terça-feira, 27 de março de 2007

O naufrágio

Aí, aos dezesseis anos, eu ganhei o direito de usar lentes de contato e minha vida mudou. Exatamente como naqueles comerciais péssimos da Bausch & Lomb, passei a ver o mundo cheio de detalhes que, de repente, tinham ido parar lá, vindos sabe-se Deus de onde.

Só que usar lentes é uma arte que exige alguma técnica. Chorar, por exemplo. Quem usa lente nunca mais chora do mesmo jeito, fazendo, buááá, buááá, sob o risco de perder algumas centenas de reais em um lenço de papel. Coçar o olho é outra coisa que requer prática & habilidade da tribo dos míopes disfarçados. Há um jeito todo especial de coçar para impedir que a lente se precipite. Mulheres aprendem rápido que não podem tirar as sobrancelhas usando lente (o que torna impossível fazer o serviço sem ajuda de terceiros) e que o rímel à prova d’água é a melhor invenção da cosmética, desde os tempos do leite de cabra de Cleópatra.

Eu, iniciante que era, ainda não sabia de nada disso, o que garantiu uma série de surpresas, nem sempre boas. Como no dia em que fiz minha mãe me levar à clínica, berrando dentro do carro, porque a lente – na época, gelatinosa – tinha dobrado e ido parar na pálpebra superior. Só que, para meu desespero, a danada não tinha ficado ali, quietinha, dobrada ao meio. Virou uma espécie de trouxa de contato, quase impossível de ver e muito menos de tirar do olho. E eu, urrando de pânico, com medo da lente romper as fronteiras do globo ocular e ir parar no cérebro. Teria idéias visionárias, certamente. Mas não era tão otimista naquela época.

Pior ainda foi no dia em que, já fora de casa e iniciada nas “delícias” do café da manhã britânico, perdi uma lente em um prato de sucrilhos com leite. É claro que o primeiro impulso, felizmente contido, foi o de mergulhar na tigela para resgatá-la.

Parêntese: nessa época, eu comia apenas sucrilhos. Com o tempo e a convivência, passei a consumir cereais bem menos apetitosos, daqueles parecem já ter sido mastigados & digeridos previamente, antes de chegarem ao prato. Fecha parêntese.

O fato é que lá estava eu, atrasada para a faculdade, com uma tigela semi cheia de sucilhos e uma missão quase impossível. Dei o alerta.

_ Socoooorrrro! Minha lente caiu nos sucrilhos!
_ Ohmigod! E agora?
_ Agora, eu preciso da lente de qualquer jeito. Não tenho a menor condição de ir caolha para a faculdade.
_ Vai de óculos, ué!

Fulminei o autor da frase com o olho que ainda enxergava. Francamente! Qualquer pessoa com mais de dezessete anos sabe que é mais fácil fazer um boi voar, do que convencer uma adolescente a ir para a faculdade de óculos.

_ Não vou nem morta. Tenho que achar a lente e já!

De repente, a providência divina fez com que surgisse uma peneira na minha frente.

_ Côa os sucrilhos, Ana. Você tira o leite e fica mais fácil achar a lente.

Fui com a tigela e a peneira para a pia e esvaziei o líquido. Nem sinal.

_ E agora?
_ Agora, você vai pegando os sucrilhos um por um e vendo se a lente não está grudada nele. Se não estiver, você joga o sucrilho fora.
_ Mas e se eu não vir a lente grudada e jogar o sucrilho fora? Eu ainda nem acabei de pagar essa lente...
_ Olha direito, né, Ana?
_ Como?

Alguém faz idéia de quantos sucrilhos cabem em uma tigela com leite? Pois eu digo: setenta e seis, depois de duas colheradas. Fiquei mais de meia hora ali, quase chorando, míope feito um morcego, examinando sucrilho por sucrilho até encontrar o maldito pedacinho de silicone. E alguém acha que consegui ir para a faculdade de lente? Nãããão! A lente estava tão engordurada e açucarada, que mesmo depois de duas ou três lavagens e enxaguadas, tive que deixar a danada fervendo para poder voltar a usar.

