quarta-feira, 6 de junho de 2007

Cobras e jacarés

Eram um casal normal, com hábitos normais e gostos como há tantos por aí. Durante a semana, faziam aquilo tudo que casais sem filhos fazem e nos finais de semana, idem. Seriam pessoas corriqueiras não fosse por uma peculiaridade: ele era sonânbulo. Não apenas do tipo que fala dormindo, mas daqueles que levantam e saem andando. Nos primeiros tempos de casamento ela, assombrada pelas lendas de que não se deve acordar um sonâmbulo, limitava-se a segui-lo pela casa quando ele levantava, apenas para garantir que nada de mal lhe acontecesse. Com o tempo, foi perdendo o medo – das lendas e dele – e, em nome da qualidade do sono – dela – acordava sempre que sentia que ele ia levantar e perguntava:

_ EI! Cê tá acordado?
_ Tô, mulher. Vou ao banheiro.
_ Fazer o quê?
_ Que tipo de pergunta é essa?
_ Nada. Só estou checando se você está mesmo acordado ou não.
_ Tô. Vai dormir.

Ela virava para o lado e dormia. Um dia, ela acordou sendo sufocada pelo travesseiro.

_ Aaaaaiiiii! Socooorro! O que é isso, homem?
_ Hummm... hein?
_ Você enlouqueceu, é? Está tentando me matar?
_ Nossa! Desculpa. É que eu estava sonhando que tinha uma cobra gigante aqui e eu tinha que matar.
_ Sufocada?! Você ia sufocar a cobra, criatura?
_ Não; quer dizer, sei lá. Eu estava dormindo, oras!
_ Sei... e eu, se não acordo a tempo, ia acordar só no outro mundo, né?

Ela ficou desconfiada. Todo mundo sabia que o marido era sonâmbulo. Seria a desculpa perfeita para um assassinato. No tribunal, o sonambulismo serviria como atenuante e ele acabaria se safando. Estaria sendo traída? Seria prudente contratar um investigador particular? Melhor não. No resto das coisas eles se davam tão bem, que não era o caso de criar caso. Ficaria atenta, apenas.

Ele tinha uma característica interessante: não podia ver filme com cobra ou jacaré na televisão, que ficava impressionado e sonambulava na certa. Certa noite, ela estava envolvida num projeto e ele ficou assistindo Animal Planet no quarto. Adormeceu durante um especial sobre os crocodilos de Everglades, na Flórida. Aqueles, comeram o que restou dos passageiros de um famoso desastre aéreo, alguns anos atrás.

Lá pelas tantas, ele se levantou. “Ei, você vai aonde?” Silêncio. Ela saltou da cama e foi atrás. Seguiu-o pelo apartamento escuro, desceu as escadas para a sala e encontrou-o em pé, em cima de uma banqueta de bar, com uma vassoura nas mãos.

_ Homem, você enlouqueceu? Desce daí!
_ O jacaré! Cuidado com o jacaré _ respondeu ele, com os olhos vidrados de medo.

Ela, que estava acordada, tentou puxá-lo pela razão:

_ Que jacaré, homem? Não tem jacaré em Porto Alegre! E mesmo que tivesse, estamos no sétimo andar. Jacaré não sobe escada e nem alcança botão de elevador.
_ Sai! Cuidado! Ele vai te pegar!

Ele brandiu a vassoura e ela se esquivou. Salvou-se por pouco. Da vassourada, não do jacaré. Furiosa e com o coração aos saltos, resolveu acabar com aquilo de uma vez por todas. Partiu para cima do marido e agarrou-o pelas pernas. Ele se debateu.

_ Ele me pegou! Ele me pegou!
_ Não pegou, seu doido! Sou eu, sua mulher! _ Ela segurou com mais força.
_ Pegou! Pegou! Vai me morder! Me larga! Me larga!

Ela usou toda a força que tinha e, no desespero, começou a chorar. O ruído acordou-o. Ele baixou os olhos e, confuso, a viu.

_ O que você está fazendo aqui?
_ Eu? Eu???!!! Estou segurando você, caramba!
_ Me segurando por quê?
_ Como assim, por quê? Por causa dos jacarés, oras! E pra você não me matar com essa vassoura!
_ Mulher, eu não vou matar você. Além disso, a gente está em casa e em Porto Alegre não tem jacaré...

12 comentários:

Cassio disse...

Tadinha

Bom feriado a todos :)

Cláudia disse...

Depois tem juiz que nao entende porque que o marido aparece morto, acha que é de maldade, quando é mera questão de SOBREVIVENCIA.

Rubina disse...

lolololol

Viver com um homem assim não deve ser fácil Ana. Linkei uns quantos blogues no meu espaço, o seu está lá também. Dê uma olhadela quando puder. Beijão

MH disse...

adorei! E se ele acertasse a mulher, acordasse depois e visse o estrago, como saber que pensou que ali tinha jacarés??? rs

Pensatriz disse...

Procurando estava por algum blog com nome parecido com o que uso!
E não é que te encontrei?!
Ótimos textos!
E ja dizia o ditado, casamento é como submarino, alguns até boiam, mas foi feito para afundar!!
Será?!

Anônimo disse...

Anybody home?
Bjs. Rosana.

J@de disse...

No episódio do travesseiro eu já tinha vazado fora, eu heim!! Assim não tem amor que resista!!
Beijos!!

Anna disse...

Isso é que é viver uma vida de aventuras!!!
Beijo
*Anna*

Ana Téjo disse...

Cassio,
Continuam junto e felizes até hoje.

Clau,
Nesse caso, sem dúvida. Mas ela não matou, não, viu? Não ainda.

Ana Téjo disse...

Rubina,
Eles se entendem.
Eba! Vou lá te visitar.

MH,
Como explicar, né? O corpo da pobrezinha ali, esticado no meio da sala? Já pensou?

Ana Téjo disse...

Pensatriz,
Considerando que trata-se de um nome inventado, a coincidência é ainda mais impressionante.
Obrigada. Volte quando quiser.
Quanto ao casamento, sou teimosa. Eu acredito.

Rosana,
Tô aqui. Tava curtindo o feriado!!!

Ana Téjo disse...

Jade,
O dele está resistindo. E já faz quase 10 anos.
Porque se dormindo ele é "meio assim", acordado é uma das pessoas mais doces do mundo.
Acredite ou não, ela tem muita sorte.

*Anna*,
Não é? Já pensou, dormir sem nunca saber como você vai acordar?