terça-feira, 26 de junho de 2007

O nó da questão

Aí havia esse aniversário. O dono da festa era um homem sóbrio e formal, profissional atuante em umas das poucas áreas que ainda demandavam o uso de terno e gravata.

Inspiradíssima, ela resolveu dar um presente pra lá de inusitado: uma gravata. Eu sei, eu sei que dá pra fazer melhor, mas vamos combinar que ela não estava com tempo nem paciência de pensar em alguma coisa “criativa” pra dar? Vamos combinar também que não era tãããão amiga assim da pessoa e que queria cumprir logo sua obrigação e resolver o problema? Gravata parecia ser um presente correto e impessoal, na medida certa. Algo que deixaria claro que havia se lembrado – e investido – na ocasião, sem sugerir qualquer tipo de aproximação maior.

Se soubesse que teria tanto trabalho, teria preferido bordar o monograma dele em uma dúzia de lenços de cambraia. Do fundo do seu coração, nunca imaginou que uma mulher pudesse ter tanta dificuldade para escolher uma gravata. Achava que isso era privilégio dos homens com roupas femininas, mais por desinteresse e preguiça do que por desconhecimento real.

O fato é que lá estava ela, naquela loja elegante e colorida com mais de mil tipos de gravatas e um imenso vazio existencial. Não sabia nem por onde começar.

O vendedor, solícito e experiente, veio acudir.

_ O que a senhora deseja?
_ Hmmmm... uma gravata?

Ele quis saber como era o futuro dono do presente, sua idade e profissão. Finalmente, fez a pergunta crucial:

_ Como ele vai usar a gravata?

Ela olhou para o vendedor, cada ver mais confusa.

_ Errr... no pescoço?

O vendedor riu.

_ Senhora, eu preciso saber se se trata de um homem sóbrio, se ele aceita ousar de vez em quando, se usa cores, se transmite uma imagem profissional mais austera ou mais informal, qual é o ambiente em que trabalha, com que tipo de gente interage, se os colegas o vêem como uma pessoa acessível...
_ Dá para ver tudo isso pela gravata, é? _ perguntou ela, encantada.
_ Sem dúvida. Uma gravata é muito mais que um cartão de visitas. É um emblema masculino universal, capaz de ser lido e interpretado nos quatro cantos do planeta. A gravata certa denota estilo e personalidade e pode ajudar a fechar um contrato, a ganhar um caso ou a conseguir um emprego. A gravata errada pode pôr tudo isso a perder.
_ Puxa...
_ As listras, por exemplo. Listras diagonais são uma opção com boas chances de sucesso. Gravatas assim também são chamadas de “regimentais” porque surgiram na Inglaterra para diferenciar os membros dos regimentos reais.
_ Listrada, então?
_ Desde que ele seja a pessoa certa. Caso contrário, pode achar que a senhora o vê com mais austeridade do que ele realmente tem. Padrões de cashmere ou os geométricos pequenos também costumam dar certo, desde que na cor adequada. Bolinhas, em gravatas, são consideradas uma escolha ousada.

Ela fez um esforço imenso para se lembrar de alguma gravata que já tivesse visto nele, mas seu cérebro estava intoxicado de tanta informação e tudo o que lhe ocorria era aquele modelo de mulher pelada que o Didi, d’Os Trapalhões usava, em começo de carreira.

_ Sei...
_ Alguns homens gostam muito de padrões com referências eqüestres, ou de estampas com animais como cães ou aves...

Com aquele último discurso, suas opções haviam se reduzido de mil para cerca de setecentas e oitenta.

_ Eu... eu acho que gostei dessa aqui _ disse, insegura.
_ A rosa? A senhora gostou da rosa? Sem dúvida que é uma bela peça, de seda pura italiana. Uma gravata assim seria a escolha perfeita para um jovem empresário do ramo da comunicação. É o caso?
_ N... não _ Ela começou a ficar tensa. Só queria acertar, mas as chances de erro eram tantas... _ Se ele não gostar, pode trocar?
_ É claro que pode, mas quando receber o presente, ele vai ter em mãos uma prova inquestionável de como a senhora o vê. E se essa imagem não coincidir com a imagem que ele gosta de projetar, talvez a senhora se veja em uma situação delicada.

