sexta-feira, 1 de junho de 2007

Overdose

Nasceu e, de tão pequeno, foi logo enrolado num punhado de jornal para se aquecer. Tomou gosto pelas palavras desde cedo.

Demorou a andar. Quando fez sete anos, o padrinho enterrou-o nas cinzas da fogueira de São João. Funcionou, mas ficou fraco das pernas, o que era bom, porque o pai judiava menos no canavial. Quem judiava mais era o sol. Em legítima defesa, procurava qualquer coisa que fizesse sombra e espichava o quanto podia o almoço, entretido com a folha de jornal que a mãe usava para embrulhar a comida. Admirava aquelas letras enfileiradas, acabando sempre no lugar certo, numa ordem que sua vida não tinha.

Aprendeu a ler sozinho, na venda, comparando os nomes das coisas que conhecia com os escritos embaixo delas. Dali a desenhar o nome, foi um pulo.

Impressionava. Compensava a fraqueza das pernas com a força das palavras. Vomitava conhecimento. Comia quem queria. Era quase autoridade.

Cresceu e resolveu que, sabido assim, merecia uma chance. Enfiou o que tinha numa trouxa. Na saída, ganhou um par de sapatos ainda bons, embora furados, que forrou com jornal.

Foi pra cidade decidido a ser rei, mas descobriu que sua cultura não era assim, tão grande. Lá, qualquer um lia. Lia e desenhava muito mais que o nome.

Na rua, todos os escritos do mundo. Jornais de dois ou três nomes, diferentes todos os dias. Em vez de achar graça, foi se acabrunhando. As pernas enfraqueceram de novo e parou de andar de vez, intoxicado com tanta informação.

Encontraram o corpo dias depois, o rosto caído num prato de sopa de letrinhas. Morrera engasgado com as próprias palavras.

13 comentários:

Rodolfo Barreto disse...

Clap, clap, clap, clap.
Excelente!

Sempre que eu começo a ler um livro, ver um filme ou uma peça de teatro, tento advinhar o final. É um bom exercício e você acaba criando finais alternativos, como naqueles livrinhos de rpg de bolso que pula de página em página.

Nesse aqui, eu pensei que ele ia acabar morto como um indigente, com o jornal lhe cobrindo a cara (afinal, indigente não tem rosto e sim cara).

Gostei do sabor das sopas de letrinhas. Ótimo final :)

Anna disse...

Faço coro com o Rodolfo...
Excelente!
Clap, clap, clap, clap...
Muito clap, clap!

ADOREI!!! Na medida certa!

Beijo
*Anna*

mc disse...

Uma coisa assim, meio Chico...
Muito inspirada!

Andorinha... disse...

Exato, MH!!!
Uma coisa to-tal meio Chico...
Quando não esperamos o final...
Clap, clap, clap, Ana!
Parabéns!
(O meu final, seria um homem de sucesso, mas fiquei abestada com o afogamento na sopa de letrinhas!!).

Ah, e estou aguardando ansiosamente o seu livro, viu! Lembra!?

Osc@r Luiz disse...

Parabéns!
Será que ainda há sopa de letrinhas?
Andei procurando por isso numa ida ao supermercado (aquilo que você adora) e não encontrei mais...
O problema dessa sopa é que se vamos escrever uma proparoxítona dodecassílaba, a sopa esfria!
Beijo!
Clap! Clap! Clap!
Para juntar-me ao coro feliz!

Fabi disse...

Rodolfo começou eu tenho que continuar.
Clap, clap, clap,clap,clap.

Muito legal!

Obrigada pela visita.

Oscar Luiz, ainda existe sopa de letrinhas, eu compro sempre.

Claudia Aleixo disse...

Que lindo Ana...Amei!!! Escreve mais, escreve mais.....Beijos

Ana disse...

Nossa Ana, sensacional! Parabens!
Bjs

Emilia disse...

Muito forte e belissimo este teu texto, Ana.Dá muito o que pensar. Outra coisa não esperaria da talentosa Pensatriz.
Bjo

Ana Téjo disse...

Rods,
Tks! Vindo de vc, o elogio vale ainda mais.

*Anna*,
Que bom. Obrigada.

Ana Téjo disse...

MC e Andorinha,
Caramba!!! Meio "Chico"? Meninas, agora eu estou me sentindo a Rainha da Cocada Poética!
Livro, um dia, querida.

Ana Téjo disse...

Oscar,
Existe, sim. Na sessão de macarrão, lá na pontinha. Pode procurar que ainda outro dia eu comprei pra minha casa.
Divertido ficar montando Os Lusíadas na sopa, né?

Fabi,
Eba! Obrigada também.

Ana Téjo disse...

Claudia,
Vou escrever, vou escrever.

Ana,
Eba! Tks!

Emília,
Puxa! Muito obrigada. Estava com saudade das suas visitas, mas tenho visto que a vida anda deliciosamente movimentada.