"?

Ana Téjo disse...

Cassio,
Normal??????????? Xisus, apaga a luz.
E, sim, lembro daquele em que ele não queria deixar meu amigo subir. Tão bom, ele... Estava preservando meu bom nome, sabe? Credo!

Vivi,
Capaz... uma vista melhor, uma guarita mais arejada, com banheiro, máquina de café expresso, empregadas mais jeitosas...

Ana Téjo disse...

Anna,
Você é uma mulher de sorte.
Morri de rir com a história dos porteiros ligando em massa para a construtora.

Greice,
Obrigada, querida.
E só pra você não ficar na dúvida: não, eu não gosto dele.

Ana Téjo disse...

Rubina,
É compreensível. Eu também não gosto.

MH disse...

ah, Ana, ele tem cara de coitado, sabe? rs

Ana Téjo disse...

MH,
Escreve sobre eles, vai? Vou gostar de ler...