Ela agradeceu e saiu da loja o mais rápido que pôde, suando de nervoso. Entrou depressa em uma livraria e comprou um livro de arte, de capa dura. Nem sabia se ele gostava de arte, mas parecia ser um presente mais seguro.

Daquele dia em diante, nunca mais disse que moda masculina era uma coisa fácil e passou a olhar com muito mais respeito para os homens de gravata.

28 comentários:

ME disse...

Hahahahaha...
Mã, que máximo!!!!
O livro foi, certamente a melhor escolha, gravatas nunca mais!!!

bjos

Cláudia disse...

Ana
sabe que eu acho exatamente tudo isso que o vendedor disse?
Meu então marido usava muito terno e gravata e a gente as comprava e ele as usava exatamente de acordo com a ocasião e com a imagem que ele queria passar no momento.
E como assim uma leonina com dificuldade para escolher alguma coisa????? Não envergonhe a raça! rs
beijo

Renata disse...

Já tive essa mesma dificuldade. E olha que o futuro dono da gravata era meu melhor amigo, que conheço há 20 anos e sei exatamente do que ele gosta. Gravatas botam medo! rs

Bjos.

Anônimo disse...

Gravatas, realmente, são muito cruéis...!!!
Agora, por falar em aniversário...
hoje é minha data. Desculpe a cara de pau...mas é que estou feliz mesmo!
Talvez ainda não tenha crescido...
Muitos beijos, Vivi

Gastón disse...

Ana, apesar de não parecer, eu tenho lá as minhas gravatas. Pra casamentos, formaturas, festas de 15 anos...

Digamos que, ultimamente eu tenho usado um bocado por conta da quantidade absurda de amigos casando.

Realmente, comprar gravata é uma coisa muuuuito difícil. É extremamente pessoal. Fico um tempão pra escolher as minhas.

Anônimo disse...

Ainda bem que me interei dessas implicações todas. Estou louca para ver um engravatado e fazer a leitura da sua alma.(Vou pagar uns micos por aí, mas vou me divertir) Será que os engravatados se conhecem tanto assim, a ponto de se traduzirem pela gravata? Em todo caso, estou bem atenta, mesmo pq nunca prestei muita atenção nos de terno, sempre achei eles tão uniformizados...Deve ser por isso que o detalhe, do detalhe, tem tanta importancia! Ainda bem que já sou esclarecida sobre isso. Gostei!
Beijos
Val

Ana Téjo disse...

Filhinha,
Gostou, amor? Que bom.
Pra você, que é minha tracinha preferida, sem dúvida que um livro é sempre a melhor escolha.

Clau,
A história não se passou comigo. Eu só estou contando. Mas confesso que também tenho um pouco de medo de gravatas, sim.

Ana Téjo disse...

Rê,
E a quantidade de opções? Afff! Colar é muito mais fácil de escolher, né?

Vivi,
Parabéééééééénnnnsssss, menina!
Não cresça nunca!

Ana Téjo disse...

Gastón,
Difícil imaginar você de gravata.

Val,
Você passará a ver o mundo das gravatas de um jeito totalmente novo. Emocionante, né?

Isabella Kantek disse...

Ana, ótimo texto!
É bem isso aí, o meu marido usa terno e gravata para trabalhar e quem escolhe tanto um quanto o outro é ele.

Essa semana fui comprar camisas para ele e saí da loja igual a sua personagem, confusa. Comprei duas apenas, mas acertei. =)

Beijos!

greice disse...

Ana, que bom que este causo não é "verídico", pelo menos não pessoalmente. Fiquei até sem fôlego de ler isso. Mas estes dias tentei comprar uma gravata pro marido e não consegui. Ainda bem que não topei com um vendedor desses, se não ia ter que tomar anti depressivos por anos e anos por conta de uma não-gravata.
bjs!

J@de disse...

Puta que pariu!! Foi bom saber disso porque eu nunca vou comprar gravata prá ninguém, fala sério!! hehehehehe!!
O livro foi uma ótima escolha então né?
Mil beijos!!

Mary disse...

