quinta-feira, 28 de junho de 2007

Então estamos agendados

Hoje, muita gente tem celular com agenda. É legal, é leve e é prático (a não ser pela parte de ter que ficar digitando um zilhão de letras naquelas teclinhas minúsculas), mas não tem, nem de longe o glamour das antigas agendas escolares.

Lembro como se fosse hoje quando eu estava na sexta ou sétima série* e tinha uma agenda gigante, encapada com uma foto de surfe. Na época, eu assinava a revista Fluir. Logo eu, essa ratazana de praia, esse tipo tropical, essa coisinha marrom-bombom, que passava metade das férias na praia e a outra metade no hospital, me recuperando das queimaduras...

Mas havia a agenda. De vez em quando, eu até anotava alguma coisa da escola, alguma lição pra fazer, mas legal mesmo, ela colar nas páginas tudo o que cruzasse a vida durante o ano.

A regra não verbal era clara: quanto mais grossa fosse a agenda, maior o status. Quem conseguisse fazer a sua não fechar mais antes do final do primeiro semestre, tinha popularidade garantia. Quando as minhas paravam de fechar, eu colocava um elástico em volta. Depois, dois elásticos. Finalmente, adaptei um cinto velho e afivelava as agendas com ele.

Lá por setembro, as agendas já pesavam mais de um quilo. Nelas, o que se pudesse imaginar: band-aids usados, a areia da praia das férias, o chiclete que grudou no sapato, bilhetes, papel de bala, ingresso de cinema, a farpa de madeira que entrou no pé, tampinha de refrigerante, mecha de cabelo cortado, marca de beijo com batom, unha quebrada, caco do farol que sobrou da batida do carro da mãe, cílio caído, rótulo de saco de pipoca, asa de borboleta, folha de árvore, fitinha do Senhor do Bonfim arrebentada, fio de cabelo daquele menino, grampo...

O bom era que também funcionava como arma. Sim, porque a missão de vida dos meninos era roubar agendas. Mais que o jogo de futebol na hora do recreio, mais que atirar bolas de papel higiênico molhado no teto do banheiro, mais do que ter coragem de detonar uma bomba na privada no último dia de aula, roubar a agenda de uma menina era uma espécie de prêmio Nobel do sucesso escolar. E eles tentavam. Ah, como tentavam. E a gente fugia. Ah, como fugia. Não que houvesse algo importante nelas, mas as agendas eram o símbolo máximo de um universo feminino cheio de mistérios e segredos. Quando algum menino conseguia roubar uma agenda, era imediatamente metralhado com uma saraivada de outras agendas. Coerência zero. Uma vez, conseguimos deixar um de olho roxo!

Se eu guardei alguma? Não. Nenhuma. Minha mãe tinha medo que aquilo desse pulga ou barata e pedia que eu me livrasse delas assim que o ano acabasse. Se eu tenho saudade? Da agenda, não. Da época, também não. Talvez sinta falta da leveza, do descompromisso e das poucas responsabilidades.

* Legenda para os leitores xófens: sexta ou sétima série é o que vocês chamam hoje de sétimo ou oitavo ano do Ensino Fundamental II.

Legenda para os leitores maduros: sexta ou sétima série é o que vocês costumavam chamar de segundo e terceiro ginasial.

20 comentários:

Mary disse...

Que Legal essa lembrança!!!!
Apesar de "xófen", passei por essa fase JÁ! E com algumas modernidades...rs
Até o 2º periodo da faculdade (hoje estou no 6º)eu tinha essa fase de "agenda"...Com tudo que tinha direito.
As minhas agendas eram menores, bem desenhadas e tal...Guardava papel de bala (com mensagens amorosas), papel de bombom serenata ganhado dos paqueras (inúmeros), cabelos e essas coisas que vc citou (algumas).
Só que além de tudo isso, eu tinha a mania de escrever tudo do dia...
Tipo diário...sem contar as escritas em codigo inventados..(que a legenda estava logo no final da agenda)...Era muita emoção...Só não tinha essa competição com as amigas...
Muito legal...
Mas hj não tenho mais paciencia pra isso...hj meu mural, capa de caderno, porta de guarda-roupas vivem cheio de Post-it de todas as cores...rs. mais Prático!!!

beijos

Mary

MH disse...

Nossa, minhas agendas... era despropositado, mas bem divertido.

também não guardei nenhuma. Também, haja espaço pra guardar aquelas agendonas infladas!!

Também não sinto falta nem delas nem da época, mas é gostoso lembrar!
beijo

Cláudia disse...

E os diários com chavinha???? umas chavinhas xumbreguetes, facílimas de arrombar.
Minha irmã tinha um diário com nome, lembro até hoje: Arthur, olha que coisa chique!
beijo

Ana disse...

Ai Ana, eu sinto saudade dessa época. Como vc disse, era descompromissada, ainda achava que eu poderia mudar o mundo e que teria uma vida inteira para fazer o que eu bem entendesse, realizar todos os sonhos...
Enfim, tb tive agendas dessas, diários (eu ficava horas recortando figurinha da Capricho pra decorá-los). Qdo fui viajar para Porto Seguro deixei a agenda com o então namorado, como prova de amor e fidelidade. Hahahaha
Deveria ter guardado ao menos uma...

Claudia Aleixo disse...

Ana, eu tenho a minha até hoje...rsrsrs...Na verdade umas tres, as mais cheias e não consigo jogar fora. Atá aquele caderno que a gente colocava um monte de perguntas de nós mesmas para o pessoal responder. E pior!!!! Tenho ainda um monte de brinquedos que não consegui dar pra ninguém....Ex: Bate-Palminha-Bate, Fejãozinho, maquina de costura da Estrela, moranguinho.....e aí vai...Não consigo me desapegar a infancia e adolescência....31 anos de puro apego. Isso é feio, né?! rs...Bom...Adorei o texto, me fez lembrar de bons momentos! Beijo!!!