E antes que perguntem, não. Eu não fui de óculos. Fui com uma lente só, sentei bem na frente e pedi delicadamente aos professores que, excepcionalmente naquele dia, escrevessem com letra beeem grande.

12 comentários:

nana disse...

Nossa, mas que tipo de lente é essa que você usa? Com a minha dá pra chorar adoidado! E usar qualquer maquiagem. Até natação eu faço com a lente (usando óculos de natação, claro). Mas coçar o olho não é recomendável mesmo, não.

Gastón disse...

Bom, estou livre delas. A melhor coisa que fiz na vida foi operar minha miopia. Meu problema era sentar perto de fumante. Ou seja: um problema quase constante. Uma beleza ficar com o olhor ardendo, vermelho e congestionado por causa de cigarro. Pra cigarro eu rosnava mesmo. E ainda rosno.

Andorinha... disse...

É isso aí, Ana!
Teria feito a mesmíssima coisa que vc. Ir à faculdade de óculos, seria o mesmo que atestar sua falta de auto-estima.
Eu, por exemplo, deixei de usar óculos ao entrar na puc. E nunca mais usei. E operação também nem adiantava no meu caso...
Pior: só fui colocá-los, e olhe lá, ano passado, com o advento da maturidade dos 30...
Durante este tempo? Ah, até que vivi muito bem sem óculos, viu! Beijos,

Andorinha... disse...

(maturidade dos 30 foi uma ironia, viu, apenas para avisar; caso vc suspeite em acreditar)

Adauto disse...

Não sei se de lá pra cá você chegou a fazer a dita cirurgia, mas vamos lá:

Case One: A Dona Patroa, já há alguns anos, fez a dita cirurgia. Segundo ela, a melhor coisa do mundo é poder acordar e enxergar tudo claramente, sem ter que ficar tateando atrás de óculos.

Case Two: Tenho um amigo que tem "aproximadamente" o mesmo grau que a ex-eposa e o irmão. Como fazem? Compram em conjunto um conjunto (ARGH!) de três pares de lentes e dividem entre si. O detalhe é que ele usa a lente o tempo todo. Não tira nem pra dormir. Por MESES a fio...

Rodolfo Barreto disse...

Em terra de Kellogs,
quem tem uma lente é Nerd.

Ana Téjo disse...

Nana,
A que eu uso é do tipo que não dá ra fazer nada disso, mas que dá pra enxergar o que, no meu caso, já é um graaande ganho.

Gastón,
No meu caso, não adianta. A cirurgia, digo; não os fumantes.

Ana Téjo disse...

Vivi,
Não é? A gente tateia um pouco aqui, se guia por instrumentos ali e vai tocando. A coisa começa a ficar preta quando a gente passa a não conseguir mais enxergar as letrinhas no computador. Ou quando se perde no trânsito porque a rua que deveria estar por ali, sumiu, misteriosamente.

Adauto,
Eu não posso fazer a bendita cirurgia, mas adorei seus causos e, esse negócio da compra coletiva não chegou a me chocar. A Bausch tem práticas caixinhas de lentes descartáveis com seis lentes em cada (3 pares), que podem ser compradas em conjunto e fracionadas. Só que elas não duram muito. Aliás, devo ter umas 3 dessas sobrando em casa, cerca de -1,25, acho. Se quiser...

Ana Téjo disse...

Rod,
Vc fala assim porque não precisa. Humpf!

Anônimo disse...

Que situação!!!
Nossa!!Tenho um primo q ele usa desde de novo tbm...Eu não conseguiria colocar, qto mais ter esse monte de cuidados ai...
Uso oculo!Super fashion...rs.Mas é pouquinho grau...e uso em casos bem especiais...
Faculdade, nem tenho muito problema nao...só coloco qdo já estou dentro da sala e qdo as luzes estao apagadas, pois minhas aulas são no multimidia...sabe?
Mas eh isso....

beijos

Mary

Emilia disse...

Só você para me deliciar com estas histórias!

Ana Téjo disse...

Mary,
Muito chique, muito fashion e muito poderosa, você.
Hoje em dia, acho que eu até usaria óculos, mas as "pazinhas" me dão alergia no nariz, acredita?

Emília,
Que bom que você gosta. Também adoro o seu espaço, sempre tão florido e bem cuidado.