Putz!!!!Que vendedor, hein???
Eu tbm tenho medo de "gravatas"...nao saberia comprar assim sem essas "referências"...
Sei comprar roupa para meu irmão, me saía super bem com meu ex, que são estilos surfistas e "despojado" respectivamente.rs
beijos

Isa disse...

Agora fiquei curiosa pra saber o que diz a personalidade de um homem que usa uma gravata do Looney Tunes...que ele não teve infância??? rsrsrs...

Ana Téjo disse...

Isabella,
Eba! Que bom que deu certo. Acho que camisas são mais fáceis de comprar que gravatas. Acho, não tenho certeza.

Greice,
E o peso da responsabilidade? E o medo de ser julgada erroneamente com base em uma má escolha? Eu, hein? Mulher que é fácil, né? Qualquer trapinho de qualidade está valendo!

Ana Téjo disse...

Jade,
Creio que sim.

Mary,
Mesmo com essas "referências", a coisa não é fácil. Na hora H dá um nervoso, uma angústia...

Ana Téjo disse...

Isa,
Se foi no começo da década de 90, significa que ele é um fashion victim. Se foi depois disso, prefiro não opinar.
Só me conta: eram cartoons pequenininhos ou um baita Piu-piuzão, com gaiola e tudo, ali, no meio do peito?

MH disse...

Adoro homem de terno e gravata. O meu, então, fica lindo.
Mas escolher é muuuuuito difícil. São muitas, mas realmente cada uma denota uma coisa. E combinar corretamente com a camisa tbem pode ficar complicado, já vi cada coisa medonha...

Também não falo mais que roupa de homem é fácil de resolver...

Adauto disse...

Putz...

Acho que nunca mais vou conseguir usar minhas gravatas novamente... Vai sempre pintar uma dúvida cruel existencial sobre minha própria pessoa.

Ainda bem que o vendedor sequer entrou no mérito dos tipos de nós também, hein?...

Ana Téjo disse...

MH,
Também adoro. Principalmente o meu.
Coisa complicada, né? Quem diria...

Adauto,
Já pensou, se você projeta uma imagem diferente da pessoa que realmente gostaria de ser? O risco de perder a própria identidade, ou pior: de ficar SEM identidade é imenso.
E nem me fale em nós. Já pensou? Windsor, semi-Windsor, Double Simple, Four in Hand, Small Knot, Pratt, .. afff!

Anônimo disse...

Tem um rapaz onde eu trabalho que usa camisas de tecido sintético e cores primárias, sapatos preto-e-branco e gravatas abomináveis, tem uma com a família Simpsons!!! Nem imagino qual impressão ele quer passar, deve ser um suicida social.
Que susto!
Bjs. Rosana.

Ana Téjo disse...

Rosana,
Caramba! Ele consegue errar TUDO, de cabo a rabo?
Fora o mau cheiro, né? Camisas sintéticas costumam ser o maior desafio para os fabricantes de desodorante.

Anônimo disse...

Ele erra até no cabelo (gel com topetinho). E quanto ao cheiro, é por isso que eu sei que a camisa é sintética...
Listras, eu apostaria nelas.
Bjs. Rosana.

Rodolfo Barreto disse...

Gravatas, colares e filhos.
Tudo que se pendura no pescoço é importante.
:)

Ana Téjo disse...

Rosana,
Tira um foto dele, por favor. Nem precisa aparecer o rosto. Tira, porque uma pessoa assim merece um post. Eu adoraria fazer um "Jogo dos Sete Erros" usando-o como tema.

Rods,
Boa!
Namorado também, né?

Isa disse...

Ana

Um Taz gigante, rodopiando, uma coisa de louco...rsrs...

bju

Anna disse...

Afff,
eu tive um gerente há anos atrás que usava gravatas com enormes Taz, Piu-pius, Pernalongas...

Sem contar que isso num ambiente profissional onde ninguém, absolutamente ninguém (nem o diretor geral) usava gravata!

Esse deve ter sido mais um dos inumeráveis motivos para ele ter sido demitido...

Tenho náuseas só de lembrar da criatura...

Beijo
Anna

Ana Téjo disse...

Isa,
Por Deus!
Eu, definitivamente, prefiro não opinar. Vai que é alguém de quem você gosta...

Anna,
Um estranho no ninho, com toda certeza.