Cassio disse...

Adoro ler sobre a (sua) vida :)

Anna disse...

Eu tb tinha minhas agendas estufadérrimas...
Tinha de tudo guardado ali, e como a Ana, eu tb ficava recortando as revistas Capricho para decorar a agenda...
Os dias em que acontecia alguma coisa "importante" (tipo o garoto que eu estava a fim olhar para mim, ou me dar oi, ou pegar o mesmo ônibus que eu... coisas assim, fundamentais!) ficavam registrados na agenda. Algumas coisas eram registradas em código, como a Mary lembrou...
Eu e uma grande amiga tínhamos o nosso código secreto, sabe que até hoje eu sou capaz de lembrar dos códigos?! De tanto que eu os usava.
Antes de me casar (e consequentemente mudar de casa) fiz uma limpa no ármário e joguei as 5 que eu tinha guardadas fora. Mas com uma imensa dó!!!
Boas lembranças neste post.
Beijo
Anna

Bia disse...

Ai-ai... Eu também fazia das agendas scrapbooks lotados de lembranças.

Ano passado, fiz uma dessas pro João - meu filhote. Está no baú de memórias que resolvi criar pra ele, com algumas outras coisinhas...

Ana Téjo disse...

Mary,
Eu não escrevia na agenda. Tinha medo. Era só a mania de colar coisas e umas anotaçõezinhas curtas.
Também nunca tive código, mas minha irmã teve.
Sei lá... ainda bem que a gente cresce, né?

MH,
Como dizia uma filósofa amiga minha, "tudo passa. Até uva."

Ana Téjo disse...

Clau,
Achei absolutamehte glamouroso o nome do diário da sua irmã. E o agá no ARTHUR deu um toque super aristocrático. Divino!

Ana,
Meniiiina, para a época, era a maior prova de amor e fidelidade que alguém podia dar. Estou perplexa com o seu desprendimento.

Ana Téjo disse...

Claudia,
Sua casa deve ser grande...

Cassio,
Obrigada. Como dizem na padaria na esquina de casa, "servimos bem para servir sempre"!

Ana Téjo disse...

Anna,
vou perguntar pra minha irmã se ela também lembra do código dela.
De fato, se livrar das coisas que a gente gosta pode dar uma certa tristeza, mas tenho certeza que você abriu mão das agendas para abrir espaço na sua vida para coisas muito mais importantes, não foi?

Bia,
Ai, que idéia legal! Ele vai amar ver isso tudo quando crescer.
Quando a gente fazia, nem chamava scrapbook, né? Êta nome chique!

Rodolfo Barreto disse...

Eu tenho aversão por meninas adolescentes. Sério. Detesto. Acho que as mulheres deveriam ser crianças e depois adultas.

Odeio risinhos histéricos. Não gosto de superlativos, aumentativos e exageros por causa de coisas sem valor. Não curto o modo todo rosa ou todo amarelo ou todo vermelho de se vestirem. Acho uma babaquice a super proteção desnecessária em relação às outras amiguinhas.

Acho que poderia fazer uma lista enorme, que não caberia em uma agenda de menina. Ah, isso também é ridículo.

Pronto, foi. Ufa.

Ana Téjo disse...

Rods,
Tudo ao seu tempo. A gente também não gostava de muitas coisas nos meninos adolescentes, pode ter certeza. Ainda bem que a gente cresce, né? Bem, pelo menos boa parte de nós...

Aninha disse...

Nossa... que delicia de post!
Minha tardes eram consumidas por decorar a pagina do dia da minha agenda! Nessa época td mundo dizia que eu deveria fazer publicidade, por conta da criatividade, sei lá... Diziam que minha agenda seria "meu book"... hehhehee
Ai como eu amava!
A criatividade foi-se, mas as agendas estão na gaveta... guardando ainda os nomes dos primeiros paqueras, a descrição das roupas que eles vestiam, as descobertas... hummmm ... Super saudades de lembrar de td isso!!

Ana Téjo disse...

Aninha,
Era divertido, né?
Mas, quer saber? Ainda bem que passou! Junto com as espinhas, com o medo do professor e matemática, com as aulas chatas de educação física... é. Tudo ao seu tempo.

vivi disse...

Ana, revista FLUIR era o auge da época, hein!?
E mochila da FICO.
E nos dias que podia ir sem uniforme, calça santropeito da M.Officer e por aí vai...
Realmente, meu sonho era ter uma agenda daquelas.
Escuta, estou enganada ou aqueles diarinhos com mensagens hipercalóricas das amigas também sao da mesma época, ou não!?
Um beijo grande, querida,

Ana Téjo disse...

Vivi,
No meu tempo, eram calças OP, Fiorucci e Soft Machine. As M.Oficer vieram um pouco depois, mas usei santropeito, sim. Aliás, pior que isso: Santropeito Clochard, daquele tipo que cabia a família toda na cintura e a gente apertava com um cinto. Um show!

J@de disse...

Ah eu fiz, quinta, sexta, sétima e oitava!! Mas aqui no Rio ainda falam sexta, sétima... hehehehe!!
Eu não sei como virei secretária, eu odeio agenda de papel viu? Tudo eu faço no computador... hehehehe!!
Beijos!!!

Ana Téjo disse...

Jade,
Mas na quinta, na sexta, na sétima e na oitava, aposto que eram de papel, né?